Sobre o materialismo histórico

Os vagabundos de uma sociedade afluente
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Friedrich Engels

Publicado originalmente em Causa Operária nº 456, de 18 a 24 de novembro de 2007

Engels escreveu este prefácio para a primeira edição inglesa de sua obra Do socialismo utópico ao socialismo científico, publicada em Londres em 1892 em uma tradução feita por Edward Aveling. Em junho de 1892, Engels traduziu o prefácio para o alemão e o enviou para ser publicado na revista teórica do Partido Social-Democrata alemão, Die Neue Zeit (Novos Tempos), onde foi reproduzido com algumas omissões sob o título “Sobre o materialismo histórico”, que retomamos na presente edição. Tomamos os subtítulos que dividem o texto da edição francesa de 1950 (Éditions Sociales, Paris). O texto será publicado no Caderno Cultural de Causa Operária em quatro partes, ao longo das próximas edições.

Escolhemos publicá-lo por ser uma explicação sistemática sobre as origens da filosofia materialista que fundamenta o método de análise do desenvolvimento da sociedade do materialismo histórico, isto é, do marxismo. Consideramos bastante oportuna sua divulgação em função dos estudos que estão sendo promovidos na Universidade Marxista do PCO, no curso “Brasil: uma interpretação marxista de 500 anos de história” apresentado pelo companheiro Rui Costa Pimenta. Para mais informações sobre como se inscrever e participar acesse o portal da Universidade Marxista: universidademarxista.pco.org.br/

A Inglaterra, berço do materialismo

Sei muito bem que o conteúdo deste livro indignará grande parte do público britânico. Mas se nós, os continentais, tivéssemos levado em conta minimamente os preconceitos de “respeitabilidade” britânica, isto é, o filistinismo britânico, nossa situação seria ainda pior. Esta obra defende o que chamamos de “materialismo histórico”, e a palavra materialismo fere os ouvidos da imensa maioria dos leitores britânicos. “Agnosticismo” ainda poderia passar, mas materialismo é absolutamente inadmissível.

E, no entanto, o berço de todo o materialismo moderno, desde o século XVII, é a Inglaterra.

“O materialismo é filho da Grã-Bretanha. Já o escolástico britânico Duns Scot perguntava a si mesmo se a matéria não poderia pensar.

“Para realizar esse milagre, recorreu à onipotência divina, isto é, obrigou a própria teologia a pregar o materialismo. Duns Scot era, ademais, nominalista. O nominalismo aparece como elemento primordial nos materialistas ingleses e constitui, em geral, a expressão primeira do materialismo.

“O verdadeiro pai do materialismo inglês é Bacon. Para ele, a ciência da natureza é a verdadeira ciência, e a física experimental é a parte mais importante da ciência da natureza. Anaxágoras, com suas homeomerias, e Demócrito, com seus átomos, são autoridades que Scot cita com frequência. Segundo sua teoria, os sentidos são infalíveis e constituem a fonte de todos os conhecimentos. Toda ciência baseia-se na experiência e consiste em aplicar um método racional de investigação ao que é dado pelos sentidos. A indução, a análise, a comparação, a observação e a experimentação são as condições fundamentais desse método racional. Entre as propriedades inerentes à matéria, a primeira e mais importante é o movimento, concebido não só como um movimento mecânico e matemático, mas sobretudo como impulso, como espírito vital, como tensão, como um ‘qual’ de matéria – para empregar a expressão de Jakob Böhme. As formas primitivas da matéria são as forças vivas, individualizantes, inerentes à matéria, e que produzem as distinções entre as espécies.

“Em Bacon, como seu primeiro criador, o materialismo guarda ainda, de maneira ingênua, os germes de um desenvolvimento multilateral. A matéria sorri com um fulgor poeticamente sensorial a todo homem. Em troca, a doutrina aforística é ainda, por si mesma, um manancial de inconsequências teológicas.

“Em seu desenvolvimento posterior, o materialismo torna-se unilateral. Hobbes sistematiza o materialismo de Bacon. O conhecimento baseado nos sentidos perde o seu brilho e converte-se na experiência abstrata do matemático; o movimento físico é sacrificado ao movimento mecânico ou matemático. A geometria é proclamada a rainha das ciências. O materialismo leva à misantropia. Para poder combater em seu próprio terreno o espírito misantrópico e desencarnado, o materialismo se vê obrigado também a flagelar sua própria carne e converter-se  em asceta. Assim, de entidade sensorial,  transforma-se em entidade intelectual. Mas assim se desenvolve também toda a consistência do intelecto, sejam quais forem as consequências.

“Se os sentidos fornecem ao homem todos os conhecimentos – argumenta Hobbes, partindo de Bacon –, os conceitos, as ideias, as representações mentais são apenas fantasmas do mundo real, despojados de sua forma sensorial. A filosofia não pode fazer mais do que dar nomes a esses fantasmas. Um nome pode ser atribuído a vários fantasmas. Pode inclusive haver nomes de nomes. Mas seria uma contradição querer, de um lado, afirmar a origem de todas as ideias no mundo dos sentidos e, de outro, afirmar que uma palavra é algo mais que uma palavra, e que além dos seres concretos que conhecemos por meio dos sentidos, todos eles individuais, existiriam seres de uma natureza geral, não individuais. Uma substância incorpórea é tão sem sentido quanto um corpo incorpóreo. Corpo, ser, substância, nada mais são que termos diferentes para uma mesma realidade. Não se pode separar o pensamento da matéria que pensa. Essa matéria é o substrato de todas as mudanças que estão acontecendo no mundo. A palavra “infinito” carece de sentido, a não ser como expressão da capacidade do nosso espírito de realizar um processo de acrescentar sem fim. Como só o material é perceptível por nós, nada podemos saber da existência de Deus. Só a minha própria existência é certa. Toda paixão humana é movimento mecânico que tem um começo e um fim. Os objetos do impulso são o que chamamos de bem. O homem está sujeito às mesmas leis que a natureza. Poder e liberdade são coisas idênticas.

“Hobbes sistematizara Bacon, mas sem fornecer novas provas para o princípio fundamental de Bacon: o de que os conhecimentos e as ideias têm sua origem no mundo dos sentidos. Foi Locke, em sua obra Essay on the Human Understanding, que forneceu essa prova do princípio de Bacon e Hobbes.

“Do mesmo modo que Hobbes destruíra os preconceitos teísticos do materialismo baconiano, Collins, Dodwell, Coward, Hartley e Priestley derrubaram a última barreira teológica do sensualismo de Locke. O deísmo, pelo menos para os materialistas práticos, não passa de uma maneira cômoda de desfazer-se da religião.”

Assim se expressava Karl Marx referindo-se às origens britânicas do materialismo moderno. E se aos ingleses de hoje não agrada muito essa homenagem prestada por Marx aos seus antepassados, lamentamos por eles. Mas é inegável, apesar de tudo, que Bacon, Hobbes e Locke foram os pais daquela brilhante escola de materialistas franceses que fizeram do século XVIII um século eminentemente francês, apesar das derrotas que os alemães e ingleses infligiram à França por mar e por terra; e isso muito antes da Revolução Francesa que coroou o final do século, e cujos resultados ainda hoje nos esforçamos por aclimatar na Inglaterra e na Alemanha.

Não se pode negar. Se em meados do século um estrangeiro culto se instalasse na Inglaterra, o que mais lhe causaria surpresa seria a aparente intolerância religiosa e a estupidez da “respeitável” classe média inglesa. Todos nós éramos, então, materialistas, ou, pelo menos, livres-pensadores muito avançados, e parecia-nos inconcebível que quase todas as pessoas educadas da Inglaterra acreditassem em todo tipo de milagres impossíveis, e que até mesmo geólogos como Buckland e Mantell distorcessem os fatos de sua ciência para não ir de encontro muito frontalmente aos mitos do Gênesis; inconcebível que, para encontrar pessoas que se atrevessem a servir-se de sua inteligência em matéria religiosa, tivessem que recorrer aos setores incultos, às “hordas dos que não se lavam” – como se dizia então – , aos operários, principalmente aos socialistas owenianos.

O agnosticismo inglês, um materialismo envergonhado

Mas, desde então, a Inglaterra “civilizou-se”. A Exposição de 1851 foi o dobrar dos sinos do exclusivismo insular inglês. A Inglaterra foi se internacionalizando pouco a pouco, nas comidas e nas bebidas, nos costumes e nas ideias, a tal ponto que começo a desejar que certos costumes e maneiras ingleses tivessem penetrado tanto no continente como outros hábitos continentais penetraram na Inglaterra. O que se pode assegurar é que a disseminação do uso do azeite para salada (que antes de 1851 só era conhecido pela aristocracia) foi acompanhada de uma disseminação fatal do ceticismo continental em matéria religiosa, chegando-se ao extremo de o agnosticismo, embora ainda não considerado tão adequado quanto a igreja anglicana, estar situado, em termos de respeitabilidade, quase no mesmo nível do batismo, e incontestavelmente acima do Exército da Salvação. Não posso deixar de pensar que, nestas circunstâncias, servirá de consolo, para muitos que deploram e amaldiçoam tais avanços da descrença com todas as suas forças, saber que essas “noções ultramodernas” não são de origem estrangeira, não circulam com a marca made in Germany, como tantos outros artigos de uso diário, mas têm, inquestionavelmente, antiga e venerável origem inglesa, e seus autores britânicos há 200 anos foram muito mais longe do que seus descendentes ousam hoje aventurar-se a ir.

Com efeito, o que é o agnosticismo senão um materialismo envergonhado? A concepção agnóstica da natureza é inteiramente materialista. Todo o mundo natural é regido por leis e exclui por completo toda influência exterior. Mas nós, acrescentam cautelosamente os agnósticos, não temos condições de provar ou refutar a existência de um ser supremo fora do mundo por nós conhecido. Essa reserva podia fazer sentido na época em que o grande astrônomo Laplace, ao ser interrogado por Napoleão sobre a razão da ausência de qualquer menção ao Criador do mundo em sua obra Mécanique Céleste,  respondia com orgulho: “Eu não precisava dessa suposição.” Hoje, porém, em nossa concepção evolucionária do universo, não há lugar nem para um Criador nem para um Regente do universo; e falar de um Ser Supremo à margem de todo o mundo existente implica uma contradição em termos e, no meu entender, um insulto gratuito e desnecessário aos sentimentos das pessoas religiosas.

Nosso agnóstico reconhece também que todos os nossos conhecimentos têm por base as informações que recebemos por intermédio dos sentidos. Mas, acrescenta o agnóstico, como saber se nossos sentidos nos dão as representações corretas dos objetos que percebemos por meio deles? E prossegue dizendo que, quando fala das coisas e das suas qualidades, não se refere, na verdade, a essas coisas e suas propriedades em si, acerca das quais nada se pode saber de certo, mas apenas às impressões que deixam em seus sentidos. É, certamente, uma forma de conceber que parece difícil ser contestada com uma simples argumentação. Mas os homens, antes de argumentar, já haviam agido. “No princípio, era a ação”. E a ação humana já tinha resolvido a dificuldade muito antes que a ingenuidade humana a tivesse inventado. “Prova-se o pudim comendo-o”. A partir do momento em que dispomos desses objetos para nosso próprio uso, de acordo com as qualidades que neles percebemos, submetemos as percepções de nossos sentidos a uma prova infalível no que se refere à sua exatidão ou à sua falsidade. Se essas percepções foram falsas, falso deve ser também nosso julgamento sobre a possibilidade de uso do objeto em questão, e nossa tentativa de uso forçosamente vai fracassar. Mas se conseguimos o fim desejado, se o objeto corresponde à ideia que dele fazemos, e nos dá o que dele esperávamos ao usá-lo, teremos a prova positiva de que nossas percepções do objeto e de suas propriedades até aqui coincidem com a realidade existente fora de nós. E quando nos encontramos diante de um fracasso, geralmente não tardamos muito a descobrir as causas do nosso engano; concluímos que a percepção em que se baseava a nossa ação era incompleta ou superficial, ou combinada com os resultados de outras percepções de um modo não justificado pela realidade das coisas. Ou seja: havíamos realizado o que chamamos de raciocínio defeituoso. Na medida em que adestrarmos e empregarmos bem os nossos sentidos e ajustarmos o nosso modo de proceder aos limites traçados pelas observações bem feitas e bem utilizadas, veremos que os resultados dos nossos atos fornecerão a prova da conformidade de nossas percepções com a natureza objetiva das coisas percebidas. Em nenhuma situação, até hoje, fomos levados a concluir que nossas percepções sensoriais, cientificamente controladas, induzem em nosso cérebro ideias do mundo exterior que, por sua natureza, diferem da realidade, ou que existe uma incompatibilidade inerente entre o mundo exterior e as percepções sensoriais que temos dele.

E aí chegam os agnósticos neokantianos e dizem: Sim, poderemos talvez perceber exatamente as propriedades de uma coisa, porém nunca apreender a coisa em si por meio de nenhum processo sensorial ou mental. Essa “coisa em si” situa-se  além de nossas possibilidades de conhecimento. Hegel, há muito tempo, respondeu a isso: a partir do momento em que conhecemos todas as propriedades de uma coisa, conhecemos a própria coisa; resta somente o fato de que essa coisa existe fora de nós; e quando nossos sentidos nos ensinaram esse fato, apreendemos até o último resíduo da coisa em si, a famosa e incognoscível Ding an sich (em alemão, “coisa em si”) de Kant. Hoje, cabe acrescentar que, na época de Kant, nosso conhecimento dos objetos naturais era tão fragmentário que ele bem podia suspeitar, por trás de cada um deles, uma misteriosa ‟coisa em si”. Mas, de lá para cá, essas coisas inapreensíveis foram sendo apreendidas, analisadas e, mais ainda, reproduzidas, uma após outra, pelos gigantescos progressos da ciência. E a partir do momento em que podemos produzir uma coisa, já não há nenhuma razão para que ela seja considerada incognoscível. Para a química da primeira metade de nosso século, as substâncias orgânicas eram esses objetos misteriosos. Hoje, já aprendemos a fabricá-los, um após outro, a partir de seus elementos químicos e sem ajuda de processos orgânicos. Os químicos modernos nos dizem que, a partir do momento em que se conhece a constituição química de qualquer corpo, esse corpo pode ser construído a partir de seus elementos. Ainda estamos muito longe de conhecer exatamente a constituição das substâncias orgânicas superiores, os chamados corpos albuminóides, mas não existe absolutamente nenhuma razão para que não cheguemos, ainda que isso leve alguns séculos, a esse conhecimento, e, com isso, venhamos a fabricar albumina artificial. Se chegarmos a isso, porém, teremos conseguido também produzir a vida orgânica, pois a vida, desde as suas formas mais inferiores até as mais elevadas, nada mais é que o modo normal de existência dos corpos albuminóides. 

Mas, depois de feitas essas reservas formais, nosso agnóstico fala e age em tudo como o materialista inflexível que, no fundo, é. Poderá dizer: a julgar pelo que nós sabemos, a matéria e o movimento ou, como agora se diz, a energia, não podem ser criados nem destruídos, mas não temos nenhuma prova de que ambos não tenham sido criados em algum momento. Mas se você tentar usar contra ele essa ideia por ele admitida, em qualquer circunstância, o agnóstico vai rapidamente chamar você à ordem. Se in abstracto ele reconhece a possibilidade do espiritualismo, in concreto nada quer saber sobre ele. E dirá: até onde sabemos e podemos saber, não existe Criador nem Regente do universo; no que nos diz respeito, a matéria e a energia não são criáveis nem destrutíveis; para nós, a mente é uma forma da energia, uma função do cérebro. Tudo o que sabemos nos leva à conclusão de que o mundo material é regido por leis imutáveis, e assim por diante. Portanto, na medida em que é um homem de ciência, na medida em que sabe algo, o agnóstico é um materialista; fora do âmbito de sua ciência, nos campos que não domina, traduz sua ignorância para o grego, dando-lhe o nome de agnosticismo. 

Em todo caso, uma coisa é clara: mesmo que eu fosse agnóstico, não poderia dar à concepção da história esboçada neste pequeno livro o nome de “agnosticismo histórico”. As pessoas de sentimentos religiosos ririam de mim, e os agnósticos me perguntariam, indignados, se minha intenção era zombar deles. Assim, espero que mesmo a “respeitabilidade” britânica, que, em alemão, se chama filistinismo, não se sinta chocada demais se eu usar em inglês, e também em tantos outros idiomas, o termo “materialismo histórico” para designar essa visão do curso da história que busca a causa final e a grande força motriz de todos os acontecimentos históricos importantes no desenvolvimento econômico da sociedade, nas transformações do modo de produção e de troca, na consequente divisão da sociedade em diferentes classes e nas lutas entre essas classes. 

Talvez eu venha a ser tratado com indulgência, sobretudo se demonstrar que o materialismo histórico pode inclusive ser útil para a respeitabilidade do filisteu britânico. Já aludi ao fato de que, há 40 ou 50 anos, o estrangeiro culto que se instalasse para viver na Inglaterra ficaria desagradavelmente surpreso ao constatar o que tenderia a considerar como intolerância e hipocrisia religiosa da respeitável classe média inglesa. Demonstrarei agora que a respeitável classe média inglesa daquele tempo não era tão estúpida como podia parecer aos olhos do estrangeiro inteligente. Suas inclinações religiosas tinham uma explicação.

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