Com qualquer vencedor, regime político francês sai derrotado

Crescimento da extrema direita expõe fracasso do governo Macron e dos partidos tradicionais

Quando fechávamos esta edição estava para se dar a volta do povo francês às urnas para escolher definitivamente quem será seu presidente. O primeiro turno, realizado no último dia 10, levou ao segundo turno Emmanuel Macron, o atual presidente, e Marine Le Pen, a candidata da extrema direita. O embate é uma reedição do segundo turno anterior, de 2017, mas o panorama político francês é completamente diferente.

De acordo com o semanário britânico The Economist, Macron tinha 93% de chances de se reeleger. O acompanhamento de múltiplas pesquisas de opinião aponta que Le Pen deve receber 45% dos votos válidos e o atual presidente, 55%.

As chances de que esse quadro se revertesse em favor da candidata de extrema direita eram baixas. Para que isso aconteça, Le Pen precisaria animar uma parcela significativa dos cerca de 12,8 milhões de eleitores que se abstiveram no primeiro turno. Isso ou contar que a maior parte dos apoiadores do candidato da esquerda, Jean-Luc Mélenchon, vote em seu favor no segundo turno.

O líder da França Insubmissa convocou seus eleitores a “não darem um voto sequer a Le Pen” logo após a confirmação de sua derrota no primeiro turno. De acordo com pesquisa realizada pelo instituto Ipsos, apenas 16% dos que o apoiaram descumprirão essa orientação, enquanto 38% devem votar em Macron em nome do combate ao “fascismo” de Le Pen. Os demais irão se abster ou votarão em branco, o que não ajuda a extrema direita na reta final da corrida por votos.

“Entre a praga e a cólera”

Apesar da provável vitória de Macron, esses dados demonstram que 2022 é muito diferente das últimas eleições presidenciais. Primeiramente, há um crescimento significativo no apoio a Le Pen que, caso confirmadas as pesquisas, saltará 11% em relação ao resultado de 33,9% alcançado no último segundo turno.

Além disso, os dados indicam uma grande abstenção da esquerda francesa, cansada de atuar como dique de contenção da extrema direita na votação presidencial.

“Eu não votarei no segundo turno. Eu sempre me pergunto no primeiro turno, quando há mais candidatos, que poderia fazer minha voz ser ouvida. Mas no segundo turno, eu não quero escolher entre a praga e a cólera”, disse Louise, uma funcionária pública de 28 anos, que preferiu não revelar seu segundo nome à reportagem da Euronews por receio de sofrer algum tipo de retaliação em seu emprego.

Louise não está sozinha nesse raciocínio. De acordo com Ipsos, o índice de abstenção entre pessoas de 25 a 34 anos deve ser de 46%. O número cai um pouco para 42% entre os mais jovens, de 18 a 24 anos, mas ainda é alto.

A rejeição a ambos os candidatos também foi vista nas ruas da França no final de semana que antecedeu o pleito. Dezenas de milhares de pessoas espalhadas em diversas cidades do país se manifestaram contra a xenofobia e o racismo expresso nas propostas de Le Pen, mas um importante setor do protesto não deixou que essa pauta se passasse como uma espécie de apoio velado a Macron.

Em meio a palavras de ordem convocando a esquerda a apoiar o candidato favorito do imperialismo francês – como “melhor um voto que fede do que um voto que mata” – uma parcela expressiva dos presentes no ato em Paris levantaram o grito de “nem Macron, nem Le Pen”.

Esse quadro indica que, ainda que o atual presidente se reeleja, seu mandato será muito mais frágil que o anterior. Se em 2017 não se sabia do que Macron e seu partido improvisado eram capazes, após cinco anos de arrocho fiscal, repressão de movimentos operários – especialmente os Coletes Amarelos – e medidas draconianas durante a pandemia, restam poucos motivos senão a ameaça da extrema direita para apoiá-lo.

Apoio velado a Macron

Ainda que a disposição a se opor tanto a Macron como Le Pen seja grande, com exceção do partido trotskista Lutte Ouvrière, a esquerda francesa se recusa a adotar uma posição firme de rejeição aos candidatos burgueses. Refugiam-se num apoio velado a Macron.

Logo após a divulgação dos resultados oficiais do primeiro turno, Philippe Martinez e Laurent Berger, lideranças da Confederação Geral do Trabalho (CGT) e da Confederação Francesa Democrática do Trabalho (CFDT), respectivamente, publicaram uma carta conjunta no Journal de Dimanche.

“O Reagrupamento Nacional [partido de Le Pen] é um perigo para os direitos fundamentais dos cidadãos e trabalhadores. Ele não pode ser considerado como um dos partidos republicanos, respeitoso e garantidor de nosso lema: liberdade, igualdade, fraternidade. Não vamos confiar a eles as chaves para a nossa democracia, sob risco de perdê-las”, escreveram.

A burocracia sindical ecoou as palavras de Mélenchon e outras lideranças da esquerda francesa que recusaram-se a chamar abertamente o voto nulo, a abstenção contra esse assalto à pretensa democracia que força a população a escolher “entre a praga e a cólera”.

Com exceção do Partido Socialista, que abertamente apoiou Macron, e do trotskista Luta Operária, que convocou seus apoiadores e militantes a boicotar o segundo turno, a esquerda francesa chamou o voto em Macron sem citar seu nome.

O apoio velado, porém, aprofundou-se no último dia 19 após entrevista de Mélenchon à emissora francesa BFM-TV. “Eu estou pedindo aos franceses que me elejam primeiro-ministro”, disse o presidenciável mais bem votado da esquerda francesa.

O líder da França Insubmissa refere-se de forma implícita às eleições parlamentares francesas que ocorrem em junho. De acordo com a Constituição francesa, o primeiro-ministro é indicado pelo presidente que, caso não tenha maioria no parlamento, tradicionalmente aponta um representante do partido majoritário.

Ou seja, Mélenchon propõe governar ao lado, e não contra Macron. Tudo isso ainda sem mencionar o nome do candidato que apoia, ou devemos esperar que Le Pen respeitaria essa “tradição” dos presidentes franceses e apontaria Mélenchon primeiro-ministro caso seu partido conquiste a maioria parlamentar?

Regime em decomposição

Em entrevista ao jornal Le Figaro, principal órgão de imprensa do imperialismo francês, o historiador Marcel Gauchet declarou: “ao invés de uma recomposição, estamos testemunhando uma decomposição política.”

Gauchet se refere à falência dos partidos tradicionais do regime político francês: os Republicanos e o Partido Socialista. Após serem parcialmente substituídos pelo En Marche, partido criado por Macron para disputar a presidência de 2017, ambos juntos receberam menos de 6% dos votos no primeiro turno. Ficaram atrás do candidato à direita de Le Pen, Éric Zemmour.

A “recomposição” dos dois partidos no En Marche, porém, revelou-se uma decomposição. Nem mesmo a burguesia francesa consegue esconder a fragilidade de Macron ante sua potencial vitória no próximo dia 24.

Caso a esquerda se escore nesse regime em decomposição, completamente repudiado pelo povo, sucumbirá com ele e entregará a classe operária de um dos países mais importantes do mundo nas mãos da extrema direita. 

Macron reeleito não estancará a ferida aberta do regime político francês. A ilusão de que é possível pressionar ou alterar a política do imperialismo francês é uma armadilha para esquerda. Mélenchon, se realizar sua ambição de participar desse governo, pode estar condenando seu partido ao mesmo destino do regime político francês.

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