O imperialismo e a destruição da arte: o caso dos timbres musicais

A verdadeira guerra cultural se dá entre a criatividade e os monopólios que a destroem
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Antonio Vicente Seraphim Pietroforte

A música tem suas especificidades enquanto linguagem, entretanto, como toda forma de arte, ela se relaciona com a política quando inserida socialmente; uma dessas relações é com a fabricação dos instrumentos musicais, sem os quais, raramente, a música se realiza. Com certeza, há muitos liames entre a música e a economia desde a lira clássica, feita com cascos de tartaruga, chifres de cabras e pele de boi, algumas vezes fabricada artesanalmente pelo próprio músico, até as liras compradas atualmente nas casas do ramo. Por hora, vou me deter em apenas em uma relação econômica: o empobrecimento do timbre na música da cultura de massas e, por consequência, o empobrecimento da música e da inteligência.

Para mostrar como isso acontece, vale a pena recorrer a sua materialização em um caso particular; vou lembrar de três álbuns do músico popular Alceu Valença: Vivo (1976); Espelho Cristalino (1977); Coração Bobo (1980). Para não me perder, vou me concentrar nos instrumentos de percussão e nos diálogos entre viola, flauta e guitarra elétrica.

Invenção brasileira

Estender um cobertor sobre uma mesa e dispor sobre ela vários instrumentos de percussão é invenção brasileira; instrumentos esses que poderiam ser adquiridos com artesãos locais, em pequenas fábricas, muitas vezes caseiras, ou até mesmo construídos pelos próprios percussionistas. Vários músicos, em busca de sons originais, valiam-se de tamancos de madeira, tampas de latas de lixo, bacias, penicos, brinquedos, campanas feitas de diversos materiais. Pois bem, os percussionistas Agrício Noya, Louro e Sérgio Mello, presentes na gravação de Vivo e de Espelho Cristalino, tinham essa concepção musical.

Quanto aos arranjos entre viola, flauta e guitarra, eles geram timbres bastante originais, ainda mais se comparados a seus contrapontos com o cantor. Refiro-me agora, especificamente, ao álbum Vivo. Nele, em quase todas as músicas, a guitarra elétrica solo de Paulo Lampião Rafael tem como base não outra guitarra elétrica, mas uma viola nordestina de cinco cordas duplas de aço, tocada por Zé Ramalho. Além dos ponteios da guitarra e da viola, há os contrapontos do flautista Zé da Flauta, valendo-se de escalas semelhantes às populares flautas de pífano, das regiões nordestinas. O cantor Alceu Valença, por sua vez, longe de fazer a canção centrada no ego do cantor-compositor, divide a música com a banda, já que flautista, guitarrista e violeiro não são apenas acompanhantes, eles participam ativamente das performances musicais.

Infelizmente, boa parte disso sumiu em Coração Bobo, que traz considerável uniformização do timbre, empobrecendo a canção por se concentrar apenas na imagem pop do cantor. Vivo e Espelho Cristalino são trabalhos do começo da carreira do artista, hoje bastante célebre; Coração Bobo já representa o seu primeiro trabalho predominantemente comercial. Nesse álbum, percussão, guitarra, viola e flauta tornam-se meros acompanhantes, que, embora tocados pelos mesmos músicos dos trabalhos anteriores, são facilmente substituíveis, já que suas participações são bastante reduzidas. Isso se nota, com nitidez, no empobrecimento dos timbres desses instrumentos, o que se materializa na pouca participação deles nos arranjos. As músicas são bem mais breves em função dos padrões ditados pelas rádios comerciais; em Vivo e Espelho Cristalino há 8 canções, enquanto em Coração Bobo há 12 delas, com não mais do que três minutos cada, sem solos de guitarra, ponteios de viola, contrapontos de flauta, percussão criativa… tudo está centrado, vale insistir, na imagem pop do cantor. As letras, inclusive, são de fácil compreensão, tendo perdido boa parte da complexidade poética dos álbuns anteriores; para verificar isso, basta comparar a letra de Edipiana nº1, do Vivo, com a letra da canção Coração Bobo, que dá título ao álbum; em termos visuais, até a capa do terceiro trabalho perdeu força retórica.

Uniformidade

Essa decadência da criatividade está acompanhada dos monopólios das fábricas de instrumentos musicais, que engoliram boa parte da indústria nacional, diga-se de passagem, responsável pela fabricação de excelentes instrumentos, por exemplo, os cavaquinhos e bandolins da Del Vecchio ou os atabaques da Raul. As mesas de percussão hoje são comercializadas pela firma nova-iorquina Latin Percussion, que fabrica também as campanas e os demais instrumentos de percussão, todos feitos com as medidas ajustadas para encaixar nos suportes da mesa; a LP também faz agogôs, berimbaus, pratos, triângulos… enfim, todos os timbres afinados com a indústria cultural.

Geralmente, quando filmes de ficção científica buscam pintar o futuro socialista com as cores do “mal”, todas as personagens são iguais, vestidas do mesmo modo, assexuadas, às vezes comparadas a enxames de insetos sem identidade. Contrariando essas previsões, tudo indica que tal uniformidade é antes produto do capitalismo. O caso da uniformização do timbre na música pop é apenas uma das materializações das forças destrutivas do imperialismo, em busca da uniformidade de tudo que venha a ser comercializado; atualmente, inclusive os timbres dos cantores é o mesmo, basta escutar várias duplas sertanejas para constatar isso.

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