Ludwig Feuerbach e o Fim da Filosofia Clássica Alemã

Engels escreveu esta obra para esclarecer as origens do marxismo tanto na dialética de Hegel, idealista, como no materialismo de Feuerbach, que, ao criticar a filosofia hegeliana, acabou abandonando-a por completo. Essa análise fez-se necessária diante do renascimento da filosofia alemã clássica nos círculos intelectuais da época, algo que havia sido superado pela crítica de Marx e Engels em obra nunca publicada até aquele momento, A Ideologia Alemã, abandonada pelos fundadores do marxismo “à crítica roedora dos ratos”. O livro, do qual Causa Operária reproduz apenas o quarto capítulo, foi publicado na revista teórica do Partido Social-Democrata alemão, Die Neue Zeit (Novos Tempos), em 1888. Esta é a primeira de quatro partes
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Friedrich Engels

Escolhemos publicar esta obra por conter uma explicação sistemática das origens da filosofia materialista que fundamenta o método de análise do desenvolvimento da sociedade do materialismo histórico, isto é, do marxismo. Consideramos bastante oportuna sua divulgação em função dos estudos que estão sendo promovidos na Universidade Marxista do PCO, no curso “Brasil: uma interpretação marxista de 500 anos de história” apresentado pelo companheiro Rui Costa Pimenta. Para mais informações sobre como se inscrever e participar acesse o portal da Universidade Marxista (www.universidademarxista.pco.org.br).

Strauss, Bauer, Stirner, Feuerbach, foram estes os prolongamentos da filosofia de Hegel, na medida em que não abandonaram o solo filosófico. Strauss, depois da Leben Jesu e da Dogmatik[1] entregou-se apenas à beletrista filosófica e histórico-eclesial à la Renan; Bauer só realizou alguma coisa no domínio da gênese do cristianismo, mas aí realizou algo de significativo; Stirner permaneceu uma curiosidade, mesmo depois de Bakunin o ter amalgamado com Proudhon e ter batizado essa amálgama de “anarquismo”; só Feuerbach foi significativo como filósofo. Mas, não só a filosofia — a pretensa ciência da ciência pairando acima de todas as ciências particulares, abarcando-as — permaneceu para ele um limite intransponível, uma coisa sagrada intocável, como também, como filósofo, ele permaneceu a meio caminho, foi, por baixo, materialista e, por cima, idealista; não acabou com Hegel criticamente, atirou-o simplesmente para o lado como inutilizável, enquanto ele próprio, face à riqueza enciclopédica do sistema de Hegel, não chegou a nada de positivo, para além de uma empolada religião do amor e de uma magra, impotente, moral.

Da dissolução da escola de Hegel saiu, porém, ainda uma outra orientação, a única que realmente deu frutos e esta orientação liga-se essencialmente ao nome de Marx[2].

A separação relativamente à filosofia de Hegel resultou aqui também de um regresso ao ponto de vista materialista. Isto significa que se decidiu apreender o mundo real — Natureza e história — tal como ele próprio se dá a quem quer que se aproxime dele sem falácias idealistas preconcebidas; decidiu-se sacrificar impiedosamente toda a confusão idealista que não pudesse ser posta em consonância com os fatos apreendidos na sua conexão própria (e não em qualquer conexão fantástica). E, em geral, não se chama materialismo a nada mais do que isto. Só que era aqui que, pela primeira vez, se lidava realmente a sério com a visão materialista do mundo, era aqui que ela era consequentemente posta em execução — pelo menos, nas suas linhas fundamentais — a propósito de todos os domínios do saber em questão.

Hegel não foi simplesmente posto de lado; partiu-se, pelo contrário, do seu lado revolucionário acima desenvolvido, do método dialético. Mas, este método, na sua forma hegeliana, era inutilizável. Em Hegel, a dialética é o autodesenvolvimento do conceito. O conceito absoluto não apenas está dado desde a eternidade — desconhece-se onde —, como também é a alma viva própria de todo omundo existente. Ele desenvolve-se para si próprio, através de todos os estágios preliminares, que são amplamente tratados na Logik[3], e que estão todos contidos nele; depois, “exterioriza-se”, transformando-se em Natureza, onde ele, sem consciência de si próprio, disfarçado de necessidade natural, passa por um novo desenvolvimento e, por fim, volta de novo, no homem, à autoconsciência ; esta autoconsciência elabora-se de novo na história, a partir do estado bruto, até finalmente o conceito absoluto voltar de novo completamente a si próprio na filosofia de Hegel. Em Hegel, o desenvolvimento dialético que vem à luz na Natureza e na história — isto é, a conexão causal do progredir do inferior para o superior que se impõe através de todos os movimentos em ziguezague e retrocessos momentâneos — é, portanto, apenas o decalque do automovimento do conceito que se processa desde a eternidade, não se sabe onde, mas, em qualquer caso, independentemente de qualquer cérebro humano pensante. Tratava-se de eliminar esta inversão ideológica. Voltamos a apreender materialisticamente os conceitos da nossa cabeça como imagens das coisas reais, em vez de apreender as coisas reais como imagens deste ou daquele estágio do conceito absoluto. Com isto, reduziu-se a dialética a ciência das leis universais do movimento, tanto do mundo exterior como do pensar humano — duas séries de leis que, em substância, são idênticas, mas que, na expressão, são diversas, na medida em que a cabeça humana as pode aplicar com consciência, enquanto elas, na Natureza e, até agora também, em grande parte, na história humana, abrem passagem de maneira inconsciente, na forma da necessidade exterior, no meio de uma série sem fim de aparentes casualidades. Mas, com isto, a própria dialética do conceito tornava-se apenas reflexo consciente do movimento dialético do mundo real, e, com isto, a dialética de Hegel ficava de cabeça para baixo, ou antes: de cabeça para baixo em que estava, foi posta de novo em pé. E esta dialética materialista, que era, de há anos, o nosso melhor meio de trabalho e a nossa arma mais afiada, foi, coisa notável, descoberta de novo, não apenas por nós, mas, além disso ainda, independentemente de nós e mesmo de Hegel, por um operário alemão, Josef Dietzgen[4].

Deste modo, porém, o lado revolucionário da filosofia de Hegel foi retomado e, ao mesmo tempo, libertado dos seus enfeites idealistas que, em Hegel, tinham impedido o seu cumprimento consequente. O grande pensamento fundamental de que o mundo não é de apreender como um complexo de coisas prontas, mas como um complexo de processos, onde as coisas, aparentemente estáveis, não passam menos do que as imagens de pensamento delas na nossa cabeça — os conceitos — por uma ininterrupta mudança do devir e do perecer, na qual, em toda a aparente casualidade, e apesar de todo o retrocesso momentâneo, se impõe finalmente um desenvolvimento progressivo — este grande pensamento fundamental transitou tanto, nomeadamente, desde Hegel, para a consciência habitual que, nesta universalidade, já quase não encontra contradição. Mas, reconhecê-lo em palavras e pô-lo em execução na realidade, em pormenor, em todo o domínio que venha a ser investigado, são duas coisas diferentes. Mas, se, na investigação, se partir sempre deste ponto de vista, a exigência de soluções definitivas e de verdades eternas acaba, de uma vez por todas; está-se sempre consciente da necessária limitação de todo o conhecimento adquirido, do seu condicionamento pelas circunstâncias em que foi adquirido; mas também não se deixa mais que as invencíveis oposições da velha metafísica, ainda e sempre em voga, entre verdadeiro e falso, bom e mau, idêntico e diverso, necessário e casual, se nos imponham; sabe-se que estas oposições só têm validade relativa, que aquilo que agora é conhecido como verdadeiro tem igualmente o seu lado falso, oculto, que aparecerá mais tarde, assim como aquilo que agora é conhecido como falso tem o seu lado verdadeiro, em virtude do qual, anteriormente, pode ter valido como verdadeiro; sabe-se que aquilo que é afirmado como necessário é composto de claras casualidades e que o pretensamente casual é a forma atrás da qual a necessidade se esconde, etc.

O velho método de investigação e de pensamento que Hegel chamava “metafísico”, que se ocupava preferentemente com a investigação das coisas como permanências fixas, dadas e cujos restos ainda assombram fortemente a nossa cabeça, teve, no seu tempo, uma grande justificação histórica. As coisas tinham de ser investigadas primeiro, antes de que os processos pudessem ser investigados. Tinha que se saber primeiro o que uma qualquer coisa era, antes de se se poder aperceber das transformações que se processavam nela. E assim aconteceu na ciência da Natureza. A velha Metafísica, que tomava as coisas como prontas, surgiu a partir de uma ciência da Natureza que investigava as coisas mortas e vivas como prontas. Porém, quando essa investigação se estendeu tanto que tornou possível um progresso decisivo, a transição para a investigação sistemática das mudanças nestas coisas que se processam na própria Natureza, então, também no domínio filosófico soou o dobre de finados pela velha metafísica. E, de fato, se a ciência da Natureza até ao fim do século passado foi predominantemente uma ciência coletora, foi uma ciência de coisas prontas, no nosso século, ela é essencialmente ciência ordenadora, ciência dos processos, da origem e do desenvolvimento dessas coisas e da conexão que liga esses processos naturais num grande todo. A fisiologia, que investiga os processos no organismo vegetal e animal, a embriologia, que trata do desenvolvimento do organismo singular do germe até à maturidade, a geologia, que segue a formação gradual da superfície terrestre, todas elas são filhas do nosso século.

Porém, antes de tudo, há três grandes descobertas que fizeram avançar a passos de gigante o nosso conhecimento da conexão dos processos naturais: em primeiro lugar, a descoberta da célula, como a unidade a partir de cuja multiplicação e diferenciação se desenvolve todo o corpo vegetal e animal, de tal modo que, não apenas o desenvolvimento e o crescimento de todos os organismos superiores é reconhecido como processando-se segundo uma única lei universal, como também na capacidade de mudança da célula está mostrado o caminho pelo qual os organismos podem mudar a sua espécie e, assim, percorrer um desenvolvimento mais do que individual. Em segundo lugar, a transformação da energia que nos mostrou todas as chamadas forças, que atuam antes do mais na Natureza inorgânica — a força mecânica e o seu complemento, a chamada energia potencial, calor, radiação (luz, ou calor radiante), electricidade, magnetismo, energia química — como diversas formas de manifestação do movimento universal que, em determinadas relações de quantidade transitam de uma a outra, de tal modo que, para a quantidade de uma que desaparece volta a aparecer uma determinada quantidade de uma outra, e de tal modo que todo o movimento da Natureza se reduz a este incessante processo de transformação de uma forma noutra. Finalmente, a prova, desenvolvida com conexão, pela primeira vez, por Darwin, de que o efetivo de produtos orgânicos da Natureza que hoje nos rodeia, incluindo os homens, é o resultado de um longo processo de desenvolvimento a partir de uns poucos germes unicelulares originários e que estes, por sua vez, provieram do protoplasma ou albumina, surgidos por via química.

Notas

[1] David Friedrich Strauss, Die christliche Glaubensiehre in ihrer geschichtlichen Entwicklung und im Kampfe mit der modernen Wissenschaft (O Dogma Cristão no Seu Desenvolvimento Histórico e em Luta com a Ciência Moderna). Tübingen e Stuttgart, 1840-1841, Bd. 1-2; a segunda parte da obra intitula-se, precisamente: Der materiale Inbegriff der christlichen Glaubensiehre oder die eigentliche Dogmatik (O Agregado Material do Dogma Cristão ou a Dogmática Propriamente Dita)

[2] Seja-me permitido aqui um esclarecimento pessoal. Recentemente aludiu-se por várias vezes à minha quota-parte nessa teoria e, portanto, eu não posso deixar de dizer aqui as poucas palavras que arrumam este ponto. Eu próprio não posso negar que, antes e durante a minha colaboração de quarenta anos com Marx, tive uma certa quota-parte autônoma, tanto na fundação como, nomeadamente, na elaboração da teoria. Mas, a maior parte dos pensamentos diretores fundamentais, particularmente no domínio econômico e histórico, e, especialmente, a aguda formulação definitiva dela, pertencem a Marx. Àquilo com que eu contribuí, também Marx podia — quando muito, excetuando alguns ramos especiais — ter muito bem chegado sem mim. Ao que Marx realizou, eu não teria chegado. Marx estava mais acima, via mais longe, abarcava mais e mais rapidamente, do que todos nós, os outros. Marx era um gênio, nós, os outros, no máximo, talentos. Sem ele, a teoria não seria hoje, de longe, aquilo que é. Ela tem, portanto, também com razão, o nome dele. (Nota de Engels)

[3] Georg Wilhelm Friedrich Hegel, Wissenschaft der Logik (Ciência da Lógica)

[4] Ver Das Wesen der Kopfarbeit, von einem Handarbeiter[5], Hamburg, Meissner.

[5] O título completo da obra de Dietzgen, publicada em 1869, é: Das Wesen der menschlichen Kopfarbeit. Dargestellt von einem Handarbeiter. Eine abermalige Kritik der reinen und praktischen Vernunft [A Essência do Trabalho Cerebral Humano. Exposta por um Operário Manual. Uma Reiterada Crítica da Razão Pura e Prática].

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