REVOLUCIONÁRIO E DE MASSAS

“Uma nova etapa da construção de um partido operário”

Publicamos a intervenção do companheiro Rui Costa Pimenta, no XI Congresso do PCO, apresentando o informe sobre a situação política nacional

A situação política no Brasil é semelhante à internacional, mas há características diferentes. Uma delas é a presença da CUT (Central Única dos Trabalhadores), do PT, de uma esquerda ampla dirigida por uma esquerda confusa, mas que existe.

No Chile, Boric não tem nada por baixo de si, foi uma pessoa que o imperialismo pescou e colocou no governo. Lula é diferente.

Está aí há tanto tempo quanto o PCO, em décadas de luta. Isso é um problema para a burguesia, porque não se trata de convencer ou corromper Lula, é um movimento geral.

O PT é muito grande, o golpe aqui não foi 100% bem sucedido devido a essa massa de esquerda, apesar da política do PT que chegou ao paroxismo da capitulação, ao assinar a “carta da democracia”. Estão se colocando a reboque das pessoas que deram o golpe de Estado, do imperialismo. É muita desorientação política.

O partido revolucionário

Vou usar um paralelo histórico: quando os trotskistas foram expulsos da Internacional Comunista vimos uma situação paradoxal, as massas estavam com os partidos comunistas em diferentes medidas em cada país, e os trotskistas eram um grupo muito esclarecido do ponto de vista da consciência, muito capaz, mas muito minoritário. Muita gente, portanto, tirou a conclusão de que o trotskismo era inviável. 

No Brasil, o Partido Comunista dirigia os sindicatos, e os trotskistas tinham intelectuais de grosso calibre, mas eram um grupo isolado.

O problema consistia em juntar a massa que estava no PCB com a direção que está fora do PCB. Estamos vivendo uma situação muito parecida. 

A grande massa dos ativistas se organiza no PT – na medida em que isso é possível – ou em torno ao PT, mas a grande parte das tendências de luta contra a burguesia, o imperialismo etc., se expressam no PCO. Todo o problema se expressa, primeiro, em que o Partido não pode se separar desse grande contingente de ativistas, temos que procurar ao máximo acompanhar essa evolução.

Em algum momento devemos unir as duas partes que estão separadas. Esse é o problema chave para a construção de um partido operário de massas no Brasil. Temos trabalhado nisso. 

Próximas coordenadas

A primeira coisa, se manifesta em uma lei que é do desenvolvimento dessa situação. Toda vez que o PT se sente confortável, desliza velozmente para a direita. Como a própria burguesia incutiu na cabeça dos petistas que a eleição está ganha, os elementos mais direitistas levantam a cabeça. 

Em matéria publicada no Brasil 247, Tereza Cruvinel se derreteu diante do ato ridículo que aconteceu no Largo São Francisco. Um ato grotesco em que falaram Neca Setúbal, a herdeira do banco Itaú, a velha turma do PSDB, esquerdistas que se venderam para a burguesia há muito tempo, e a jornalista empolgadíssima. 

Aqui temos duas possibilidades: se Lula perder a eleição, a crise dentro do PT vai ser gigantesca. Se ganhar, a mesma crise vai se desenvolver em câmera lenta, então o governo vai se ver confrontado por uma radicalização, possivelmente uma mobilização dos trabalhadores que vai sacudir a burocracia sindical (em primeiro lugar a do PT). A burguesia vai pressionar o governo por um lado, os trabalhadores e os setores da pequena burguesia por outro lado.

Em qualquer uma das alternativas vamos ter um aprofundamento da crise. Não vai ser um período de “paz social”. De um modo ou de outro vai se processar uma luta e uma crise.

A pressão do imperialismo sobre o próximo governo vai ser gigantesca. Estamos vendo isso na questão da Amazônia; vai acontecer muita pressão. Mas não é uma coisa segura que o PT vá ganhar a eleição, estamos vendo a magnitude da iniciativa da burguesia, indicando que o PT vai levar uma puxada de tapete muito grande.

Moral da história: o que obstaculiza um maior desenvolvimento da luta da esquerda, da classe operária, das massas no Brasil são as ilusões eleitorais e institucionais. O golpe criou uma enorme polarização no País, liquidou as ilusões institucionais e deslocou uma parte da população para a direita e outra para a esquerda.

As duas partes da polarização representam setores revoltados com a situação. Se o PT perder a eleição vamos ter uma crise, muito maior do que a que houve com o golpe. Vai ser muito difícil aceitar que essa situação é democrática, limpa.

Essas ilusões vão entrar em conflito com a realidade, obrigando-nos a aprofundar nosso papel de ser a ala esquerda de um movimento geral. Denunciar, fazer críticas sistemáticas e ao mesmo tempo, agrupar setores anti imperialistas de todo o espectro político e ideológico nacional. 

E as massas?

O nosso prognóstico neste momento é que as massas trabalhadoras tendem a entrar em ação porque se desenvolve uma tendência muito positiva. A distribuição de dinheiro por Bolsonaro e a ilusão eleitoral amortecem esse movimento geral, mas a crise social já é suficiente para uma convulsão.

Em um certo sentido, estão jogando a crise para frente. Bolsonaro distribui dinheiro, com a aprovação do setor fundamental da burguesia, para conter a crise, que se explodir no meio da eleição produzirá um governo Lula dirigido pelo fogo que sair das ruas. Trabalham nisso há tempos.

Observamos o movimento “fora Bolsonaro” ser descaradamente sabotado pela esquerda pequeno-burguesa e que tanto o PCB quanto a UP, autoproclamados “a coisa mais revolucionária da eleição”, assinaram o “manifesto da democracia”. Ninguém em sã consciência que se diga comunista assinaria esse manifesto.

Inclusive o presidente da FIESP, Josué Gomes, no ato do Largo S. Francisco falou em “união do capital com o trabalho”, o que em certo sentido está correto, porque é a parte do trabalho que o capital corrompeu.

Passada a eleição, o fôlego de introduzir um amortecedor para a crise social tende a ser reduzido drasticamente. O plano da burguesia é que o próximo governo lance um plano para derrubar a economia, para justamente evitar que tenhamos um amplo movimento grevista. Para eles, é preferível o povo assaltar supermercados do que uma greve operária.

A classe operária brasileira é muito poderosa. Se caminhoneiros, petroleiros, eletricitários, as três categorias juntas entrassem em greve, o governo ficaria de joelhos.

Quer dizer: para a burguesia é melhor que tenhamos movimentos populares desorganizados de preferência no Nordeste e no Centro-Oeste, do que ter uma ação coletiva da classe operária brasileira.

Resta a pergunta: vai dar certo? A situação é tão grave que se aprofundarem a recessão, aumentando a taxa de juros e cortando os gastos ainda mais, é possível que tenhamos uma explosão social no Brasil. 

De confiança

Para a burguesia a melhor situação seria a vitória da terceira via. Um governo não é só o problema de qual política ele vai aplicar, é preciso ter confiança de que é realmente um governo da burguesia.

Quando Collor ganhou a eleição de 1989, confiscou o dinheiro que estava na poupança de todos os cidadãos e empresas. Mas assim o fez por ser uma pessoa de absoluta confiança da burguesia. Se for eleita Simone Tebet, apoiada por “Neca” Setúbal, FHC e etc., e disser que precisa expropriar empresas privadas, não tem problema. Com Lula é diferente… Mesmo Bolsonaro foi mantido sob rédeas curtas e só aceitaram a liberação de verbas na eleição para fazer Lula perder voto, o que está acontecendo.

Guerra contra a CIA

A esquerda está sendo engolida pela chamada “nova esquerda”, o que vai criar uma polarização intensa dentro do campo. A “guerra civil” contida pela ilusão do PT nas eleições seria contra os que estão financiados pela Fundação Ford, IREE (Instituto para Reforma das Relações entre Estado e Empresa) e etc. Seria a classe operária contra a CIA, pois os demais são intermediários.

É uma situação onde a polarização tende a se desenvolver de forma explosiva.

Isso tem de ser resolvido porque vai se colocar o problema da construção do partido operário no Brasil de uma forma bastante concreta. 

Bolsonarismo e a direita

A esquerda adotou a seguinte posição: não só Bolsonaro é fascista, como todos que o seguem são… a pequena burguesia se apavora com o povo na rua, crendo que “povo na rua” é sinônimo de fascismo. “Democrático” é o que fizeram no Largo S. Francisco, mas quando o povo quebra vidraças, derruba postes e etc., é fascismo. Foi assim em 2013, com o fenômeno dos “Black Blocs”, o pessoal não queria apanhar da polícia na manifestação e reagia. No PT disseram que era gente contratada para dar um golpe no PT. Nada mais natural, portanto, que vejam dezenas de milhões de votos em Bolsonaro como fascistas.

Este é um eleitorado de direita, mas uma boa parte dele é muito confuso. O próprio Bolsonaro está vestido de fascista, mas até o momento não se mostrou disposto a fazer o que é necessário para ser um líder fascista.

Quando sua base mais radical quis levantar a cabeça nas ruas, ele recuou. Tanto que Sarah Winter, uma de suas mais ferrenhas apoiadoras, hoje se diz “traída”.

Bolsonaro tem uma presença muito grande na PM, o aparato de segurança é uma base fascista. Seu movimento, tirando toda a parafernália “trumpista”, é de um setor da burguesia nacional (o mais direitista) contra o próprio imperialismo. Ele e o setor abertamente pró-imperialista da burguesia nacional não se entendem, mas não batem de frente. 

Governou sustentado pelo fisiologismo e arrebanhou uma base no Congresso, entre setores que não eram exatamente representativos do imperialismo no Brasil, em alguns casos representantes dos mesmos setores de apoio do PT. No frigir dos ovos, temos um movimento que seria bem representado pelo “centrão”. Mas não temos um movimento de características fascistas. Isso é um espantalho que a direita está usando para disciplinar a esquerda.

É importante considerar isso porque essa política de alinhamento automático contra Bolsonaro em todas as coisas é uma política que vem ficando gradativamente mais clara: a oposição do PSDB a Bolsonaro é ocasional, a do PCO vem de décadas.

Temos que ter uma política pensada, sem incorrer na tentação de parecer esquerdista bem-pensante. Ter nosso programa, mesmo que isso provoque um isolamento relativo determinados momentos, porque na questão do STF (Supremo Tribunal Federal), sabemos que a base do PT apoia o PCO; vários sindicalistas e deputados não se colocam porque a alta cúpula  impede, mas o apoio é grande, e sobre a luta contra a urna eletrônica também. Parece que todo mundo acredita que ela é perfeita, a ponto de fazerem um ato para apoiá-la, algo que em quase cinquenta anos de militância nunca vi.

Temos que manter uma política totalmente independente; navegar neste panorama político com a firmeza doutrinária, sem nos deixarmos levar pela pressão dos acontecimentos, sob o risco de  naufragarmos se agirmos diferente. Para nós, a situação política que se apresenta é mesmo complicada, o regime vem endurecendo desde que o PT estava no governo, o que quebrou este endurecimento foram as mobilizações contra o golpe; as reivindicações democráticas estão em primeiro plano, já falamos em anti-imperialistas, mas temos que acrescentar as reivindicações transitórias no sentido do programa de transição. 

Os trabalhadores estão sendo golpeados com muita força, o imperialismo prepara uma política que pode levar a uma crise totalmente inédita e isso tudo é negativo; por outro lado, desenvolve-se uma situação em que podemos desenvolver uma luta ampla pelo nosso programa, em todos os terrenos, e isso é um sinal de que a situação se aproxima de ser pré-revolucionária. Há uma evolução muito grande da luta política.

Organizar os trabalhadores

Uma questão central é ter absoluta consciência de que a defesa desse programa está ligada a duas coisas: agrupar em torno dele uma vanguarda revolucionária, militantes conscientes que levem adiante essa luta, e criar uma organização que seja uma força material. Já somos uma força que influencia a situação política nacional, é um dado. Inclusive com tudo o que aconteceu neste ano (STF etc.), nossa relação em geral com as massas mudou de qualidade, subiu a um novo patamar, temos que dar continuidade a isso. Até se consolidar como força material, precisamos entrar nessa nova etapa de construção de um partido operário no Brasil.

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