Lembranças da música independente feita no Brasil

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Antonio Vicente Pietroforte

No teatro do SESC Belenzinho na cidade de São Paulo, no dia 18 de dezembro de 2016, um domingo, tive o prazer de ouvir novamente ao vivo o Grupo UM, aquele que é, para uma geração de amantes da música instrumental brasileira, o grupo mais importante do Brasil. Essa importância se faz não apenas pela qualidade musical – isso é incontestável –, mas pelo fato histórico do Grupo UM haver sido um dos primeiros grupos a gravar, no Brasil, um álbum de música independente.

A indústria fonográfica brasileira da década de 70 era marcada pela presença constante dos tropicalistas de sempre, cada vez mais de acordo com a música pop transmitida nas rádios, e o discutível rock brasileiro, levado adiante pela juventude burguesa. Em termos técnicos, devido à deficiência dos estúdios, havia a padronização dos timbres nas gravações; em termos estéticos e educativos, verifica-se a degradação do gosto em apenas poucos estilos musicais, como o domínio de canções no repertório brasileiro – a MPB –, em detrimento, entre outras, das músicas erudita e instrumental feitas no Brasil.

Naquele cenário desastroso, não existia campo para os músicos instrumentais, a não ser a eterna solução de sair do Brasil, conforme acontecera a Edson Machado, Dom Um Romão, Airto Moreira, Flora Purim, Eumir Deodato, Raul de Souza. Todavia, nos dias 26 e 27 de setembro de 1979, foi gravado e mixado, no estúdio Vice Versa B, o primeiro álbum do Grupo UM, “Marcha sobre a cidade”, um dos primeiros álbuns daquela que ficou conhecida como Música Independente.

Posteriormente, houve artistas da MPB participando do movimento, que, no entanto, permanece com ênfase na música instrumental. Para lembrar apenas alguns exemplos, vale a pena citar estes álbuns: em 1980 “A Divina Increnca”, grupo formado pelos músicos Felix Wagner, Azael Rodrigues e Rodolfo Stroeter; “Farrapos”, do vibrafonista Jota Moraes; “Frevo de Índio”, do guitarrista Celso Mendes; “Mistérios da Amazônia”, do violonista Carioca e do grupo vocal Devas; em 1981 “Reflexões sobre a Crise do Desejo”, o segundo álbum do Grupo UM; “Considerações a Respeito”, do baterista Pascoal Meirelles; em 1982 “Viagem através de um Sonho”, do saxofonista Nivaldo Ornelas; “Luar do Sertão”, outro álbum do Carioca; em 1983, “Conversa de Cordas, Couros, Palhetas e Metais”, do Francisco Mário (o outro irmão do Henfil); “Tambá”, outro álbum do Pascoal Meirelles.

Todos esses álbuns são produções dos próprios artistas, contudo, na época, surgiram algumas gravadoras especializadas em Música Independente. Merecem destaque, pelo menos, estas três:

(I) A gravadora Lira Paulistana, responsável pela produção de: em 1981, “Aurora Vermelha”, do guitarrista Fredera; em 1982, “Alquimia”, grupo formado por André Dequech, Mauro Senise, Robertinho Silva e Zeca Assumpção; “Imagens do Inconsciente”, do grupo Pé ante pé; “A Flor de Plástico Incinerada”, o terceiro álbum do Grupo UM; “Lágrima e Sunsolide Suite” do pianista Lelo Nazario; “Poema da Gota Serena”, do baterista Zé Eduardo Nazário; “Ciranda”, outro trabalho do Carioca;

(II) a gravadora Carmo, uma iniciativa do compositor Egberto Gismonti, responsável pela produção de: em 1982, “… entre duas palavras …” do violonista André Geraissati; em 1983, “Violão”, do também violonista Nando Carneiro; em 1984 “7 dias 7 instrumentos”, do Carioca; “Bateria”, do baterista Robertinho Silva;

(III) a gravadora Som da Gente, responsável pela produção de: em 1981, “Mantiqueira”, do pianista Nelson Ayres; “D’Alma”, dos violonistas Ulisses Rocha, André Geraissati e Rui Saleme; “Medusa”, grupo formado Amilson Godoy, Chico Medori, Claudio Bertrami e Heraldo do Monte; em 1982, “Cordas Vivas”, do guitarrista Heraldo do Monte; “Hermeto Pascoal e Grupo”; em 1984, “Lagoa da Canoa Município de Arapiraca”; em 1986, “Brasil Universo”; em 1987, “Só Não Toca Quem Não Quer”; em 1988, “Por Diferentes Caminhos” – os cinco últimos trabalhos, todos de Hermeto Pascoal.

Infelizmente, poucos artistas da Música Independente se notabilizaram; apenas aqueles que já mantinham elos com a MPB são reconhecidos como a dita Vanguarda Paulistana. O álbum “Clara Crocodilo”, de Arrigo Barnabé, é de 1980; “Beleléu leléu eu, Isca de Polícia”, de Itamar Assumpção, é de 1980; “Premê”, do grupo Premeditando o Breque, e “Rumo”, do grupo Rumo, são de 1981; “Pássaros na Garganta”, da Tetê Espindola, é de 1982. Todos esses trabalhos são posteriores ao “Marcha sobre a Cidade” e, em termos de vanguarda, aquém do que fazia musicalmente o Grupo UM.

Retomando os trabalhos do Grupo UM, enquanto boa parte da música instrumental seguia inspirada pelas inovações da Bossa Nova e as propostas de Hermeto Pascoal, Egberto Gismonti e Wagner Tiso, o Grupo UM, assim como a Divina Increnca, sem desprezar essas influências, mas antes valendo-se delas, seguiu por caminhos que permanecem inovadores 38 anos depois. Contrariamente ao que se deu com as supostas vanguardas paulistanas, o Grupo UM sempre se renovou em seus trabalhos.

Seu segundo álbum, “Reflexões sobre a Crise do Desejo”, dialoga com o jazz e a música erudita contemporâneos – até hoje, é o único grupo brasileiro a dialogar com a música eletroacústica, improvisando sobre bandas magnéticas e a executar peças com piano preparado, semelhantemente a John Cage. O terceiro álbum, “A Flor de Plástico Incinerada”, é uma síntese perfeita de música brasileira, jazz e música eletroacústica.

No final do século passado, cada um de seus integrantes seguiu por carreiras solo, sempre com trabalhos independentes e distantes das tradições conservadoras e reacionárias da música comercial. O mais recente trabalho do Grupo UM, “Uma Lenda ao Vivo”, é uma produção do SESC, e faz parte da série Jazz na Fábrica, juntamente com os trabalhos de Anthony Braxton, Roscoe Mitchell e William Parker, em suas apresentações no Brasil. Não são novas composições, o concerto é uma celebração de quase 40 anos de trabalho daquele que é o melhor grupo da Música Instrumental Brasileira.

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