A poesia de Djami Sezostre

Antonio Vicente Pietroforte

Em 2015, recebi pelo correio o livro de poemas “Onze mil virgens”, do Wilmar Silva de Andrade. O livro fora editado em 2014 pela editora 7Letras, da cidade do Rio de Janeiro; por meio do Facebook, entrei em contato com o Wilmar para elogiar os poemas. Nas mensagens, comentava que sua poesia tematizava o sertão sem exotismo, pois, infelizmente, apesar de toda a força das literaturas de Jorge Amado e Graciliano Ramos, boa parte do sertão brasileiro é banalizado pela cultura de massas. Estes são os versos do poema Amarílis: “entardecer de volta ao sertão / é o mesmo que não sentir enfaro / ouvir os pássaros e amavios // é o mesmo que colher amarílis / ornar teus corpos e teus quadris / sob a água imitá-los // entardecer ao teu lado / à margem do rio paranaíba / é mais do que alvorecer”.             

Além do “Onze mil virgens”, na mesma correspondência ganhei também “Estilhaços no Lago de Púrpura”, do poeta Joaquim Palmeira, heterônimo do Wilmar. Este é um dos poemas do livro: “íris, retinas, olhos meus olham íris, retinas // olhos que cerram íris, retinas, olhos de vénus // quem é esta vénus lunar que sequer conheço // e sei que perdi uma pantera, uma draga de lagos, // uma patativa, um sol aceso em noite plena / eu // agora o que fago com íris, retinas, olhos: // hei de cerrar as pálpebras e inventar íris, // retinas, olhos que sejam íris, retinas, olhos // você com suas íris, retinas, você com olhos // que me olhem e descubram íris, retinas, // olhos e mais que olhos, sou todo lascívia”. 

Quando procurei por seu nome no Google, encontrei suas performances no YouTube, em que ele faz poesia biosonora. Embora a poesia visual seja bem divulgada no Brasil, a poesia sonora não recebeu a mesma atenção; em linhas gerais, trata-se da poesia sem significados conceituais, feita a partir da musicalidade das vogais e consoantes. 

Alguns anos depois, o Wilmar me disse haver trocado de nome; chamava-se agora Djami Sezostre. O que chama atenção na poesia do Djami? Entre poucos, ele consegue conciliar poesia experimental com poesia comprometida com a nacionalidade brasileira. Na cultura de massas, a arte nacionalista pode ser bastante medíocre porque, justamente em nome da nacionalidade, a arte se tornaria folclórica e provinciana; falsos regionalismos, carregados de valores conservadores, são forjados com os objetivos de fechar a cultura do país sobre si mesma, impedindo-a de dialogar com outros pontos de vista. Quando, porém, temas e figuras do imaginário brasileiro expressam-se em linguagens experimentais, a dicotomia nacional vs. estrangeiro pode ser superada, gerando trabalhos geniais, entre eles, as concepções de bateria e percussão de Edson Machado, Airto Moreira ou Zé Eduardo Nazário, a história em quadrinhos do Luiz Gê, a poesia do Djami. 

Para dar exemplos disso, escolhi dois poemas pertencentes ao livro “O pênis do Espírito Santo”, 2018, da editora Patuá, “O Sertanista” e “O Bicho Abaporu”, os quais, pelas menções feitas à cultura brasileira logo nos títulos, poderiam facilmente desandar em lamúrias ou exaltações provincianas. Djami, porém, por meio da poesia sonora, complexifica a temática brasileira, encaminhado novas performances poéticas.  

Estes são os versos d“O Sertanista”: “A cal!sgrafia a exxtranha / Cães ligrafia de meu pai que nascia e visvia / E naonascia e naovisvia o meu pai e seu / L’pis do camminnhar atravês vés a / Caligrafia aestranharme aentrarrharme / Caligrafiafira de um sertanista um dia / Um sertanista e ele o meu pai / Aiodfadsfdsajhfjsdafsdafsdafusdfsda / E não quero mais escrever xxzxx / Uma vaca é uma vaca é uma vaca / E uma rosa então é uma rosa então é uma rosa / Mas a vaca não é uma vaca e a rosa não é uma rosa / Afinal, quem vai entender o que é para entender, / Emtemda, extrume, excrementos // A mão extramha a fala extramha o falo extramho” 

Estes são os versos d“O Bicho Abaporu”: “Nhambu o índio falou que a índia / Estava gravida do sol, Nhambu falou / Que o índio deveria falar que a índia / Estava gravida não apenas do sol mas / Também a índia estava gravida da lua / E das estrelas mas quando o índio / Falou que a índia estava grávida do / Sol e da lua e das estrelas a natureza / Bradou que a índia não estava grávida / Mas a mulher virgem ou vermelha / Nascia e vivia em estado de mãe e eu // Falei Mãe o que eu faço com o meu p / Ênis esse bicho, Abaporu”.

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