Revista Klaxon: órgão oficial do modernismo paulista

Um modernismo klaxista

A criação da revista Klaxon em 1922 refletia a maturidade do grupo modernista após a realização da Semana, representou, desse modo, uma etapa de consolidação e acumulação de forças para os voos seguintes do modernismo
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Parte 2 de 3 

O modernismo da fase imediatamente posterior à Semana, é um modernismo que manifesta tendências plurais, mas ainda não se definiria por nenhum caminho em particular. Por esse motivo, também, apesar de alguns membros mais ativos se destacarem, não há realmente uma figura central, todos os modernistas se diluíam na coletividade do movimento, e a revista ressaltava essa ideologia. O grupo permaneceu unido e coeso ao longo de todo o ano de 1922.

As colaborações que passaram a ser publicadas a cada número de Klaxon eram diversificadas. Havia desde poesias modernas, passagens de livros inéditos, artigos teóricos sobre arte, pequenas análises sobre artistas ou movimentos de arte significativos, polêmicas com os “passadistas”, comentários sobre exposições, resenhas de livros, de filmes, de músicas, divulgação de novos livros, e mesmo colunas sociais, comentando os acontecimentos mais relevantes da vida social e intelectual envolvendo problemas artísticos. 

Nos oito meses em que a revista circulou, Klaxon tornou-se um efetivo organizador das atividades do modernismo paulista. O ponto de encontro e quartel-general dos modernistas nesse período tornou-se justamente a redação do mensário, montada provisoriamente no escritório de Tácito de Almeida e Couto de Barros. Comentando a publicação, Guilherme de Almeida revelaria que “formou-se instintivamente um verdadeiro grupo de Klaxon”. O manifesto editorial de Mário de Andrade tinha razão, os modernistas tornaram-se klaxistas

Rubens Borba de Moraes, se referindo ao impacto que a experiência que Klaxon teve na vida dos colaboradores, comentava: “Não há nada essencial na obra de Mário, de Oswald, de Guilherme de Almeida, de Sérgio Milliet, para falar somente dos autores que continuaram a escrever, que não fizesse parte da estética da ideologia do grupo que se formou em 1921. Quanto aos que abandonaram a literatura militante, nada fizeram na vida que não estivesse ligado à ideologia de Klaxon de renovar tudo no Brasil e não somente a pintura e a literatura”. Ou seja, se o primeiro núcleo modernista formara-se em 1921, os novos adeptos do movimento na etapa seguinte – incluindo aí Tarsila do Amaral, recém chegada de Paris – foram marcados pelas atividades em torno de Klaxon.  

Muitas das ideias fundamentais do modernismo paulista, já expressas na Semana, se desenvolveriam nas páginas do mensário. 

Uma tendência, por exemplo, era a inclinação acentuadamente materialista e racionalista de parte do grupo, produto da radicalização dos autores que evoluíam em crescente antagonismo com as filosofias espiritualistas, ligadas à ideologia oficial da oligarquia. A luta por elaborar um claro programa artístico era o estímulo necessário à adoção de ideias materialistas pelos artistas.

Racionalismo e primitivismo 

Tais tendências científicas se traduziam na tentativa dos escritores transportarem para a esfera da arte, determinados procedimentos e fórmulas matemáticas, a fim de apreender de forma objetiva a natureza das manifestações estéticas. Oswald de Andrade, por exemplo, em determinado artigo, monta a equação: “Metafísica + Realidade = Luz”. Em outro texto, Couto de Barros se expressava em termos similares: “Representando por X uma emoção estética, estabeleceria a seguinte equação: X = p + q + r + s. É evidente que o valor de X se modificaria na proporção que variassem os valores de p, q, r ou s”. 

Em outros artigos, se percebe também a busca por uma compreensão da realidade social e seus fenômenos a partir de outras premissas. Algumas ideias de Rubens Borba de Moraes manifesta já uma tendência ao primitivismo, tendência ainda não desenvolvida do modernismo que se manifestará nos anos seguintes. O autor criticava as ideias e conceitos estabelecidos pela educação formal. Em um artigo, publicado em Klaxon nº 3, ele argumentava ser esquemática e artificial a ideia de que todos os séculos contivessem cem anos, destacando que, pela lógica dos fatos, o século XVIII, por exemplo, na opinião dele, começava com a morte de Luís XIV em 1715 e terminava com a Revolução Francesa, em 1789. O ano revolucionário francês marcava para ele, também, o início do século XIX, que só estaria terminado com a deflagração da Primeira Guerra, em 1914. Tais ideias, deixando de lado suas fragilidades, refletiam uma aversão do artista ao ensino burocrático e medíocre praticado nas escolas. 

Ele, a seguir, passava a analisar as conquistas literárias do século XIX, tentando identificar os revolucionários e subversivos que faziam progredir a arte e a sensibilidade: “são os românticos os maiores revolucionários da literatura, que, fartos da monotonia dos versos alexandrinos, quebraram-nos em três partes distintas”. Mais adiante, o autor afirma: “foram os simbolistas que compreenderam que a humanidade também progride, que as ideias também se movem; foram eles que sentiram a necessidade de criar um instrumento novo para exprimir as novas ideias. É aos simbolistas, a  Rimbaud, que devemos todas as conquistas da literatura contemporânea”. E ele completa: “A arte deve abandonar a ideia das coisas forjadas pela inteligência, existentes unicamente no nosso cérebro para confundir-se com a essência das coisas pela intuição, penetrar no princípio da vida e confundir-se com ele”. 

O autor revolta-se contra a incompreensão geral da arte moderna. Ele afirma: “Gosta-se de empadinhas, de camarões, de bombons, de mulheres gordas, mas não se gosta de arte moderna: compreende-se. Quem não compreende deve ficar quieto para evitar asneiras”. E Rubens Borba revela grande consciência do momento em que estava o movimento modernista: “O grande erro da crítica contemporânea é considerar as obras modernas como definitivas. Nós não vivemos uma época de realização. Os dadaístas, cubistas, futuristas, unanimistas, bolchevistas, espíritas são apenas precursores de uma nova arte, de uma nova ciência, talvez de uma nova religião”. E poderia ser dito, de uma nova sociedade.

Ele encerra de forma significativa a análise: “Nós, como caboclo, ‘tacamos fogo na mataria’ porque não se planta sem derrubar. As chamas sobem altíssimas, fogem assoviando serpentes fascinadoras. Só ficam os jequitibás, jacarandás, guajussaras, cabrúvas, timburis. E à sombra das árvores enormes, a plantação cresce. Felizes os que vierem depois de nós para colher o que plantamos”. 

Uma exigência: ser moderno 

Outro artigo teórico de Borba de Moraes também merece destaque. No texto Aos homens de experiência, o poeta buscava uma compreensão mais profunda da natureza da atividade da nova geração, se expressando em termos similares aos que Mário de Andrade utilizara na série Mestres do Passado. “Em arte não há progresso”, afirmava Borba de Moraes, “o progresso só existe para as coisas materiais e na bandeira brasileira. Nós não escrevemos melhor que Machado de Assis, nossos poemas não são mais belos que a Eneida de saudosa memória. Igualar Camões ou Racine não tem a mínima importância. O que nos importa é traduzir a nossa época e a nossa realidade”. 

“Se somos modernos, isto não quer absolutamente dizer que condenamos os clássicos, românticos, parnasianos e todos os ‘passadistas’. Bilac, Castro Alves, Gonçalves Dias foram grandes poetas. Escreveram obras românticas e parnasianas na época do romantismo e do parnasianismo. Foram modernos! Bravo!”. 

“Ridículo é um poeta acreditar em soneto e em alexandrino neste glorioso ano do Centenário da Independência.” 

Mário de Andrade era um dos colaboradores mais regulares da revista. Em seus muitos artigos, ele discutia problemas artísticos, analisava questões contemporâneas, resenhava livros dos colegas. Em um desses escritos, ele analisava a situação da música em São Paulo: 

“É costume dizer-se que São Paulo está musicalmente mais adiantado do que o Rio. E logo a prova: ‘Tivemos Carlos Gomes. Temos Guiomar Novaes’”. 

“Não há dúvida. O Brasil ainda não produziu músico mais inspirado nem mais importante que o campineiro. Mas a época de Carlos Gomes passou. Hoje sua música pouco interessa e não corresponde às exigências musicais do dia nem à sensibilidade moderna. Representá-lo ainda seria proclamar o bocejo uma sensação estética. Carlos Gomes é inegavelmente o mais inspirado de todos os nossos músicos. Seu valor histórico, para o Brasil, é e será sempre imenso. Mas ninguém negará que Rameau é uma das mais geniais personalidades da música universal…” 

“Sua obra-prima, porém, representada há pouco em Paris, só trouxe desapontamento. Caiu. É que o francês, embora chauvina, ainda não proclamou o bocejo uma sensação estética”. 

Respondendo à direita 

Na coluna social Luzes e Refrações, alguém dava um interessante testemunho de uma reunião em um dos quartéis generais da intelectualidade ligada à oligarquia: “Na Academia Brasileira de Letras, a respeito do monumento a Machado de Assis, o sr. Ribeiro Couto lembrou ‘os dois maiores escultores brasileiros: Bernardelli e Correia Lima’… Nosso querido Graça Aranha aparteou: ‘E porque não 

Brechetet?”. O sr. Ribeiro Couto: ‘Quem é Brecheret?’. Respondemos: Victor Brecheret é um escultor paulista atualmente em Paris. Seus trabalhos também são aceitos no Salão de Outono. Várias revistas do Rio já reproduziram obras suas. A Eva descansa nos jardins do Anhangabaú. Brecheret é tão forte artista que, em vez de copiar a natureza, cria tirando apenas da natureza a causa primeira da inspiração. Mas é preferível que o sr. Ribeiro Couto continue a ignorar Brecheret. Este naturalmente não faria do gênio de Braz Cubas um retratinho que se enumerassem todas as suas rugas e cabelos – único processo estético capaz de comover a lânguida saudade endinheirada dos srs. acadêmicos”.

Na mesma seção da revista, em outro número, 

Mário de Andrade debatia as ideias de Henri Mugnier e ressaltava o clima intelectualmente opressivo que a direita oligárquica criara no País: 

“(…) Ao doloroso ceticismo, com que o sr. 

Mugnier termina seu belo artigo, respondamos: A arte para o artista legítimo é como o ar e o pão: elemento de vida. Querem os passadistas tirar-nos o direito de praticar a arte. Nós lutamos pois pela nossa, como quem luta pela vida. A desesperança é uma conclusão negativa. Não pode haver conclusões negativas em uma época de construção”.

“(…) Pelo Emporium de fevereiro o passadista Piccoli ataca a arte austríaca moderna. E, mais uma vez, se revolta contra as associações de elogio mútuo… Por quanto tempo ainda se repetirão tolices tais? (…)”. O comentário do autor destaca também um dos interesses mais presentes em todas as edições de Klaxon: o internacionalismo dos modernistas, profundamente interessados pelas manifestações contemporâneas nos mais variados países. 

O internacionalismo de Klaxon 

A revista recebia colaborações regulares de intelectuais estrangeiros, o que era sempre um fator de evolução do movimento literário nacional. Nas edições de Klaxon foram publicados poemas como a Egloga sentimentale, do italiano Gaetano Cristaldi; ou o Poema ultraísta, do espanhol Guilhermo de Torre. 

Na edição nº 2 de Klaxon, o poeta japonês Nico 

Horigoutchi, com o artigo A poesia japonesa contemporânea, deixava um interessante, precioso e inusitado relato: “Admiram-nos frequentemente os progressos rápidos e prodigiosos da civilização japonesa nos últimos cinquenta anos. Entretanto, se tentássemos estudar cuidadosamente a poesia japonesa, maravilhar-nos-iam as transformações profundas num tempo muito mais curto, pois que a evolução só começou há uns vinte e cinco anos mais ou menos”; e o autor prossegue analisando e citando as características do movimento modernizador do Japão.

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