Parte 2

Sobre o materialismo histórico

Engels escreveu este prefácio para a primeira edição inglesa de sua obra Do socialismo utópico ao socialismo científico, publicada em Londres em 1892 em uma tradução feita por Edward Aveling. Em junho de 1892, Engels traduziu o prefácio para o alemão e o enviou para ser publicado na revista teórica do Partido Social-Democrata alemão, Die Neue Zeit (Novos Tempos), onde foi reproduzido com algumas omissões sob o título “Sobre o materialismo histórico”, que retomamos na presente edição. Tomamos os subtítulos que dividem o texto da edição francesa de 1950 (Éditions Sociales, Paris). O texto começou a ser publicado no Caderno Cultural de Causa Operária na última edição. Esta é a segunda de quatro partes
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Friedrich Engels

Escolhemos publicá-lo por ser uma explicação sistemática sobre as origens da filosofia materialista que fundamenta o método de análise do desenvolvimento da sociedade do materialismo histórico, isto é, do marxismo. Consideramos bastante oportuna sua divulgação em função dos estudos que estão sendo promovidos na Universidade Marxista do PCO, no curso “Brasil: uma interpretação marxista de 500 anos de história” apresentado pelo companheiro Rui Costa Pimenta. Para mais informações sobre como se inscrever e participar acesse o portal da Universidade Marxista (https://universidademarxista.pco.org.br)

Crescimento social da burguesia

Quando a Europa saiu da Idade Média, a classe média urbana em ascensão era seu elemento revolucionário. A posição reconhecida que conquistara dentro do regime feudal da Idade Média já era demasiado estreita para sua força de expansão. O livre desenvolvimento dessa classe média, a burguesia, já não era compatível com o regime feudal; este tinha, forçosamente, de desmoronar.

Mas o grande centro internacional do feudalismo era a Igreja Católica Romana. Ela agregava toda a Europa Ocidental feudalizada, apesar de todas as suas guerras intestinas, numa grande unidade política, oposta tanto aos gregos cismáticos como aos países maometanos. A Igreja Católica cercava as instituições feudais com um halo de consagração divina. Sua própria hierarquia tinha sido organizada segundo o modelo feudal e ela era, de longe, o maior de todos os senhores feudais, possuindo um terço de toda a propriedade territorial do mundo católico. Antes de poder dar combate ao feudalismo secular, em cada país e nos diversos terrenos, era necessário destruir a organização central sagrada.

Além disso, paralelamente à ascensão da classe média, produzia-se o grande ressurgimento da ciência. Voltavam a ser cultivadas a astronomia, a mecânica, a física, a anatomia, a fisiologia. E a burguesia necessitava, para o desenvolvimento de sua produção industrial, de uma ciência que investigasse as propriedades dos corpos físicos e o funcionamento das forças naturais. Até então, a ciência não tinha sido mais do que a servidora humilde da Igreja, não lhe sendo permitido transpor as fronteiras estabelecidas pela fé. Ou seja: tinha sido qualquer coisa, menos uma ciência. Agora, a ciência se rebelava contra a Igreja; a burguesia precisava da ciência e se lançou com ela na rebelião.

Abordei aqui apenas dois pontos em que a burguesia em ascensão tinha necessariamente que entrar em choque com a religião estabelecida. Mas isso bastará para provar, em primeiro lugar, que a classe mais diretamente interessada na luta contra o poder da Igreja Católica era precisamente a burguesia e, em segundo lugar, que toda luta daquela época contra o feudalismo tinha que assumir uma roupagem religiosa e dirigir-se, em primeira instância, contra a Igreja. Mas o grito de guerra lançado pelas universidades e pelos homens de negócios das cidades tinha inevitavelmente de encontrar, como de fato encontrou, uma forte ressonância entre as massas do campo, entre os camponeses, que em toda parte tinham que enfrentar uma luta acirrada pela própria existência contra seus senhores feudais, eclesiásticos e seculares.

A grande luta da burguesia europeia contra o feudalismo culminou em três grandes batalhas decisivas.

A emancipação da burguesia e a reforma protestante 

A primeira batalha foi a chamada Reforma Protestante na Alemanha. Ao grito de rebelião de Lutero contra a Igreja responderam duas insurreições políticas: primeiro, a da nobreza inferior, liderada por Franz von Sickingen, em 1523, seguida pela grande Guerra Camponesa em 1525. Ambas foram esmagadas, principalmente devido à indecisão dos maiores interessados na luta: os burgueses das cidades – indecisão cujas causas não cabe analisar aqui. A partir daquele momento, a luta degenerou numa rixa entre os príncipes locais e o poder central imperial, trazendo como consequência o afastamento da Alemanha, por 200 anos, do concerto das nações politicamente ativas da Europa. É certo que a Reforma Luterana conduziu a uma nova religião, adaptada à monarquia absoluta. Mal abraçaram o luteranismo, viram-se  os camponeses do Nordeste da Alemanha rebaixados da condição de homens livres à de servos da gleba.

Entretanto, onde Lutero falhou, triunfou Calvino. O dogma calvinista servia aos burgueses mais intrépidos da época. Sua doutrina da predestinação era a expressão religiosa do fato de que, no mundo comercial, no mundo da concorrência, êxito ou fracasso não dependem da atividade ou da inteligência de um indivíduo, e sim de circunstâncias que fogem de seu controle. Não dependem nem de quem quer, nem de quem trabalha: dependem  de forças econômicas superiores desconhecidas.

Isso era ainda mais verdadeiro numa época de revolução econômica, em que todos os velhos centros e rotas comerciais eram substituídos por outros novos, em que se abriam ao mundo a América e a Índia e em que até mesmo os artigos econômicos de fé mais sagrados – os valores do ouro e da prata – vacilavam e vinham abaixo. Ademais, o regime da Igreja calvinista era absolutamente democrático e republicano; como podiam os reinos deste mundo continuar sendo súditos dos reis, dos bispos e dos senhores feudais, quando o reino de Deus tinha sido republicanizado? Se o luteranismo alemão se converteu em ferramenta submissa nas mãos dos pequenos príncipes alemães, o calvinismo fundou uma República na Holanda e partidos republicanos fortes na Inglaterra e, sobretudo, na Escócia.

A revolução inglesa, nascimento do materialismo

A segunda grande insurreição da burguesia encontrou no calvinismo sua doutrina em uma forma acabada e sob medida. Essa insurreição aconteceu na Inglaterra. A classe média urbana começou o movimento, mas foram os camponeses médios (a yeomanry) dos distritos rurais que conseguiram triunfar. Coisa singular: nas três grandes revoluções burguesas, são os camponeses que fornecem as tropas de combate, e são também eles, precisamente, a classe que, depois da vitória, vai certamente acabar arruinada pelas consequências econômicas desse triunfo. Um século depois de Cromwell, a yeomanry da Inglaterra quase desaparecera. Mesmo assim, sem a intervenção dessa yeomanry e do elemento plebeu das cidades, a burguesia jamais teria conseguido conduzir a luta ao seu final vitorioso nem levado Carlos I ao cadafalso. Para garantir que a burguesia colhesse pelo menos os frutos mais maduros das conquistas então obtidas, era necessário que a revolução fosse levada muito além de sua meta – exatamente como na França em 1793 e na Alemanha em 1848. Essa parece ser, de fato, uma das leis que regem a evolução da sociedade burguesa.

A esse excesso de atividade revolucionária seguiu-se a inevitável reação, que, por sua vez, também ultrapassou o ponto em que deveria ter permanecido. Depois de uma série de oscilações, fixou-se, por fim, um novo centro de gravidade, que se converteu, por sua vez, em novo ponto de partida. O período grandioso da história inglesa, ao qual o filistinismo dá o nome de “a Grande Rebelião”, e as lutas que se seguiram, encerraram-se com o episódio relativamente insignificante de 1689, que os historiadores liberais denominam “a Revolução Gloriosa”.

O novo ponto de partida foi um compromisso entre a burguesia em ascensão e os antigos grandes latifundiários feudais. Estes, embora fossem conhecidos na época, como ainda hoje, pelo nome de aristocracia, estavam há muito tempo em vias de converter-se  no que Luís Felipe seria muito tempo depois na França: “os primeiros burgueses do reino”. Para felicidade da Inglaterra, os antigos barões feudais se haviam destroçado entre si nas Guerras das Rosas. Seus sucessores, embora, em sua maioria, descendentes das mesmas antigas famílias, procediam já de linhas colaterais tão afastadas que formavam uma corporação completamente nova, com costumes e tendências muito mais burguesas que feudais. Conheciam perfeitamente o valor do dinheiro e se dedicaram, em seguida, a aumentar as rendas de suas terras, delas expulsando centenas de pequenos arrendatários e substituindo-os por rebanhos de ovelhas. Henrique VIII criou uma massa de novos proprietários de terras burgueses, distribuindo prodigamente os bens da Igreja; e a idêntico resultado chegaram os confiscos de grandes propriedades territoriais, que aconteceram sem interrupção até fins do século XVII, beneficiando novos ricos ou perfeitos arrivistas. Por isso é que a “aristocracia” inglesa, desde Henrique VIII, longe de opor-se ao desenvolvimento da produção industrial, procurara tirar proveito dela indiretamente. Ademais, uma parte dos grandes latifundiários sempre se mostrara disposta a colaborar com os líderes da burguesia industrial ou financeira, a todo momento, por motivos econômicos ou políticos. Assim, o compromisso de 1689 não foi difícil de conseguir. Os troféus políticos – cargos, sinecuras, altos salários – ficaram para as grandes famílias da aristocracia rural, com a condição de que defendessem suficientemente os interesses econômicos da classe média financeira, industrial e mercantil. E esses interesses econômicos já eram, então, suficientemente poderosos para determinar, em última análise, os rumos da política nacional. Poderia haver discrepâncias em torno de detalhes, mas a oligarquia aristocrática sabia muito bem o quanto sua própria prosperidade econômica estava inseparavelmente unida à prosperidade da burguesia industrial e comercial.

A partir daí, a burguesia converteu-se em parte integrante, modesta, porém reconhecida, das classes dominantes da Inglaterra. Compartilhava com todas elas o interesse em manter oprimida a grande massa trabalhadora do povo. O próprio comerciante ou fabricante ocupava, em relação a seu subordinado, a seus operários ou a seus empregados domésticos, a posição de senhor, de seu “superior natural”, como se dizia até há pouco na Inglaterra. Tinha de sugar deles a maior quantidade e a melhor qualidade possível de trabalho; para consegui-lo, tinha de treiná-los para uma submissão adequada. Pessoalmente, era um homem religioso; sua religião lhe fornecera a bandeira sob a qual combatera o rei e os senhores; e ele não demorara muito a descobrir as oportunidades adicionais que essa religião lhe oferecia para trabalhar o espírito de seus inferiores naturais e torná-los submissos às ordens dos mestres que os desígnios de Deus tinham colocado acima deles. Em resumo, a burguesia inglesa participava agora da empresa de oprimir as “classes inferiores”, a grande massa produtora da nação, e um dos meios empregados para isso foi a influência da religião.

Outro fato veio reforçar as inclinações religiosas da burguesia: o aparecimento do materialismo na Inglaterra. Essa nova doutrina não só feria os sentimentos piedosos da classe média, mas, além disso, apresentava-se como uma filosofia adequada apenas para os sábios e cultos do mundo, ao contrário da religião, boa para a grande massa não ilustrada, o que incluía a burguesia. Com Hobbes, essa doutrina entrou em cena como defensora das prerrogativas e da onipotência reais e convidou a monarquia absoluta a manter em rédea curta aquele puer robustus sed malitiosus que era o povo. Também nos continuadores de Hobbes, em Bolingbroke, em Shaftesbury, etc., a nova forma deística do materialismo continuou sendo uma doutrina aristocrática, esotérica e, portanto, odiada pela burguesia, não só por ser uma heresia religiosa, mas também por suas conexões políticas antiburguesas. Da mesma forma, frente ao materialismo e ao deísmo da aristocracia, as seitas protestantes, que tinham fornecido a bandeira e os homens para a luta contra os Stuarts, continuaram a fornecer o contingente principal às forças da classe média progressista, e continuam até hoje constituindo a espinha dorsal do “Grande Partido Liberal”.

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