Modernismo e Dadaísmo

Publicamos aqui a terceira e última parte do artigo dedicado à história da revista Klaxon, órgão da ala revolucionária do modernismo, publicada logo após a Semana de Arte Moderna, durante o ano de 1922. A análise do conteúdo da revista e de sua importância para a elaboração das bases teóricas e estéticas do movimento modernista que apresentamos aqui foi iniciada no nº 1.203 de Causa Operária e está disponível na íntegra para os assinantes do jornal no portal jornal.causaoperaria.org.br
Share on facebook
Share on twitter
Share on whatsapp
Share on telegram
Share on email

Parte 3 de 3

A revista Klaxon tornara-se, é fácil de ver, um verdadeiro centro de discussão, desenvolvimento e aprofundamento do modernismo paulista. Movidos pelo entusiasmo, os klaxistas publicavam todo tipo de material nas páginas da revista. Há, por exemplo, o interessante poema de Luís Aranha, que expressava o entusiasmo do poeta após ler Paulicéia Desvairada, recém publicada por Mário de Andrade (veja no quadro nesta página).

Uma influência dadá 

Seguindo a melhor tradição do movimento dadaísta, com seu humor provocador, Klaxon ostentava também notas insólitas como que reproduzimos a seguir, publicada na edição nº 3, respondendo aos anunciantes que retiraram o patrocínio da revista: 

“Os nossos leitores devem lembrar-se que lhes recomendamos como produtos magníficos da nossa indústria: o chocolate Lacta e a bebida Guaraná. Efetivamente tanto um como outra eram magníficos. Acontece porém que se tornaram detestáveis. Aconselhamos, pois, aos nossos pacíficos leitores o uso de outros produtos magníficos da indústria nacional. É possível, porém, que o chocolate Lacta e a bebida Guaraná voltem outra vez à antiga excelência que perderam. Nós, como únicos representantes do mais alto gosto paulista, publicaremos então gostosamente anúncios (ela que desperdiça gordos lucros em gritar sua fábrica pelas folhas diárias de muito menor circulação que nossa revista, como O Estado de S. Paulo e o Jornal do Comércio) é certo que Lacta como Guaraná são de péssimo sabor e fazem mal à saúde. Klaxon que, em sua já longa e benéfica existência, sempre corroborou para a melhoria da saúde pública avisa pois aos seus leitores: NÃO COMAM LACTA NEM BEBAM GUARANÁ, enquanto essas marcas não nos derem anúncios. E publicaremos mesmo, prazerosamente, qualquer comunicação de enfermidade de qualquer natureza, provocada por esses ingratos ingredientes”. 

Klaxon não era somente um local para se festejar o modernismo, mas também um espaço de crítica a tudo o que pudesse ser considerado incompatível com os objetivos do movimento. No texto O Corvo, publicado em Klaxon nº 5, Couto de Barros deixava uma advertência registrada: 

“Certos teoristas do modernismo, depois de enxotarem, dos domínios artísticos, o dogmatismo, – esse corvo ‘perched upon the bust of Pallas’, tornaram-se de tal temor que ele voltasse, que colocaram em frente da Arte um espantalho. Mas eis, que de novo, manchando o corpo branco de Pallas, uma sombra ridícula se estende: a sombra do espantalho…” 

O fim de Klaxon 

Todos os patrocínios foram retirados da revista ainda no terceiro número. Obviamente, a debandada se devia ao radicalismo da publicação, que logo espantou os empresários. A partir daí, portanto, foi se tornando cada vez mais difícil sustentar o mensário. Esse foi o principal problema em torno da suspensão da atividade de Klaxon. Mário de Andrade, já nos últimos meses de 1922, declarava suas dúvidas quanto ao futuro da revista. Ele mesmo investiu tudo o que pôde em Klaxon, mas cada novo número da publicação era impresso com grandes sacrifícios. Foi por esse motivo que optou-se imprimir juntos os dois últimos números da revista, formando uma única edição dupla com o nº 8 e 9, contendo um especial de encerramento das atividades de Klaxon

A edição homenageava Graça Aranha e vinha com alguns artigos analisando a literatura e a biografia do autor de Canaã, poemas dedicados a ele, um retrato que Tarsila do Amaral preparou especialmente para a edição e uma pequena composição, de Villa-Lobos, dedicada a Graça Aranha, chamada Sexteto místico, e cuja partitura foi impressa em uma das páginas da revista.  

Ao publicar esse especial, Klaxon revelava uma das tendências que o modernismo manifestaria mais claramente nos anos seguintes, ligada à busca por uma arte capaz de expressar o melhor possível a realidade brasileira. Isso porque, homenageando Graça Aranha, os modernos prestavam um tributo às ideias do escritor, que sempre buscou uma compreensão da cultura e da nacionalidade, e foi o criador de um dos primeiros tipos nacionais da literatura moderna brasileira, o malandro Pedro Malazarte, precursor de Macunaíma.

O primeiro artigo  do especial, Graça Aranha criador de entusiasmo, escrito por Ronald de Carvalho, era uma saudação ao acadêmico. Ronald destaca a relação que os escritos de Graça Aranha mantinha com a nacionalidade brasileira. Ele escrevia:

“A obra de  Graça Aranha é feita à imagem e semelhança do Brasil. Palpitam nela, desde aquele primeiro grito de êxtase ante a formosura do ambiente natal que foi Canaã, a exuberância, a majestade, a energia da Terra.” 

“Anima-a o sopro soberano da Natureza, de que ela reproduz, ao mesmo tempo, os ímpetos e as doçuras, as suas variedades e as magnificências. Mergulham as suas raízes no próprio solo que os nossos maiores regaram com o suor das mãos e o sangue das veias.” 

Outro artigo, de Renato Almeida, analisava o significado de Malazarte: “Graça Aranha arrancou do fundo da nossa alma popular a figura de Malazarte – esse demônio sutil como 

Mefistófeles, menos universitário e mais desabusado – e criou o símbolo da imaginação, em que justifica a unidade panteística do Universo, no esboço da filosofia de A estética da vida”. Havia ainda um terceiro texto de análise bastante expressivo, escrito por Motta Filho. Nele, o autor analisa a tendência que vinha já desde o romantismo, em descobrir o caráter da psicologia nacional. Esse trabalho foi desenvolvido mais tarde pelo realismo, e Graça Aranha representava o capítulo mais recente dessa tendência, sucessor de Machado de Assis e Euclides de Cunha. Motta Filho encerrava assim o artigo: “Graça Aranha conhece, desse modo, todos os nossos segredos, todas as nossas aflições, todas as nossas torturas e a porção de idealismo que nos guia”. 

(…) 

“Como explicar Graça Aranha, saído do Maranhão, vivendo depois na diplomacia, longe da terra?” 

“Isso não importa para mim. Importa-me a realidade e constato; importa-me verificar que há, de fato, para a glória nossa: – o grande psicólogo da raça!” 

O último grande evento de 1922 

A decisão em publicar o especial, porém, causou certa crise no interior do grupo, já que o velho intelectual, além de não ser propriamente modernista, era ainda membro da ultraconservadora Academia Brasileira de Letras. Apesar disso, pela modernidade das ideias do autor, pelo entusiasmo de Graça Aranha em defender os novos e pela enorme contribuição dada aos jovens no evento do Municipal, apadrinhado pelo acadêmico, a homenagem acabou sendo levada a cabo, defendida principalmente por Mário de Andrade. 

Em janeiro de 1923, portanto, estaria encerrada a primeira publicação regular do movimento modernista brasileiro. Ela havia, apesar disso, cumprido seu papel, aprofundando as relações e mantendo unidos e ativos os membros do grupo ao longo daquele conturbado ano de 1922. 

Segundo depoimentos de Mário de Andrade, a expectativa dos modernos era que essa revista fosse substituída por uma nova, que Paulo Prado e Tarsila do Amaral planejavam organizar e financiar. Ela se chamaria Knockout, refletindo ainda o espírito combativo do grupo, mas o projeto acabou nunca sendo realizado. 

Antes, porém, do encerramento de Klaxon, um último evento marcou o final das atividades modernistas em 1922. No final do ano, a Sociedade de Belas Artes organizou em São Paulo um grande salão expositivo ao modelo dos salões franceses. Formada majoritariamente por obras acadêmicas a mostra abrigou um total de 279 trabalhos, entre 270 pinturas e nove esculturas de mais de cinquenta pintores e escultores. Representados na mostra, havia artistas franceses, italianos, suíços, gregos, japoneses e argentinos. Entre os brasileiros estavam presentes Anita Malfatti, Pedro Alexandrino e Tarsila do Amaral, recém-chegada de Paris. O que chamava a atenção não era o evento em si, mas a presença de duas obras modernistas, de Tarsila e Anita, que parecia uma vitória do modernismo a partir de uma concessão dos acadêmicos em manter de fora as duas artistas. 

Naqueles meses, o grupo estava cheio de ideias e projetos. É planejada, para o ano seguinte, uma grande viagem pelo Norte, organizando exposições e promovendo palestras cujo objetivo era divulgar a nova arte e impulsionar tendências modernas em outras regiões do país. Chegou o momento de o modernismo estender os tentáculos para o restante do Brasil.

A partida, também, de grande parte do grupo modernista para Paris, entre o final de 1922 e o início de 1923, indicava também o encerramento de uma etapa das atividades modernistas. Tarsila do Amaral, Oswald de Andrade, Sérgio Miliet, Ronald de Carvalho, Di Cavalcanti, Villa-Lobos e mais tarde, Anita Malfatti, se encontrariam todos em Paris no ano seguinte.

Central de Vendas

Entre em contato pelo WhatsApp  11 99867-9315 ou pelo E-mail jcoadm29@gmail.com

Precisa de ajuda?

Em caso de dúvidas, ou se quiser recuperar seu “Usuário”, envie mensagem para 11 99867-9315 ou pelo E-mail jcoadm29@gmail.com

Faça já sua assinatura digital de Causa Operária:
  • Assinatura Mensal Digital Completa (por quatro semanas) por R$ 11,99 um único mês, você pode optar pela renovação automática, descontando R$ 11,99 todo mês da sua conta.
  • Assinatura Semestral Digital Completa (por vinte e quatro semanas) por R$ 64,99 pagamento único.
  • Assinatura Anual Digital Completa (por quarenta e oito semanas) por R$ 99,99 pagamento único.

Menu Principal

Ajuda, Dúvidas e Televendas