A geração beatnik na contra-mão do “pesadelo de ar- condicionado”

Os vagabundos de uma sociedade afluente
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Publicado originalmente em Causa Operária nº 456, de 18 a 24 de novembro de 2007

Em meio à prosperidade econômica dos Estados Unidos da década de 50, e na contracorrente do otimismo delirante da classe média frente às novas possibilidades de conforto pessoal, surge essa que é a primeira manifestação consistente da crise moral e, potencialmente, política, que estava latente na América do Norte do pós-guerra. Conhecida posteriormente como Geração Beatnik, sua importância é enorme pelo fato de ser o primeiro movimento de contracultura a surgir nos Estados Unidos, com forte impacto histórico e cultural.

Daí vem a identificação desses jovens com o termo beatnik, cuja origem é confusa. A palavra beat foi utilizada pela primeira vez por Jack Kerouac no livro On The Road, como abreviação de beatitude, ou beatífico, remetendo ao estado de espírito que ele e seus companheiros buscavam. Outros, principalmente críticos literários e estudiosos, atribuíram o termo à influência direta do jazz, responsável por diversos termos e gírias surgidos na contracultura da época, assim, beat remeteria às batidas aceleradas do bebop. Outra possibilidade seria a conotação de “vencido pela vida”, de acordo com gírias como dead-beat (fracassado) ou beat-up (derrotado). Daí, unindo-se o radical beat com o sufixo do satélite russo Sputnik, lançado ao espaço em 1957, com uma conotação de movimento, velocidade, surgiu o termo beatnik, que seria usado para designar todos os seguidores do movimento. Também algumas vezes eram denominados hipsters, termo aplicado às pessoas que viviam à margem da sociedade, em geral delinqüentes juvenis, usuários de drogas e brancos que se relacionavam mais intimamente com a cultura negra. Uma corruptela desta palavra deu origem ao famoso termo hippie, para designar os jovens da contracultura dos anos 60. No entanto, todas essas variações se relacionam diretamente com o conceito geral do que é na essência a geração beat, e que exprime o desalento e o frenesi de uma vida dissoluta, que procurava através das viagens e da boêmia, uma alternativa ao que eles consideravam uma ausência de vida da classe média norte-americana. O termo beat também significaria “perceptivo”, “de olhos abertos”, justamente pela sua busca por uma “nova visão”, que na concepção deles só poderia ser alcançada através de uma vida marginalizada, fora dos esquemas tradicionais.

A fim de exprimir esse “novo olhar”, os beatniks também irão desenvolver uma nova forma de descrever sua maneira de ver o mundo. Essa nova forma teria necessariamente que estar em consonância com o sentido de deslocação e movimento que os animava. Em consequência, irão criar uma escrita fluída, frenética e impaciente, tentando apreender numa mesma passagem os diversos universos que os interessavam. Para isso irão buscar influências nas teorias surrealistas de fluxo espontâneo do pensamento, e inspiração nos enérgicos e intermináveis saltos harmônicos dos improvisos do bebop, a corrente mais progressista do jazz da época, representado pelo virtuosismo de personalidades como Charlie Parker, Max Roach, Bud Powell, Dizzy Gillespie e Thelonious Monk. O ritmo de jazz seria, segundo Kerouac, uma prova de esforço da livre associação das palavras “nadando num mar de inglês sem qualquer outra disciplina à exceção do ritmo ou exaltação retórica e declamação de protesto.”. Daí a designação dos vários estilos literários dos beats, como “prosódia bop”, expressão que foi cunhada por Kerouac, e definida por Gregory Corso como “a utilização de misturas espontâneas, imagens surrealistas, saltos, batidas, compassos, longas e rápidas vogais, versos longo, muito longos, e a alma como principal conteúdo”.

Kerouac e a “prosa bop espontânea”

Essa busca por uma nova forma de dizer as coisas foi incansavelmente perseguida, de maneira metódica e consciente por Jack Kerouac mais do que qualquer outro escritor beat, através de seu experimentalismo literário. Ele rejeitava a literatura mais intelectual vigente, e em busca de uma escrita intensamente emocional, ele vai desenvolver um estilo próprio que desprezava as regras gramaticais tradicionais. Esse estilo se cristalizou de forma mais ou menos acabada em On The Road. Seu método literário é explicitado na própria maneira de conceber suas obras. On The Road foi escrito em um rolo de papel contínuo, durante 20 dias e noites de transe permanente sob o efeito de benzedrina durante o mês de abril de 1951. Outro exemplo interessante se refere à criação de seu livro Os Subterrâneos, escrito em três dias e noites, igualmente sob o efeito de estimulantes. Seu método de criação tinha muito em comum com a maneira de W. B. Yeats escrever sob transe, de Charlie Parker improvisar no seu sax, e de Jackson Pollock executar sua pintura de ação. Esta metodologia coincide com as teorias surrealistas de escrita automática e do inconsciente, uma das principais correntes da cultura do século XX e sempre recorrente.

Ele chegou a teorizar seus métodos de escrita em ensaios como Essentials of Spontaneous Prose, de 1956; e Beliefs & Techniques of Modern Prose, de 1957. Nesses textos, são recorrentes expressões como “prosódia bop”, “prosa espontânea”, e “forma selvagem”. Em um desses textos ele afirma que escreve “no sentido de um saxofonista tomando fôlego e soprando uma frase em seu sax, até ficar sem ar novamente e, quando isso acontece, sua frase, sua declaração foi feita… É assim que separo minhas frases, como separações respirantes da mente.”

Esse estilo pode ser definido como uma tentativa de veicular a riqueza do seu campo de percepção imediata, no momento em que pensamento se desenvolve, sem qualquer espécie de censura ou elaboração intelectual prévia, tentando captar a fluidez do pensamento, da maneira mais fiel possível, sem restrições, com todos os desvios e associações que acontecem durante o processo. Kerouac via nisso, o método mais sincero de captar os sentimentos e as experiências por que ele passava, sem recorrer a subterfúgios formais. Um outro romancista beat, John Clellon Holmes, descreve o estilo de Kerouac como “frases longas e intrincadas, que se desenrolam a direito através de um denso labirinto de nuvens; frases espantosas, que tinham a obsessão de descrever simultaneamente a migalha do prato, o prato na mesa, a mesa na casa, a casa no mundo, mas que, para ele, ficavam sempre emperradas no engarrafamento da sua própria retórica”. 

Acreditava que cada pensamento expressava uma verdade sobre a totalidade se sua personalidade, e ele via como artificial a tentativa de corrigir as frases, ou evitar tocar em qualquer assunto que fosse. Uma amputação de algum dado fundamental sobre a essência da pessoa. Era uma busca pelo que ele achava haver de mais sincero na vida, e uma tentativa de cristalizar um determinado momento com toda a expressividade possível.

Daí também o desprezo dos beats pelo formalismo literário e por obras ficcionais, que consideravam artificiais. Seus romances e poemas eram baseados diretamente em suas experiências pessoais, sem adulterações ou invenções de personagens. Se alguns deles recorriam a imagens surrealistas, seria porque algumas experiências não poderiam de maneira alguma ser apreendidas de forma naturalista. Tudo estaria a serviço da expressividade. É notória a afirmação de Kerouac; “Minha obra constitui um único livro enorme, como a de Proust, só que minhas recordações são escritas na estrada e não depois, num leito de doente.” E acrescenta que todos os seus livros “não passam de capítulos da obra como um todo, que eu denomino A Lenda de Duluoz”. Durante sua carreira, o estilo sempre experimental de Kerouac apresentou modificações e evoluções na maneira de apresentar sua escrita automática, são igualmente importantes obras como Os Subterrâneos (1958), Os Vagabundos Iluminados (1958), Maggie Cassady (1959), Tristessa (1960), Big Sur (1962) e aquele que é considerado por muitos, inclusive pelo próprio Kerouac, como sua obra-prima: Visions of Cody (1972).

Além de Kerouac, participaram dessa geração literária nomes como Allen Ginsberg, William Burroughs ainda Gary Snyder, Gregory Corso, Clellon Holmes, Carl Solomon, Lawrence Ferlinghetti, Barbara Guest, Denise Levertov, Frank O’Hara, John Ashbery, Keneth Patchen, entre outros.

Os interesses dos beatniks, que giravam em torno de idéias como a libertação do corpo e da sexualidade, o antiautoritarismo não só no plano político, mas na vida em todas as suas instâncias, a ampliação da consciência e a busca por novas formas de se viver em sociedade, tudo isso irá encontrar eco já no início dos anos 60, com a explosão do movimento hippie, que irá exaltar a predominância do instinto, das experiências efêmeras, o espontaneísmo, o pacifismo e a iluminação mística como projeto de vida ideal. Foi certamente todo o romantismo intrínseco a essas ideias e o seu caráter destrutivo em diversos aspectos que levou milhões de jovens em toda a América a terem aderido a esse movimento. Esta reação cultural que revela aversão pela mediocridade vigente nos países imperialistas denotava o estado de esgotamento em que vivia a ideologia burguesa dominante, pela oposição direta que as mobilizações dos anos 60 e 70 representavam, tanto do ponto de vista da organização social, quanto do conjunto de valores alimentados pelo regime capitalista. As idéias beat não abriam, é fácil assinalar hoje, um caminho alternativo, eram mais uma expressão geral de um beco sem saída, mas ficam inscritas na cultura do maior país capitalista do mundo como uma impugnação total, uma denúncia e até mesmo o lado avesso das suas pretensões civilizatórias, econômicas e culturais.

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