“O desenvolvimento político, jurídico, filosófico, religioso, literário, artístico, etc, repousa sobre o [desenvolvimento] econômico”

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Carta a W. Borgius (em Breslau)

Friedrich Engels

25 de Janeiro de 1894

Mui caro senhor,

Aqui [vai] a resposta às suas perguntas!

1. Por relações econômicas — que encaramos como base determinante da história da sociedade — entendemos a maneira como os homens de uma determinada sociedade produzem o seu sustento na vida e trocam entre si os produtos (na medida em que existe divisão do trabalho). Portanto, a técnica toda da produção e do transporte está aí compreendida. Esta técnica determina também, segundo a nossa concepção, a maneira da troca e, além disso, a da repartição dos produtos e, assim, depois da dissolução da sociedade gentílica, [determina] também a distribuição das classes e, com isso, as relações de dominação e de servidão, com isso [igualmente] o Estado, a política, o direito, etc. Além disso, estão compreendidas nas relações econômicas a base geográfica em que elas se desenrolam e os restos efetivamente transmitidos de anteriores estádios económicos de desenvolvimento, que continuaram a manter-se, frequentemente apenas pela tradição ou pela vis inertiae [em latim no original: força da inércia], [e] naturalmente também o meio que rodeia exteriormente esta forma de sociedade.

Se a técnica, como V. diz, está, por certo, em grande parte dependente do estado da ciência, esta de longe o está ainda mais do estado e das necessidades da técnica. Se a sociedade tiver uma necessidade técnica, isso ajudará mais a ciência do que dez universidades. A hidrostática toda (Torricelli, etc.) foi suscitada pela necessidade de regulação das torrentes de montanha, na Itália, nos séculos XVI e XVII. Só soubemos algo de racional acerca da eletricidade desde que se descobriu a sua aplicabilidade técnica. Na Alemanha, porém, as pessoas habituaram-se infelizmente a escrever a história das ciências como se elas tivessem caído do céu.

2. Nós encaramos as condições econômicas como o em última instância condicionante do desenvolvimento histórico. Mas a raça é ela própria um fator económico. Ora há aqui, porém, dois pontos a não deixar de ver:

a) O desenvolvimento político, jurídico, filosófico, religioso, literário, artístico, etc, repousa sobre o [desenvolvimento] econômico. Mas, todos eles reagem também uns sobre os outros e sobre a base econômica. Não é que a situação econômica seja causa, unicamente ativa, e tudo o mais apenas efeito passivo. Mas há ação recíproca na base da necessidade econômica que em última instância sempre vem ao de cima. O Estado, por exemplo, atua através de direitos protecionistas, livre-câmbio, boa ou má fiscalidade; e mesmo o esgotamento e impotência mortais do pequeno burguês alemão, que resultam da situação econômica de miséria da Alemanha de 1648 até 1830, que se exteriorizam, primeiro, no pietismo, depois, no sentimentalismo e na servidão rastejante ante príncipes e nobreza, não deixaram de ter um efeito económico. Foram um dos maiores obstáculos à recuperação e só foram abalados pelo fato de as guerras da Revolução e napoleónicas terem tornado aguda a miséria crónica. Não há, portanto, como aqui e além por comodidade se quer imaginar, um efeito automático da situação econômica, mas os homens fazem eles próprios a sua história, mas num meio dado que a condiciona, sobre a base de condições efetivas que encontram [já], entre as quais, as econômicas — por mais influenciadas que possam ser pelas [condições] políticas e ideológicas — são, contudo, em última instância, as decisivas e constituem o fio condutor que as percorre e que, só ele, leva ao entendimento.

b) Os homens fazem a sua própria história, mas, até agora, não com uma vontade conjunta segundo um plano conjunto, nem mesmo numa sociedade dada, determinada, delimitada. Os seus esforços entrecruzam-se e, precisamente por isso, em todas essas sociedades, domina a necessidade, cujo complemento e forma de manifestação é a casualidade. A necessidade, que aqui vem ao de cima através de toda a casualidade, é de novo finalmente a econômica. Vêm então aqui à colação os chamados grandes homens. Que um desses e precisamente esse se erga neste tempo determinado, neste dado país — é naturalmente puro acaso. Mas, se o riscarmos, haverá procura de substituto, e esse substituto encontrar-se-á, tant bien que mal [em francês no originial: mal ou bem], mas com o tempo encontrar-se-á. Que Napoleão, precisamente esse corso, fosse o ditador militar de que a república francesa, esgotada pela sua própria guerra, precisava — isso foi acaso; que, porém, na falta de um Napoleão, um outro teria preenchido o lugar, isso é demonstrado pelo fato de que de cada vez sempre se encontrou o homem logo que ele foi preciso: César, Augusto, Cromwell, etc. Se Marx descobriu a concepção materialista da história, Thierry, Mignet, Guizot, os historiadores ingleses todos até 1850, demonstram que havia um esforço nesse sentido, e a descoberta da mesma concepção por Morgan demonstra que o tempo estava maduro para ela e que ela tinha precisamente que ser descoberta.

[Acontece] assim com todas as outras casualidades e aparentes casualidades na história. Quanto mais o domínio que nós, precisamente, investigamos se afasta do económico e se aproxima do ideológico puramente abstrato tanto mais encontraremos que ele exibe casualidades no seu desenvolvimento, tanto mais a sua curva decorre em ziguezague. Mas, se V. desenhar o eixo médio da curva, verificará que, quanto mais longo for o período considerado e maior for o domínio assim tratado, esse eixo corre tanto mais aproximadamente de modo paralelo ao eixo do desenvolvimento econômico.

O maior obstáculo a um correto entendimento é, na Alemanha, a irresponsável negligência, na literatura, da história econômica. É tão difícil, não só de se desabituar das representações da história inculcadas na escola, como ainda mais de reunir o material que é preciso para tal. Por exemplo, apenas: quem é que leu o velho G. v. Gülich que, no entanto, na sua seca reunião de materiais contém tanta matéria para o esclarecimento de inúmeros fatos políticos? [trata-se da obra Descrição Histórica do Comércio, da Indústria e da Agricultura dos mais Importantes Estados Comerciais da Nossa Época, de G. von Gülich, publicada entre 1830 e 1845]

De resto, o belo exemplo que Marx deu no 18. Brumaire deveria, creio eu, dar-lhe já suficiente informação sobre as suas perguntas, precisamente porque é um exemplo prático. Eu creio ter também tocado já na maioria dos pontos no Anti-Dühring, I, capítulos 9-11 e II, 2-4, assim como III, 1, ou na introdução e, depois, na última seção do Feuerbach.

Peço-lhe que, no acima dito, não pese as palavras demasiado meticulosamente, mas que tenha em vista a conexão; lamento não ter tempo para lhe escrever de um modo tão exatamente elaborado como teria de o fazer para publicação…

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