O verdadeiro fascismo

Um ano após a invasão do Capitólio: foi golpe?

Setores da esquerda norte-americana se juntam à direita para taxar mobilização como golpe fascista
Share on facebook
Share on twitter
Share on whatsapp
Share on telegram
Share on email

No dia 6 de janeiro de 2021, milhares de apoiadores de Donald Trump se aglomeraram ao redor do Congresso norte-americano para pressionar os parlamentares a não reconhecerem o resultado das eleições disputadas Estado a Estado contra o democrata Joe Biden. 

A mobilização culminou numa tentativa de invasão do Capitólio que resultou na morte de cinco manifestantes, centenas de feridos e fotos grotescas de figuras caricatas dentro da sala onde se reúnem os parlamentares norte-americanos. O evento foi um episódio vergonhoso para os EUA que se colocam como o bastião da democracia no mundo. Nesse sentido, para os adoradores da “democracia” norte-americana, a violação do Capitólio seria equivalente à invasão da Capela Sistina para os católicos.

Ao longo de 2021, a mobilização trumpista cumpriu dois papéis. De um lado, de forma mais silenciosa, serviu a países opositores do imperialismo como argumento para apontar a incoerência da democracia no país imperialista. Oficiais russos e chineses, em mais de uma oportunidade, denunciaram que não há espaço para dissenso nos EUA dada a repressão da mobilização organizada pela extrema direita.

Por outro lado, o evento serviu à imprensa imperialista para santificar a figura do direitista eleito presidente, Joe Biden. De acordo com seus articulistas, Biden teria o papel de restaurar a democracia no país e de reunificar a população dos EUA.

Criticar Biden é golpismo?

Essa ideia, porém, não passa de um mito. Biden sequer conseguiu unificar seu partido para aprovar sua promessa demagógica de campanha: o projeto trilionário para ampliar a melhorar a infraestrutura dos EUA. O senador democrata Joe Manchin, no último dia 20, bloqueou o projeto de lei Build Back Better (“reconstruir melhor”, em tradução livre).

Há muito o que criticar sobre a atual administração norte-americana. Para citar os episódios mais escandalosos houve, por exemplo, a brutal repressão dos imigrantes haitianos na fronteira dos EUA com o México, algo talvez ainda pior do que era feito na administração anterior. Houve a péssima administração da pandemia, com uso de medidas repressivas contra a população, sem redução significativa no número de mortos em relação a 2020. No final de 2021, continuavam morrendo quase 2 mil pessoas por dia nos EUA, o que era apresentado como um verdadeiro escândalo no governo Trump.

Críticas como essas, porém, estão quase banidas dos noticiários norte-americanos. Algumas publicações mais descaradas se lançaram a publicar artigos de pura bajulação. Em coluna para o The Washington Post, Fareed Zakaria – que também é âncora na CNN -, deixou sua singela homenagem ao presidente.

Intitulada “O quebra-cabeça da impopularidade de Joe Biden”, a coluna logo em seu início resolve, sem que Zakaria perceba, o mistério. “Biden é uma pessoa cordial e agradável. Suas políticas têm sido populares, algumas até com apoio republicano. O país está razoavelmente bem economicamente, como evidenciado pela queda no desemprego, pelo mercado de ações e pela taxa de juros”, diz o colunista em seu primeiro parágrafo.

Se deixarmos de lado ilusões sobre a situação da economia dos EUA, Biden é impopular justamente porque trabalha com os Republicanos para atender os interesses do mercado financeiro e dos “senhores da guerra”. Como candidato, foi apoiado por George W. Bush e pela quase totalidade de Wall Street.

Zakaria está longe de ser o único bajulador. Dana Milbank, do Post, publicou um artigo intitulado “A imprensa trata Biden tão mal – ou pior – que Trump. Aqui está a prova”. No artigo, Milbank separou uma coleção de manchetes para reforçar seu ponto de vista. Esses são apenas dois exemplos que se juntam a muitos outros artigos do The New York Times, The Atlantic, e tantos outros que ora cortejam Biden, ora trazem à tona o terror de um governo autoritário do líder dos golpistas invasores do Capitólio.

O apoio da esquerda

Esse comportamento, porém, era esperado da imprensa imperialista independentemente dos acontecimentos de um ano atrás. A invasão do Capitólio, porém, serviu “como uma luva” para forçar o apoio da ala esquerda do Partido Democrata que, apesar de moderada, começava a mostrar certa independência em relação à agenda política do imperialismo.

É o caso de Bernie Sanders e seus apoiadores. Sanders foi alvo de um golpe durante as prévias dentro do próprio partido, e acabou por apoiar a candidatura reacionária de Biden à presidência. Ainda assim, boa parte de sua base não se deslocou automaticamente para Biden. Foi necessário muito trabalho de propaganda para deslocar aqueles que se manifestavam pelas ruas dos EUA em repúdio ao assassinato de George Floyd nessa direção.

Os eventos de 6 de janeiro serviram então para aliviar o gosto amargo do voto em Biden, apresentado como um “mal menor”. Uma das parlamentares da ala esquerda do Partido Democrata, Alexandria Ocasio-Cortez, relatou como foi traumática sua experiência dentro do Congresso durante a invasão da massa de manifestantes. Três meses depois, em abril, Ocasio-Cortez declarou: “a administração Biden e o presidente Biden excederam as expectativas dos progressistas.”

Desde então, a parlamentar “atacou” Biden dizendo que seus projetos de lei eram “o mínimo necessário” ou indicando que a sua paciência e a de seus aliados na Câmara “estaria se esgotando”. Ao mesmo tempo, no final de setembro, se absteve de votar contra o projeto que autorizava o envio de mais dinheiro a Israel com propósitos militares. Isso abriu uma crise entre seus apoiadores, mas mostrou que a esquerda democrata está mais disposta a negociatas parlamentares que a direita, que agora bloqueia o projeto de lei com algumas medidas de cunho social.

Até mesmo o World Socialist Web Site, portal do Partido da Igualdade Socialista – que se declara uma organização trotskista -, embarcou na onda da insurreição fascista. Numa clássica crítica centrista, o sítio adere à tese imperialista de golpe, mas aponta que os Democratas não representam uma oposição real ao perigo do fascismo republicano.

Quem deu o golpe?

Enquanto os democratas buscam incriminar Trump com alegações de que o ex-presidente teria incitado o “ataque” ao Congresso, ocultam a possível participação do próprio FBI nos acontecimentos. O apoio de Trump pode ter realmente ido além do que aquilo foi dito publicamente. Por outro lado, por que o FBI, que tinha informantes dentro de grupos de extrema direita como os III%, não teria informações sobre os planos desses mesmos grupos para o dia 6 de janeiro?

O jornalista norte-americano radicado no Brasil, Glenn Greenwald, publicou uma série de artigos investigando esse possível envolvimento e foi taxado como conspiracionista pela esquerda dos EUA. Críticas tanto a Biden quanto ao aparato repressivo que agora ele comanda, estão terminantemente proibidas.

A tese do FBI, ainda que não seja confirmada, possui um certo fundamento. A burocracia estatal norte-americana, assim como a ala mais poderosa da burguesia, haviam deixado claro seu repúdio a Trump. Para a crise atual do capitalismo, as forças dominantes nos EUA precisavam de um homem de sua confiança: Joe Biden. O problema é que Biden, envolvido na política há 40 anos, era extremamente impopular.

A invasão do Capitólio, porém, completou o fetiche eleitoral e tirou as dúvidas de muitos que olhavam o candidato democrata com hesitação. A “ameaça à democracia”, “tentativa de golpe fascista” ou qualquer termo que o valha foram efetivamente um golpe. Em favor de Biden. 

Só assim um presidente com menos de 44% de aprovação no final de seu primeiro ano de governo conseguiria se manter no poder quase isento de críticas.

Central de Vendas

Entre em contato pelo WhatsApp  11 99867-9315 ou pelo E-mail jcoadm29@gmail.com

Precisa de ajuda?

Em caso de dúvidas, ou se quiser recuperar seu “Usuário”, envie mensagem para 11 99867-9315 ou pelo E-mail jcoadm29@gmail.com

Faça já sua assinatura digital de Causa Operária:
  • Assinatura Mensal Digital Completa (por quatro semanas) por R$ 11,99 um único mês, você pode optar pela renovação automática, descontando R$ 11,99 todo mês da sua conta.
  • Assinatura Semestral Digital Completa (por vinte e quatro semanas) por R$ 64,99 pagamento único.
  • Assinatura Anual Digital Completa (por quarenta e oito semanas) por R$ 99,99 pagamento único.

Menu Principal

Ajuda, Dúvidas e Televendas