A Revolução de Avis impulsionou a expansão portuguesa

Reproduzimos abaixo a continuação da transcrição adaptada da aula 4 – que trata da História de Portugal – do curso “500 anos de História do Brasil, uma interpretação marxista”, ministrado por Rui Costa Pimenta
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Os conflitos entre a sociedade  camponesa e os nascentes capitalistas comerciantes foram muitos frequentes durante toda a história de Portugal. Eles apareceram em vários momentos de crise, com destaque na Revolução de 1245 (veja parte I) onde esse processo teve sua culminação. 

Uma revolução precoce

Em 1383 o país sofre uma nova crise. 150 anos depois da Revolução de 1245, Portugal atravessará outra revolução, conhecida na história como a Revolução de Avis. 

Uma curiosidade útil para compreender a importância da Revolução de 1383 e seu papel progressista, é o fato de determinados historiadores relativizarem a importância da Revolução de Avis, tida como evento histórico menor do que a Revolução de 1245. Esses debates bizantinos, típicos de historiadores, só guardam interesse para os meios acadêmicos. Para a política, é preciso ver a importância  dos acontecimentos pelos efeitos e a situação de  conjunto.

O raciocínio dos acadêmicos é equivocado. A Revolução de 1383 foi importante. O argumento comumente usado para diminuir sua relevância é também uma curiosidade: segundo críticos, a Revolução de Avis ficou conhecida por contar com um repórter privilegiado, que escreveu detalhadamente as crônicas dos acontecimentos, o que por si só desmente o tortuoso raciocínio. 

Essa Revolução é de uma época feudal, no século XIV, mas conta com documentação e um nível de informações mais característicos de tempos mais modernos. Quem narra todos os acontecimentos é o cronista português – considerado o pai de todos os cronistas portugueses – Fernão Lopes. Exemplo de sua influência pode ser medida através de Robert Southey (1774-1843),  poeta e intelectual britânico muito interessado em Portugal, responsável por escrever uma das primeiras histórias do Brasil em 6 volumes, o qual considera Fernão Lopes como o mais importante cronista de todos os tempos. 

O que se destaca em Fernão Lopes é o extremo realismo com o qual ele descreve os eventos, um escritor que de fato está adiante de sua época.  Ele não seria propriamente um historiador, seria mais um repórter dos acontecimentos, porque ele esteve lá, viveu tudo aquilo. Fernão Lopes inaugura um período muito rico na literatura portuguesa, que tem esse caráter realista, mais moderno, o que se deve justamente à Revolução. 

As revoluções, conforme disse Marx, são a locomotiva da história, mas não apenas no sentido político e econômico. São a locomotiva de todos os movimentos progressistas de um determinado país.

Por isso é muito importante detectar as revoluções e os movimentos revolucionários. Veja que aqui estamos tratando de uma revolução em Portugal na Idade Média que acontece antes de qualquer revolução burguesa.

É uma revolução burguesa anterior à época das revoluções burguesas. Se considera normalmente que as primeiras revoluções burguesas são as dos Países Baixos, no  século XVI, a segunda grande revolução seria a da Inglaterra, em 1640 (século XVII), e a maior de todas, a Revolução Francesa de 1789, no século XVIII. A Revolução de Avis é do século XIV, portanto 200 anos antes das grandes revoluções burguesas, o que demonstra o pioneirismo de Portugal.

Devemos contar essa história de Portugal para destacar, principalmente, o caráter revolucionário da obra dos portugueses. Isso fica estabelecido pelo fato de que o ponto de partida é uma grande revolução nacional: a Revolução de 1383. 

A conspiração

Os acontecimentos da Revolução, o enredo, é relativamente simples. O Rei de Portugal, D. Fernando, morreu e a mulher dele que já havia sido muito mal recebida pelo povo português, Dona Leonor Teles, assumiu o trono. Uma curiosidade é que essa dama é a terceira esposa do rei com o nome Leonor. Dona Leonor Teles era galega e pertencia à alta nobreza portuguesa e galega.

A Galícia, pode ser considerada um pedaço de Portugal pertencente à Espanha, tanto é assim que a língua portuguesa nasceu na Galícia. A região poderia ser comparada à Portugal, assim como a Ucrânia à Rússia, quer dizer, o berço da nacionalidade porque a nobreza portuguesa que vai conquistar o país é toda galega.

A língua portuguesa é conhecida nos primórdios, na época dos trovadores, como a língua galaico-portuguesa. É a mesma língua, só que a escrita é diferente. Essa senhora, Dona Leonor Teles, é de origem dessa região onde predomina o feudalismo, o poder da nobreza. Por isso quando D. Fernando casa-se com ela, a população reage negativamente.

Após a morte de D. Fernando, a  nova regente tem como  conselheiro o Conde de Andeiro,  que também é ligado aos altos escalões da nobreza portuguesa e  que começa a tomar as decisões em nome da rainha. Isso gera um movimento conspiratório no interior da burguesia para derrubar o governo de dona Leonor Teles e dessa vez, sem participação praticamente nenhuma da nobreza.

Quem foi o Mestre de Avis 

Os burgueses escolhem um membro da casa real, Dom João, que é um filho bastardo de D. Pedro, portanto irmão de D. Fernando, um homem com uma história muito curiosa e que vale a pena mencionar.

Este que será Dom João I de Portugal, escolhido pelo povo português, é filho de uma personagem famosa da história de Portugal, que muita gente deve ter ouvido falar: Inês de Castro. Essa mulher era também pertencente à nobreza galega e amante secreta do herdeiro do trono, o Príncipe Dom Pedro, que viria a se tornar Dom Pedro I, conhecido na história como Dom Pedro o Cruel ou Dom Pedro o Justiceiro. Eles têm um envolvimento, têm vários filhos e em um determinado momento, a  corte palaciana vendo como muito negativa a influência de Inês de Castro sobre Dom Pedro, decide executá-la.

E efetivamente o Pai do príncipe dá o consentimento para o assassinato da mulher. Isso inclusive está narrado em uma das passagens mais bonitas da obra “Os Lusíadas”,  que é a passagem da história de Inês de Castro. Ela morre, o príncipe volta e quando seu pai, o Rei, morre, o príncipe assume o trono e vinga-se de todas as pessoas que participaram do assassinato de sua amante.

Posteriormente, constrói um túmulo para Dona Inês de Castro onde ele também será enterrado. O mausoléu é considerado um dos grandes monumentos de Portugal da época medieval. A história de amor trágica mais conhecida do mundo é a de Romeu e Julieta, que nunca existiu, enquanto essa, uma história real, é praticamente desconhecida fora de Portugal.

E Dom João era o herdeiro desse acontecimento trágico e extremamente violento. Ele acabou sendo considerado filho bastardo embora Dom Pedro alegasse que havia se casado com Dona Inês de Castro. Ou seja, ele vivia em um limbo hereditário dinástico.

O pai de Dom João tinha sido um rei muito popular e estimado, apesar de ser um homem extremamente violento. Diz-se que uma das pessoas responsáveis pela execução de sua mulher teve o coração arrancado pelas costas, por ele pessoalmente. Essas atitudes renderam-lhe a alcunha de Pedro, “O Cru”, uma redução para Pedro, O Cruel. Era uma pessoa muito rigorosa e por isso, também ficou conhecido como Pedro, O Justiceiro, por ser considerado uma pessoa justa.

O processo revolucionário

Dom João, conhecido como Mestre de Avis, devido a sua propriedade, é escolhido pela burguesia como líder da revolta. A primeira ação seria o assassinato do conselheiro da rainha, o Conde de Andeiro. Para isso os conspiradores teriam que penetrar no Palácio Real, residência do conde. Devido a dificuldade da empreitada, os conspiradores engendraram um plano para adentrar o palácio, que consistia em percorrer as ruas de Lisboa declarando ao povo que o Mestre de Avis seria assassinado dentro do palácio, o contrário do que de fato estava para acontecer. Na realidade o Mestre de Avis é quem iria assassinar o Conde de Andeiro.

A população atende ao chamado e cerca o palácio, o que permite a penetração dos conspiradores, que entram e matam o conselheiro da Rainha, tomam o poder efetivamente e prendem a Rainha. Isso dá lugar imediatamente a um governo popular. Embora não possamos aqui narrar todos os detalhes da revolução portuguesa, temos que destacar as principais características. Forma-se um governo popular com pessoas da burguesia da cidade. Eles formam um conselho para governar o país, mergulhado em uma situação revolucionária.

Dom João não é escolhido rei imediatamente. É  reconhecido como defensor de Portugal e era uma espécie de dirigente desse conselho. A população se mobiliza, o conflito em questão era que Dona Leonor Teles e uma parte da nobreza portuguesa, logicamente por medo da população, estava planejando entregar Portugal aos espanhóis, a ideia deles seria  que o Rei de Castela, D. João I (que era casado com D. Beatriz, filha de D. Fernando e Dona Leonor) se tornasse Rei de Portugal – pois nessa época ainda não existia Espanha -, arranjo que a população portuguesa desprezava completamente.

A luta do povo português por se manter independente da Espanha, no caso o reino de Castela era o principal da região, é um fator muito significativo na vida do país. Isso leva a uma guerra, os espanhóis tentam invadir Portugal para impor o Rei de Castela à força. Os espanhóis são confrontados por um exército popular.

A única personalidade da nobreza que se posiciona ao lado do Mestre de Avis é a mesma que vai se destacar como grande general dessa guerra, uma pessoa inovadora que é o nobre Álvares Pereira. Pereira organiza um exército de infantaria que derrota a cavalaria espanhola, uma verdadeira proeza militar. Esta conquista é destacada por muita gente, afinal Álvares Pereira montou um sistema de enfrentamento militar onde a infantaria era capaz de derrotar a cavalaria, a principal arma de guerra naquele momento. O que o nobre fez foi adaptar uma experiência que tinha sido realizada algumas décadas antes na Guerra dos Cem Anos. Numa batalha importante da Guerra, o famoso Príncipe Negro, que viria a ser o Rei Eduardo III da Inglaterra, derrota a cavalaria francesa também com uma infantaria, mais precisametne, com um exército de cavaleiros desmontados. Ele elabora um  plano para impedir o progresso da cavalaria e depois eles aprisionam os cavaleiros com facilidade.

Esse mesmo esquema muito inovador é aproveitado pelo comandante militar português, que assim derrota os espanhóis. Isso consolida a vitória popular. O mestre de Avis vai ser coroado como Rei de Portugal, Dom João I, inaugurando, num certo sentido uma nova dinastia, porque embora ele seja filho de um membro da dinastia de Borgonha, como bastardo não recebe o nome do pai, iniciando assim uma dinastia com seu nome. A dinastia vai se chamar Dinastia de Avis. Essa dinastia será  muito importante e extraordinária porque é ela que vai levar adiante toda a epopeia das navegações portuguesas.

Uma linha de continuidade

A dinastia de Avis não implica em uma ruptura total do passado, pois a maioria dos reis de Portugal são considerados grandes governantes, como já foi destacado. 

O Rei Dinis, por exemplo, é um homem que construiu inúmeras cidades, fortificações, impulsionou a agricultura e criou a Universidade de Coimbra, enfim, uma pessoa que promoveu uma quantidade muito grande de realizações. A maioria dos reis de Portugal teve um papel positivo na construção da nação. Poucos são considerados um fracasso, como o rei Sancho II.

Mas em sua maior parte, a administração do Reino de Portugal é progressista, o que faz com que a situação evolua positivamente, nesse sentido eles dão a primazia política aos setores capitalistas e populares em quase todos os governos, em detrimento da nobreza. São reis que criam as condições para aquilo que vai ser a atividade das descobertas e das navegações portuguesas. Mas durante a Dinastia de Avis ocorreu um salto enorme.

Os reis da Dinastia de Avis são conhecidos como as maiores figuras da história de Portugal de todos os tempos, o que e não é para menos, pois  farão uma coisa que veremos na sequência que foi realmente extraordinária naquele momento.

continua na próxima edição

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