Sobre o materialismo histórico – parte 4

Engels escreveu este prefácio para a primeira edição inglesa de sua obra Do socialismo utópico ao socialismo científico, publicada em Londres em 1892 em uma tradução feita por Edward Aveling. Em junho de 1892, Engels traduziu o prefácio para o alemão e o enviou para ser publicado na revista teórica do Partido Social-Democrata alemão, Die Neue Zeit (Novos Tempos), onde foi reproduzido com algumas omissões sob o título “Sobre o materialismo histórico”, que retomamos na presente edição. Tomamos os subtítulos que dividem o texto da edição francesa de 1950 (Éditions Sociales, Paris). O texto começou a ser publicado no Caderno Cultural de Causa Operária na edição de número 1027. Esta é a quarta e última parte

Friedrich Engels

Escolhemos publicar esta obra por conter uma explicação sistemática das origens da filosofia materialista que fundamenta o método de análise do desenvolvimento da sociedade do materialismo histórico, isto é, do marxismo. Consideramos bastante oportuna sua divulgação em função dos estudos que estão sendo promovidos na Universidade Marxista do PCO, no curso “Brasil: uma interpretação marxista de 500 anos de história” apresentado pelo companheiro Rui Costa Pimenta. Para mais informações sobre como se inscrever e participar acesse o portal da Universidade Marxista (ver QR Code no final do texto).

O servilismo da burguesia inglesa

Na Inglaterra, a burguesia jamais exerceu o poder sozinha. Mesmo a vitória de 1832 deixou a aristocracia no gozo quase exclusivo de todos os altos cargos públicos. Para mim, era inexplicável a submissão com que a classe média rica se resignava a tolerar essa situação, até o dia em que o grande industrial liberal W. A. Forster, num discurso, suplicou aos jovens de Bradford que aprendessem francês, caso quisessem fazer carreira. Citando sua própria experiência, ele contou o quanto se sentira envergonhado, enquanto ministro, em uma sociedade em que o francês era no mínimo tão necessário quanto o inglês. Com efeito, os burgueses ingleses médios de então eram, uns mais outros menos, novos-ricos sem cultura, que não tinham outra escolha senão ceder à aristocracia todos os altos cargos de governo que exigiam outros dotes além da limitação e da fatuidade insulares, temperadas com a astúcia para os negócios. Ainda hoje os debates intermináveis da imprensa sobre a “middle-class education” revelam que a classe média inglesa ainda não se considera suficientemente apta para receber a melhor educação e procura algo mais modesto. Por isso, mesmo depois da revogação das leis cerealistas, parecia natural que os que haviam conseguido o triunfo, os Cobden, os Bright, os Forster, etc., fossem excluídos de qualquer participação no governo oficial do país, até que, por fim, 20 anos depois, uma nova Lei da Reforma abriu-lhes as portas do ministério. A burguesia inglesa até hoje é imbuída de um tal sentimento de inferioridade social que, às suas próprias custas e às custas do povo, sustenta uma casta decorativa de parasitas que têm por ofício representar dignamente a nação em todos os atos solenes, e se sente honradíssima quando um burguês qualquer é reconhecido como digno de ingressar nessa corporação seleta e privilegiada, que, afinal de contas, foi fabricada pela própria burguesia.

Assim, a classe média industrial e comercial ainda não tinha conseguido afastar por completo a aristocracia latifundiária do poder político, quando entrou em cena o novo rival: a classe operária. A reação depois do movimento cartista e as revoluções continentais, juntamente com a expansão sem precedentes da indústria inglesa de 1848 a 1866 (expansão que se costuma atribuir apenas ao livre-câmbio, mas que resultou muito mais da gigantesca extensão das ferrovias, dos transatlânticos e dos meios de comunicação em geral), voltaram a colocar os operários sob a dependência dos liberais, cuja ala radical formavam, nos tempos anteriores ao cartismo. Mas, pouco a pouco, as exigências operárias quanto ao sufrágio universal foram se tornando irresistíveis. Enquanto os “whigs”, os líderes dos liberais, tremiam de medo, Disraeli mostrava sua superioridade; soube aproveitar o momento propício para os “tories”, introduzindo nos distritos eleitorais urbanos o regime eleitoral do household suffrage e, além disso, uma redistribuição dos distritos eleitorais. Seguiu-se, pouco depois, o voto secreto, e em 1884 o household suffrage tornou-se extensivo a todos os distritos, inclusive aos dos condados, e se introduziu uma nova distribuição das circunscrições eleitorais, que, até certo ponto,  as nivelava. Todas essas reformas aumentaram de tal modo a força da classe operária nas eleições que ela já representava a maioria dos eleitores em pelo menos 150 a 200 distritos. Não há, porém, melhor escola de respeito à tradição que o sistema parlamentar! Se a classe média olha com devoção e veneração o grupo que lorde John Manners chama, caçoando, de “nossa velha nobreza”, a massa dos operários olhava então com respeito e deferência o que, na época, se chamava de “os melhores”, a burguesia. Em realidade, o operário britânico de 15 anos atrás era esse operário-modelo cuja consideração respeitosa pela posição de seu patrão e cuja timidez e humildade ao colocar as suas próprias reivindicações serviam de consolo para os nossos economistas alemães da Escola Socialista de Cátedra, às voltas com as incorrigíveis tendências comunistas e revolucionárias dos operários alemães. 

A religião é necessária para as pessoas

Contudo, os burgueses britânicos, como bons homens de negócios, viam mais longe que os professores alemães. Só a contragosto é que tinham dividido o poder com os operários. Durante o período cartista, haviam tido a oportunidade de aprender do que era capaz o povo, aquele puer robustus sed malitiosus. Desde então, tiveram que aceitar e ver convertida em lei nacional a maior parte da Carta do Povo. Agora, mais do que nunca, era necessário manter o povo à distância mediante recursos morais, e o primeiro e mais importante recurso moral para influenciar as massas continua sendo a religião. Daí a concessão da maioria dos cargos da administração das escolas às autoridades eclesiásticas, nas administrações, e daí a imposição da burguesia a si mesma de despesas cada vez mais elevadas para incentivar e sustentar todo tipo de demagogia devota, do ritualismo até o Exército da Salvação.

Foi assim que o respeitável filistinismo britânico triunfou sobre a liberdade de pensamento e a indiferença em assuntos religiosos do burguês continental. Os operários da França e da Alemanha tornavam-se rebeldes. Estavam totalmente contaminados pelo socialismo e, além disso, por motivos muito fortes, não davam muita importância à legalidade dos meios empregados para conquistar o poder. A cada dia que passava, o puer robustus se tornava realmente mais malitiosus. E ao burguês francês ou alemão não restava outro recurso senão renunciar discretamente a seu livre-pensar, como alguém que, sentindo enjoo com o balanço de um navio, deixa cair discretamente o charuto fumegante com o qual se exibia ao embarcar. Os que até então zombavam da religião foram adotando, um após outro, exteriormente, uma atitude devota, e começaram a referir-se com respeito à Igreja, a seus dogmas e ritos, a ponto, inclusive, de deles participar, quando não havia outra solução. Os burgueses franceses deixavam de comer carne na sexta-feira, e os burgueses alemães aguentavam pacientemente, nos bancos das igrejas, os intermináveis sermões protestantes de domingo. Seu materialismo tinha caído por terra. “É preciso manter viva a religião para o povo!” – esse era o último e único recurso para salvar a sociedade de sua ruína total. Infelizmente para eles, só tinham descoberto isso depois de terem feito tudo o que podiam para acabar com a religião definitivamente. Chegara, então, a vez de o burguês britânico rir e dizer: “Ora, seus tolos, eu podia ter dito isso a vocês há 200 anos!”.

Entretanto, receio que nem a impassibilidade religiosa do burguês britânico nem a conversão post festum do burguês continental consigam conter a maré proletária. A tradição é uma grande força de refreamento; é a vis inertiae da história. Mas é uma força meramente passiva, e por isso tem, necessariamente, que sucumbir. Sendo assim, a religião não pode servir por muito tempo de muralha protetora da sociedade capitalista. Se nossas ideias jurídicas, filosóficas e religiosas são os brotos mais ou menos próximos das relações econômicas em vigor numa determinada sociedade, a longo prazo essas ideias não conseguem se manter quando ocorre uma mudança radical dessas relações. De duas, uma: ou acreditamos numa revelação sobrenatural, ou temos de reconhecer que não há pregação religiosa capaz de escorar uma sociedade em derrocada.

Apesar de tudo, o proletariado inglês se libertará

Na Inglaterra, os operários começaram novamente a movimentar-se. Indiscutivelmente, o operário inglês está preso a uma série de tradições. Tradições burguesas, como a tão difundida crença de que não podem existir mais de dois partidos, o Conservador e o Liberal, e que a classe operária só pode lutar por sua salvação por intermédio do grande Partido Liberal. E tradições operárias herdadas dos tempos de seus primeiros ensaios de atuação independente, como a exclusão, nas numerosas antigas trade unions, de todos os operários que não tivessem passado por um determinado período de aprendizagem; o que significa, a rigor, que cada um desses sindicatos cria seus próprios fura-greves. Apesar de tudo isso e de muito mais, a classe operária avança, como o próprio professor Brentano se viu obrigado a comunicar, com grande pesar, a seus irmãos, os socialistas de cátedra. Avança, como tudo na Inglaterra, a passos lentos e medidos, aqui com hesitação e ali com tentativas mais ou menos infrutíferas; avança de vez em quando, com uma desconfiança excessivamente prudente da palavra socialismo, mas assimilando gradativamente sua essência; avança, e o movimento vai sendo disseminado e transmitido a uma camada operária após outra. Neste momento, sacudiu da apatia os operários não-qualificados do East End de Londres, e todos nós já vimos o fantástico impulso com que essas novas forças responderam. E se o ritmo do movimento ainda não está em consonância com a impaciência de uns e de outros, que eles não se esqueçam de que é a classe operária que mantém vivos os melhores traços do caráter nacional inglês, e que, na Inglaterra, quando se dá um passo adiante, já não se recua mais. Se os filhos dos antigos cartistas não corresponderam, pelos motivos indicados, ao que deles se esperava, tudo indica que os netos serão dignos dos avós.

Além disso, o triunfo da classe operária não depende somente da Inglaterra. Esse triunfo só pode ser assegurado mediante a cooperação da Inglaterra, da França e da Alemanha, pelo menos. Nestes dois últimos países, o movimento operário leva uma boa dianteira sobre o da Inglaterra. Os progressos aqui alcançados há 25 anos não têm precedentes. O movimento operário alemão avança a uma velocidade cada vez maior. E se a burguesia alemã tem mostrado uma lamentável falta de capacidade política, de disciplina, de coragem, de energia e de perseverança, a classe operária da Alemanha já demonstrou ter todas essas qualidades em alto grau. Há 400 anos, a Alemanha foi o ponto de partida do primeiro levante da classe média da Europa. No ponto em que se acham as coisas, será despropositado pensar que a Alemanha venha a se tornar também o cenário da primeira grande vitória do proletariado europeu?

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