“A revolução não será televisionada”

20 anos após o golpe de 2002 a tendência golpista segue vigorando na Venezuela e em toda América Latina
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Este mês o golpe fracassado contra o governo de Hugo Chávez na Venezuela de 2002, completa 20 anos. O golpe foi derrotado pela mobilização popular que enfrentou nas ruas os golpistas. 

O chavismo nasceu em confronto direto contra o entreguismo descarado da direita pró-imperialista venezuelana como um instrumento de contenção das massas impulsionado a partir do “caracazo” de 1989, que representou um prenúncio do repúdio popular as políticas neoliberais.

Da mesma maneira pioneira, a direita venezuelana tem apresentado um verdadeiro arsenal de tentativas golpistas desde o início dos anos 1990 por ter sido escorraçada do cenário eleitoral. A comoção do povo venezuelano devido à morte de Hugo Chávez em março de 2013 levou a mais uma vitória, não menos atacada, com a eleição presidencial de Nicolás Maduro em nas eleições presidenciais de 2013. Quando a direita e o imperialismo esperavam pelo desgaste do governo chavista devido ao aprofundamento da crise capitalista, os resultados eleitorais mostraram justamente o aumento do repúdio da direita.

A direita 

A direita venezuelana é profundamente recalcitrante, pró-imperialista e golpista. Ela tem muito pouco, ou nada, para oferecer ao povo venezuelano. Concretamente, além dos discursos demagógicos sobre a democracia, a corrupção, a liberdade e outras palavras vazias, a direita somente pode oferecer entregar de mãos beijadas a PDVSA (Petróleos de Venezuela S.A, é a empresa de petróleo estatal venezuelana) para o imperialismo e o direcionamento dos recursos, que hoje são destinados aos programas sociais, para a especulação financeira, que absorve e torna pó, qual um buraco negro, todos os recursos onde põe a mão.

O principal líder da direita venezuelana na ocasião do golpe de 2002, Hugo Capriles, é muito representativo do perfil dessa direita. Ele pertence a uma das famílias mais ricas do País e procede da ala ultradireitista da Igreja Católica, a TFP (Tradição, Família e Propriedade). Em 2001, foi um dos fundadores do direitista Partido Primeiro Justiça, que recebeu um grande apoio do Partido Republicano norte-americano. Em abril de 2002, foi um dos artífices da tentativa do golpe de Estado contra o governo Chávez. Nas eleições legislativas, ele conseguiu se manter à frente do governo do estado de Miranda, mas por estreita margem de votos.

Na tentativa de minimizar o impacto de uma nova derrota por Capriles, anos depois a direita golpista  tentou promover a candidatura do dissidente do PSUV (Partido Socialista Unificado), Henri Falcón, que venceu as eleições ao estado de Lara com o seu próprio movimento, tentando revitalizar a direita com um certo verniz esquerdista. O problema é a falta de tempo para materializar essa jogada.

A estratégia da direita

O imperialismo ainda tenta intervir intensamente no desenvolvimento do processo político venezuelano com o objetivo de aumentar a participação nos recursos petrolíferos. A cartada ideal seria a tomada do poder pela direita pró-imperialista. A possível até certo momento, foi o aumento dos acordos com o chavismo.

Após várias tentativas de golpes de estado fracassados, a direita se vê enfraquecida sem o controle das forças armadas e com as contundentes derrotas eleitorais, que expressam o enorme repúdio das massas trabalhadoras. 

Mas a movimentação no sentido golpista continua a todo vapor, principalmente a partir do controle da imprensa, do controle parcial das estruturas do estado burguês, do poder econômico, da pressão do imperialismo e na expectativa do desgaste do governo Maduro, que havia dúvidas se se sustentaria no poder, sem Chávez. Chama a atenção que este último fator tenha sido colocado de maneira intensa pela imprensa burguesa, esquecendo que no Brasil, por exemplo, o governo nada carismático de Dilma Rousseff foi viabilizado em cima da figura de Lula, mas que tomou um certo desenvolvimento autônomo se mantendo até o golpe de Estado de 2016. 

Obviamente, isto se aplica no caso da movimentação das massas continuar morna, como tem acontecido. O problema é que numa situação de ascenso real, impulsionada a partir do aprofundamento da crise capitalista, o regime de conjunto ficaria em xeque. A direita não teria nenhuma chance de contenção devido ao gigantesco desgaste. A esquerda precisaria de figuras do porte de Lula ou Chávez .

Outro líder da direita, Antonio Ledezma, foi impulsionado como o ponto de partida. Apesar de ele ser tão direitista, ou ainda mais que Hugo Capriles, Ledezma tem um passado socialdemocrata o que lhe dá uma certa aparência para levantar a bandeira sobre algumas da promessas sociais demagógicas da MUD (Mesa da Unidade Democrática), que agrupa 19 partidos da direita pró-imperialista, representante dos setores mais reacionários da burguesia venezuelana. Entre essas promessas estão subsídios para a compra de imóveis de valores maiores, para as classes médias poderem aceder ao crédito, e o suposto “progresso para todos”, em contraposição ao “governo vermelho” do chavismo, sob a palavra de ordem “Nem direita nem esquerda. Somos todos venezuelanos”.

Por “progresso” a direita entende, fundamentalmente, a entrega do petróleo às multinacionais imperialistas, o que implicaria na privatização de todos os serviços da PDVSA (Petróleos Venezuelanos S.A); na necessária suspensão da transferência de recursos financeiros de PDVSA para os fundos de desenvolvimento nacional, que estão na base dos programas sociais e do investimento público, devido ao direcionamento total da empresa para a especulação financeira; o sucateamento da PDVSA para posterior entrega integral às multinacionais, da mesma maneira que foi feito com a PEMEX no México; o aumento da participação das multinacionais no setor petrolífero, eliminando a necessidade de entrarem em joint ventures com o governo; a reforma da Lei dos Hidrocarbonetos de 2001, que foi um dos principais motivos que levou à tentativa de golpe de estado de abril de 2002, com o objetivo de promover o desmantelamento de PDVSA; e a reversão das nacionalizações, que contabilizando as promovidas pelos governos Chávez, representam 29% do PIB. 

Outras típicas medidas neoliberais pró-imperialistas também fazem parte do programa – a independência total do Banco Central e a quebra do controle de câmbios. Estas políticas, que representariam a base de um governo da direita são uma réplica da política que o imperialismo norte-americano tenta impor em toda América Latina com o objetivo de aumentar o repasse do peso da crise para a região devido às derrotas e ao acirramento das contradições imperialistas e com as potências regionais nas demais regiões do planeta.

A imprensa burguesa, pilar da direita golpista

A imprensa burguesa promove enorme campanha sobre o caráter supostamente ditatorial dos governos nacionalistas. Na realidade, representa justamente a voz de um dos principais pilares da direita pró-imperialista e golpista, que organiza manifestações contra os governos nacionalistas sob palavras de ordem gerais relacionadas com a democracia, pela suposta defesa da vida e contra a corrupção. Tudo isso acontece apesar dos governos e parlamentares da direita serem, de longe, os mais antidemocráticos e corruptos.

A imprensa capitalista na Venezuela, assim como acontece nos demais países atrasados, representa, de maneira descarada, os interesses das grandes empresas e das multinacionais imperialistas.

A luta dos governos nacionalistas contra a imprensa burguesa é muito fraca. Quase em nenhum momento, eles denunciam o caráter e o papel dessa imprensa. Não implementam medidas para acabar com esse monopólio, como, por exemplo, a estatização da imprensa e a distribuição dos tempos de transmissão para as entidades e organizações sociais, a democratização no acesso ao papel, o fim do controle das empresas sobre a imprensa, por meio do financiamento dos anúncios, e uma verdadeira liberdade de imprensa, com o fim da censura prévia, e de todo tipo, estabelecida pelo poder judiciário.

No golpe de 2002 o monopólio dos meios de comunicação cumpriu papel fundamental, e a principal propaganda do contragolpe é justamente o documentário intitulado “A revolução não será televisionada” dos irlandeses, Kim Bartley e Donnacha O’Briain.

A relação dos governos nacionalistas com a imprensa burguesa, no entanto, acontece em cima de negociações, onde, normalmente, acabam acuados e na defensiva – este foi o caso da RCTV na Venezuela que ficou famosa quando teve sua concessão cassada temporariamente por Chávez em 2007 e do El Clarín na Argentina.

O chavismo e a democracia burguesa

Em janeiro de 2013, quando Hugo Chávez deveria ter tomado posse como presidente eleito, houve nova tentativa de golpe. A ofensiva, apoiada pelo imperialismo norte-americano, fracassou novamente devido às gigantescas mobilizações populares em apoio a Chávez. A política é a mesma que foi aplicada em Honduras e no Paraguai, Brasil onde governos de caráter nacionalista burguês, como o de Chávez, foram derrubados por golpes a partir do controle do Poder Judiciário ou Parlamento; tudo sob uma fachada de aparência legal. Na Venezuela, a alegação foi que teria se aberto 

um “vazio de poder” e que o presidente da Assembleia Nacional é quem deveria assumir o governo, para convocar eleições. O envio de uma carta para a OEA (Organização dos Estados Americanos), alertando sobre uma suposta “violação da ordem constitucional”, tinha como objetivo criar uma situação para abrir passo a sanções e permitir a escalada do intervencionismo imperialista.

Os chavistas enfrentaram mais essa provocação com uma enorme manifestação que contou com a presença de vários presidentes latino-americanos, o que obrigou o Tribunal Supremo de Justiça a decidir que Chávez não deveria ser substituído. A direita ficou contra a parede e acatou a decisão, mas as tentativas de retomar o poder por meios extraparlamentares, já que pela via eleitoral não há perspectivas para essa direita no momento, continuam em aberto porque ela é a política impulsionada pelo imperialismo norte-americano para a região.

Essas tendências voltaram em larga escala a partir do colapso capitalista de 2007-2008. Documentos publicados pelo WikiLeaks, datados de 2007, revelaram o embaixador dos EUA no Chile, Craing Kelly, falando sobre um plano para derrubar o governo de Hugo Chávez, que inclusive poderia ser usado para derrubar qualquer governo nacionalista. 

“Conheça o inimigo: Nós temos que entender melhor como Chávez pensa e o que ele pretende fazer: Nós devemos reafirmar a nossa presença na região, e nos engajarmos em geral, especialmente com o “não-elites” [camadas pobres da população que apoiam Chávez]; – Mudança no cenário político: Devemos oferecer uma visão de esperança e guardá-lo com os programas adequadamente financiados; – Melhorar as relações militares: Devemos continuar a reforçar os laços com os líderes militares na região que partilham a nossa preocupação com o Chávez.”

Outros dos documentos revelaram a existência de reuniões entre membros dos governos dos EUA e do Brasil, onde os primeiros propunham que ambos cooperassem por meio dos serviços de inteligência, com informações sobre o presidente da Venezuela Hugo Chávez.

Mas o chavismo, como corrente política, namora com a democracia burguesa, sendo um representante natural do nacionalismo burguês. Suas políticas em geral não ultrapassam os limites do Estado burguês e, por esse motivo, atua para conter as tendências à organização independente das massas trabalhadoras.

Mais recentemente, para conter a direita golpista, Maduro considerou a necessidade do armamento da população e a formação de milícias populares e camponesas, pois a violência da direita golpista não lhe deu alternativas. Mas, os mecanismos de combate à direita desenvolvidos estão atrelados ao próprio aparelho de Estado – o Conselho de Estado é integrado pela alta cúpula chavista; as Milícias Bolivarianas têm 30 mil homens, em crescimento até 100 mil, com unidades de elite, altamente treinadas e ligadas diretamente ao chavismo, que compõem o chamado comando-antigolpe; 11 dos 20 governos estaduais estão nas mãos de militares, quatro dos quais são ex-ministros da Defesa.

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