Oswald de Andrade, a personificação, na literatura, da Revolução de 30

O Movimento Pau-Brasil e a radicalização da estética e da revolta tenentista

O movimento modernista brasileiro acompanhou as mudanças revolucionárias do País no início do século XX. As inovações artísticas traduzem as transformações econômicas, sociais e políticas do Brasil, um país essencialmente agrário que naquele momento, começa a desenvolver uma economia industrial, o que vai levá-lo a posicionar-se entre os mais industrializados do mundo décadas depois.

Nesse sentido, as diferentes etapas do modernismo brasileiro são a expressão não apenas dessas mudanças, mas da própria revolução que se desenvolve no País.

Entre os artistas que tiveram papel de proa no movimento modernista, foi Oswald de Andrade quem melhor personificou essas transformações. É como se as diferentes etapas da história do Brasil daquele período estivessem materializadas numa única pessoa.

A evolução artística e política de Andrade sintetiza as principais etapas daquele período. Oswald começa como um artista que faz parte do movimento geral de rebeldia em 1922 e vai evoluindo à esquerda até aderir ao Partido Comunista.

Semana de 22: marco inicial da revolução estética

O movimento em torno da Semana de 22 é o primeiro momento da revolta modernista, mas também é apenas um ponto de partida. Ele liquida com a herança literária anterior e inaugura um novo período na história das artes e da intelectualidade brasileira.

1922 é o ano da Revolta do Forte de Copacabana, um protesto contra o governo Artur Bernardes na aparência, mas já um começo de um processo revolucionário profundo. As décadas de 20 e 30 serão as mais revolucionárias da história do País, o que culminará na Revolução de 30.

A Semana de Arte Moderna de 22, da qual Oswald de Andrade é um dos principais protagonistas, acompanha, no terreno da intelectualidade, essas primeiras manifestações da revolução que iria estourar em 30. Nesse sentido, se a Revolta do Forte e a criação do PCB, também em 1922, são sintomas iniciais, porém contundentes, dessa revolução no terreno política e social, a Semana é parte do mesmo processo, mas no terreno das artes, da estética. São importantes sinais, mas são apenas o marco inicial de uma transformação bem mais profunda que se seguirá.

Poesia Pau-Brasil

Uma vez realizado o balanço e a crítica necessários da literatura brasileira até aquele momento, o Modernismo precisava evoluir para algum lugar. Como é natural, a partir da Semana diferentes escolas ou movimentos procuram expressar, cada um à sua maneira, as inovações propostas em 22.

É em 1924 que Oswald de Andrade publica o seu Manifesto Pau-Brasil. Mais uma vez, mostrando estar alinhado com as transformações do País.

O ano de 24 marca já uma segunda etapa do processo revolucionário no Brasil: a revolução tenentista em São Paulo. Se os 18 do Forte foram um lampejo heroico dos jovens militares brasileiros, o episódio de 1924 já foi muito mais abrangente. Os revoltosos tomaram a cidade de São Paulo, derrubaram o governador, assumiram o controle da cidade e do estado, e ocuparam militarmente a cidade com pouco efetivo militar. Aquele momento foi praticamente o início de uma guerra civil.

O governo Artur Bernardes mandou bombardear São Paulo implacavelmente. Na sequência, as tropas que se retiraram da capital paulista se juntaram a Luís Carlos Prestes, dando início à Coluna Prestes. O movimento que se criou é de uma radicalização política superior à de 22.

É nesse ambiente político radicalizado que surge o Manifesto Pau-Brasil, um desdobramento das inovações de 22. Embora, ainda tenha uma preocupação principalmente estética se comparado aos períodos posteriores, a mudança em relação a 22 é que neste a preocupação estética é abstrata: a forma, o futurismo, o combate à forma anterior do parnasianismo tradicional. Já no Manifesto Pau-Brasil há um conteúdo nacionalista muito forte, que não está tão presente em 22, ou está colocado, mas como uma preocupação secundária.

O Pau-Brasil coloca a preocupação com a cultura nacional como central. Naquele momento, os intelectuais pensavam que a cultura brasileira não era satisfatória. Por isso, havia uma busca por compreender e desenvolvê-la.

A preocupação deles, embora muito legítima, é uma ilusão. Em certa medida, a cultura brasileira sempre foi nacional e, ao mesmo tempo, internacional. Mas para os Modernistas, era preciso criar uma cultura genuinamente brasileira.

O Manifesto Pau-Brasil é o esforço de Oswald e seus parceiros de movimento na busca por essa cultura. O nome do movimento não é uma escolha qualquer. O Pau-Brasil remete à busca por uma arte que não seja mais importada da Europa, mas que seja uma arte brasileira que seja exportada para outros países.

O pau-brasil era material de exportação. Era aqui extraído e enviado para o resto do mundo, sendo o primeiro material brasileiro a inserir o País no mercado global. É daí que vem a ideia do nome do Movimento.

Com o tempo, Oswald vai notar que isso era insuficiente, que a arte genuinamente brasileira não poderia ser apenas um produto de exportação, mas uma síntese do que era feito no mundo todo, mas com as nossas próprias características. Com isso, ele vai evoluir para a Antropofagia, sobre a qual falaremos num próximo artigo.

A preocupação mais profunda com a nacionalidade acompanha a radicalização da situação política no País que por sua vez expressa as mudanças econômicas.

O Manifesto Pau-Brasil pretende fazer da cultura brasileira uma cultura de exportação, mas não de importação. Na concepção do movimento, o romantismo, o realismo, o parnasianismo e o simbolismo seriam apenas cultura de importação. O Pau-Brasil busca uma cultura própria, natural do Brasil. Tudo de acordo com a concepção de Oswald e do movimento que vai posteriormente desenvolver e chegar a novas conclusões com a Antropofagia, que explica de maneira mais aprofundada o problema da cultura nacional.

“A poesia existe nos fatos. Os casebres de açafrão e de ocre nos verdes da Favela, sob o azul cabralino, são fatos estéticos. […]

Contra o gabinetismo, a prática culta da vida. […]

A língua sem arcaísmo, sem erudição. Natural e neológica. A contribuição milionária de todos os erros. Como falamos. Como somos.”

Na continuação do artigo, falaremos das próximas etapas do movimento e do próprio Oswald, ele próprio um agente a acompanhar a radicalização política ainda maior do País nos anos posteriores.

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