Pelo fim do Estado de Israel

Nesta polêmica, o presidente do PCO explica a origem do conflito entre judeus e palestinos e aponta o caminho para sua solução

Rui Costa Pimenta

No último dia 13, Mauro Nadvorny, que se apresenta como administrador do grupo Resistência Democrática Judaica, publicou no Brasil 247 um artigo pedindo o fim do Partido da Causa Operária. O motivo é este: o PCO publicou uma peça para sua campanha de filiação nas redes sociais em que pedia o fim do Estado de Israel. Nadvorny se apresenta também como perito em veracidade, seja lá o que for isso, mas apresenta um artigo calunioso e francamente ignorante da realidade e da posição do PCO sobre o tema.

Após decretar ritualmente a insignificância do PCO, Nadvorny consegue concatenar a ideia central que para ele justifica pedir o fim do Partido: o PCO seria equivalente aos nazistas.

“Mas quando um partido se coloca pelo fim do Estado de Israel, estamos falando de um partido com uma retórica antissemita. Um dos valores da esquerda é o seu humanismo, sua preocupação com a vida, não desejamos a destruição de nenhum país, de nenhum povo. Lutamos por mudanças que levem a um mundo melhor para todos. Colocar em um panfleto uma mensagem destas é o anúncio de que de esquerda o PCO não tem nada diferente do Partido Nazista. São iguais em número, gênero e grau”, escreve Nadvorny.

Em outra passagem, ainda aparece com a ideia de fim dos EUA, como se isso fosse algo parecido com nossa proposta em relação a Israel.

“Quem sabe a destruição dos imperialistas americanos. Com o fim dos EUA, os operários comeriam menos junk food, tomariam menos refrigerantes e a saúde dos trabalhadores teria uma melhora substancial.”

Ainda no esforço para criticar uma posição que ele nem mesmo entende, Nadvorny apresenta a seguinte ideia:

“Eu fico me perguntando a todo momento que diferença faz para o operário brasileiro a existência, ou não de outros países. Vamos imaginar desejar o fim da Argentina. Talvez isto tirasse um rival dos gramados e consequentemente a seleção canarinho teria um caminho mais fácil na Copa América. Isto traria mais felicidade à classe trabalhadora.”

Como vemos aqui tratamos com um flagrante caso de ignorância política que beira a infantilidade ou de pura má-fé. Nosso crítico busca apresentar nossa posição como uma posição de extermínio do povo judeu. Ele busca dizer que liquidar o Estado de Israel seria acabar com o povo judeu – uma completa falsificação.

Por um Estado laico

Vejamos os dados elementares da questão. O Estado de Israel é um país com religião oficial de Estado, estabelecido em 1948 na Palestina contra a vontade da maioria dos que habitavam aquele território à época e com apoio do imperialismo mundial e até mesmo do stalinismo. Ocorre que o espaço geográfico onde ele se situa já estava ocupado, por um outro povo civilizado, com outra religião que não o judaísmo: os árabes palestinos. Os dois povos estão em guerra desde então por conta da ocupação de espaço já reivindicado. Como se não bastasse isso, Israel, a única potência nuclear no Oriente Médio – pelas graças do imperialismo – tem promovido uma política de expansão territorial brutal e transformou a Palestina num gigantesco gueto, numa ironia da história. Este ano, após muita tergiversação, a Anistia Internacional, um instrumento do imperialismo, foi obrigada a reconhecer que Israel de promove um apartheid contra os palestinos e comete crimes contra a humanidade. Nadvorny diz que um dos valores da esquerda é o “humanismo”, belo valor que termina, para ele, onde o começa o território ocupado pelo Estado de Israel. 

O PCO sempre defendeu o fim do Estado de Israel por ver o óbvio: não somos favoráveis a Estados religiosos ou raciais, ou seja, excludentes do restante da população que não pertence a determinada raça ou religião. Somos favoráveis a um Estado democrático que represente os interesses de todos, independentemente de credo, raça ou outras distinções. O Estado de Israel não é nada disso. Os palestinos foram expulsos de seu país e espalhados pelo mundo como há muito o Império Romano fez com os próprios judeus. Uma parte da população palestina vive hoje numa região administrativa artificial sem quaisquer condições reais de vida, um verdadeiro gueto como o imperialismo alemão fez uma vez com os judeus.

O Estado de Israel ainda declara que a cidade de Jerusalém, considerada sagrada para os judeus, cristãos e islâmicos, é a capital do Estado judeu! Não é preciso um perito em veracidade para ver que isso jamais terá fim e será uma guerra permanente. Mas isso significa varrer as milhões de famílias judaicas da região? Significa estabelecer um Estado islâmico e ver os judeus julgados pela Shária? Não. No território disputado hoje, não pode nem haver califado nem Estado Judeu, ao menos do nosso ponto de vista. 

Só pode haver um Estado laico, uma república com um sistema de governo que garanta os direitos de todos os grupos étnicos e religiosos sem exceção. Tanto os judeus como os islâmicos têm motivos histórico-religiosos para dizer que aquela terra é deles, mas não se trata de julgar quem está certo e quem está errado. Nenhum lado aceitará ser despossuído de seu território. Trata-se de corrigir uma barbaridade que tem sido feita aos árabes desde 1948. Os judeus podem ficar, mas o Estado genocida tem que ir.

Luta internacionalista

Agora, com uma disputa ativa e armada pela região, pedir o fim do Estado de Israel é bem diferente de pedir o fim dos EUA ou da Argentina. Para que o nosso crítico consiga entender: também somos favoráveis à destruição do Estado norte-americano, do argentino e inclusive do brasileiro e pela sua substituição por meios revolucionários por um Estado operário. Qualquer estudante de política sabe que destruir o Estado – que é feito normalmente por uma revolução da qual a história tem milhares de exemplos – não significa destruir o povo que vive sob aquele Estado.

Nosso crítico diz, manifestando uma completa indigência intelectual, que o fim do Estado de Israel não beneficiaria nenhum proletariado. Para ele, o proletariado é uma classe animalesca que só pensa em questões econômicas imediatas. Outra manifestação aberrante de ignorância política. A classe operária, sendo uma classe social, se preocupa com a política, com o Estado e não apenas com o seu Estado nacional, mas com todos os Estados e países do mundo. Pergunto-lhe, e o proletariado de Gaza e da Cisjordânia? Só em 2019 foram quase 250 mortos, com mais de 50 crianças! Ele insiste que apenas deveríamos ter posições que beneficiam o proletariado brasileiro de forma imediata e acusa nossa propaganda neste quesito de não servir às eleições deste ano. Para nós, a luta dos palestinos e dos operários de Israel é a nossa luta, é a luta da classe operária mundial. A derrota do Estado de Israel e a sua destruição seriam um enorme progresso na luta pela libertação dos povos árabes e do mundo inteiro da ditadura do imperialismo da qual o Estado de Israel é uma arma e apenas isso, uma arma do imperialismo, contra os povos oprimidos. Os judeus que lá vivem não são mais que bucha de canhão da política criminosa do imperialismo.

Justamente por isso que a política da esquerda, quer dizer, da esquerda revolucionária, proletária, marxista pode ser considerada como a forma suprema de humanismo, porque ela defende os interesses do conjunto da humanidade sofredora.

Marxistas “antissemitas”?

Continuando, corajosamente, nosso crítico se aventura:

“Isto é o que eu chamo de retórica antissemita. Uma panfletagem inconsequente que em nada contribui para a eleição de Lula. Precisamos de todos os votos possíveis, de todas e de todos que possam nos ajudar a vencer estas eleições, e o que vemos é um bando de sem noção insuflando causas fora de contexto, estapafúrdicas e alienadas da realidade. Devem estar tomando muito chá de cogumelo por lá.”

Em primeiro lugar, o antissemitismo é um preconceito geral contra os judeus e os judaísmo. Nada temos a ver com isso nem com qualquer outro tipo de discriminação contra os povos do mundo inteiro. Muito ao contrário disso, lutamos pela emancipação geral de todos as classes e povos oprimidos. A luta da classe operária nada tem a ver com as revoluções burguesas onde os capitalistas sob a cobertura dos ideais de emancipação de todos os homens pensava apenas na sua própria emancipação como classe. A classe operária busca libertar todos os oprimidos e explorados de todo o mundo. A emancipação social da classe operária representará o fim de toda opressão sob a face da terra de uma vez por todas, para sempre.

Além disso, somos marxistas, ou seja, discípulos de Marx e Trótski, ambos de origem judaica. Se fôssemos antissemitas teríamos que declarar em coro com os nazistas que o marxismo e o comunismo são doutrinas judaicas.

Diferentemente de Navordny, nós não escolhemos nossas posições baseadas num nacionalismo tacanho ou de acordo com uma suposta conveniência eleitoral, temos algo chamado princípios. O PCO defende o internacionalismo proletário, isto é, defendemos o interesse da classe operária internacional onde quer que ela se encontre. Para nós não há libertação do povo brasileiro enquanto ele for escravizado na Colômbia, nos EUA ou em Gaza. Para nós o que fortalece a luta do operário norte-americano (não o capitalista) fortalece a nossa luta aqui. O que fortalece a luta do povo oprimido na Palestina (e não apenas o proletariado palestino) fortalece a luta do povo e do proletariado brasileiro. 

Oportunismo

Em relação à campanha de Lula, não podemos senão supor, já que o nosso perito em veracidade não diz às claras, que insinua que criticar Israel poderia afastar judeus que poderiam apoiar Lula e que teriam apoiado Bolsonaro.

Se é isso, só podemos dizer que não adianta tentar enganar o eleitor. A defesa do Estado de Israel requer um alinhamento diplomático com o imperialismo norte-americano, o patrocinador maior do que acontece no Oriente Médio. O governo Lula seria, naturalmente, menos propenso a este alinhamento que o governo Bolsonaro, que tem a defesa de Israel e um racismo antí-arábe herdado da burguesia norte-americana como pontos centrais da sua política. Lula naturalmente buscaria se dar bem com a China, Rússia e talvez até o Irã. É da sua natureza nacionalista. Lembremos inclusive que ele foi a Teerã para buscar um acordo entre o país persa e o imperialismo norte-americano, e foi visto como um ator simpático aos persas. Mesmo que Lula não defenda a posição do PCO – e não defende – não será mais pró-Israel que Bolsonaro, é tolice dizer qualquer coisa contrária. De qualquer maneira, queremos fortalecer os judeus verdadeiramente democráticos e socialistas contra os judeus de direita e mostrar que o Estado de Israel, com seus métodos brutais e desumanos, é um perigo para o próprio povo judeu e não só os que vivem em Israel. Uma mudança na relação de forças mundial colocaria os judeus do Estado de Israel em uma posição perigosa de enfrentar o ódio que se acumula contra a burguesia judaica por força dos serviços prestados ao imperialismo. Só não vê essa realidade quem não quer. 

Mesmo assim. Do ponto de vista puramente eleitoral, os árabes e seus descendentes no Brasil são infinitamente mais numerosos que os judeus e em sua maioria esmagadora estão ao lado dos palestinos em seu enorme sofrimento de sete décadas sob o Estado de Israel.

Não adianta tentar vender Lula como fosse uma cópia de Bolsonaro neste ou naquele quesito, como não adiantou vestir Haddad de verde-amarelo para o segundo turno. Se se pode votar no original, para quê votar numa cópia? Devemos ter um programa positivo para a questão de Israel, como nós temos. Enquanto setores continuarem a defender o Estado de Israel continuam amarrados aos EUA e por conseguinte, a Bolsonaro ou uma terceira via.

Se querem convencer estes setores a votar em Lula, devemos começar por lhes dizer a verdade, dizer que o governo Bolsonaro promove a fome, um ataque sem fim contra os direitos dos trabalhadores, que deixado solto, estabeleceria o Brasil como mero apêndice dos EUA, levando abaixo nossa indústria e aprofundando a estagnação do desenvolvimento nacional. Se a fome do próprio povo, o massacre da nossa classe produtiva e a nossa subjugação como País não sensibilizar estes setores, não será uma mentira mal contada ou falsificações históricas como as de Navordny que surtirão efeito. Apoiar o Estado de Israel contra os palestinos é uma posição política de direita e não de esquerda. Não será uma eleição que irá mudar esse fato.

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