A rapinagem suíça no filme argentino Azor

Filme retrata como a Suíça, na função de paraíso fiscal, é cúmplice dos horrores perpetrados por regimes totalitários e ditaduras
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Carla Dorea Bartz

Azor (2021) é o primeiro longa-metragem do diretor suíço, radicado na Argentina, Andreas Fontana. Foi selecionado para integrar a sessão novos diretores da 45ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e exibido no Festival de Berlim e no Festival do British Film Institute, no ano passado.

O filme é um primoroso retrato de um assunto poucas vezes debatido no cinema: a rapinagem dos banqueiros suíços, comumente disfarçada de neutralidade, em situações em que o fascismo é norma. Ambientado na Argentina em 1980, a obra escolhe o momento mais perverso da ditadura para ilustrar o seu argumento.

No enredo, o banqueiro suíço Ivan de Wiel (Fabrizio Rongione) e sua esposa Inès (Stephanie Cléau) viajam a Buenos Aires em busca de notícias de seu sócio René Keys, desaparecido misteriosamente, e com a missão de acalmar e manter seus abastados clientes e garantir que continuem a esconder suas fortunas no banco de sua propriedade.

A princípio, pode-se pensar que se trata de um filme sobre a ditadura. No entanto, ele vai além da discussão sobre este episódio de horror sul-americano. Ao colocar Ivan como protagonista com interesses capitalistas explícitos, a película expande seu alcance e consegue ser uma discussão sobre a conivência Suíça, como paraíso fiscal, de gente canalha de todos os cantos do mundo. Aí está a sua real importância.

O nazismo alemão na década de 1930 ou as ditaduras fascistas sul-americanas na década de 1970 não teriam sobrevivido se não tivessem o acolhimento da sociedade europeia que, até hoje, pouco se importa com a origem do capital que entra ali.

É o olhar de Ivan e de sua esposa ambiciosa que revelam essas contradições. Eles circulam pela burguesia argentina, interessados apenas em satisfazer suas necessidades e oferecer-lhes as melhores soluções financeiras diante das circunstâncias. Apesar da sensação de fio da navalha, os propósitos estão traçados e não há indícios de consciência pesada que possa refrear as intenções dos dois personagens.

Há poucas cenas que mostram os problemas enfrentados pelos argentinos naquele momento: uma blitz da polícia na rua, um diálogo entre os personagens, uma moça desaparecida vista apenas em fotos de família, o apartamento desarrumado do sócio. Tudo é mais insinuado e sugerido do que dito ou visto, fazendo com que o suspense aumente e dando ao filme uma característica de thriller.

Esses recortes ilustram também a percepção dos protagonistas sobre a situação, que eles mantêm distante, e não ofuscam os jantares, os almoços e os encontros em haras, restaurantes, mansões, clubes e outros lugares onde a brutalidade, a tortura e o assassinato são apenas rumores.

“A história transcorre nesse mundo do dinheiro, da elite, em que há de se adivinhar coisas por meio do silêncio das conversas mornas e fúteis. O que de fato importa na trama é o não dito, é o insinuado, é o fascínio que exercem as pessoas de poder e dinheiro, ao mesmo tempo em que elas vivem uma tremenda solidão”, disse Fontana à Folha de S. Paulo.

Numa dessas conversas Ivan conta que herdou o banco de seu pai e é cobrado por sua esposa que não seja fraco e honre a sua memória. Com a citação geracional, o filme faz uma ligação com o nazismo. É sabido que os bancos suíços foram usados pelos capitalistas alemães e pelo Terceiro Reich para ali depositarem tudo que roubaram dos lugares onde conduziram massacres indescritíveis.

No filme, esse horror toma uma forma contundente no final, que também é uma citação a Apocalipse Now (1979), de Francis Ford Coppola. Em Azor, um código dos banqueiros para transações difíceis, percebemos que, em 1980, nada havia mudado na civilizada e neutra Suíça. Sua cumplicidade mafiosa com a burguesia internacional continuava intacta. Como continua até hoje.

A opinião dos colunistas não reflete, necessariamente, a posição deste Jornal. Publicado originalmente no Diário Causa Operária.

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