Pacifismo

Desmond Tutu, a cara da conciliação de classes sul-africana

Na prática, tanto por sua ação ou omissão, o religioso Desmond Tutu colaborou para que a África do Sul mantenha, até os dias atuais, o regime de brutal exploração e opressão sobre a população de maioria negra
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O regime de apartheid sul-africano foi um dos mais tenebrosos de todo o mundo. Especialmente em razão do país, àquela época, ser composto em sua maioria esmagadora por negros (mais de 90%), sendo a população branca uma pequena minoria.

Ao contrário dos Estados Unidos, onde os negros são minoria, na África do Sul a população negra, até os dias atuais é a ampla maioria. Mas, mesmo com o fim formal do apartheid, a situação do povo negro não mudou muito, e o bispo Desmond Tutu, ao lado de Nelson Mandela, cumpriram um papel fundamental para o atual estado de coisas.

Tutu, sabiamente, disse certa vez que o país “estava sentado em um barril de pólvora”, ao discorrer sobre a situação racial sul-africana. Ele estava correto e o que estava em marcha nos anos 1960 e 1970 era a luta armada pelo poder dos negros naquele país, uma revolução da maioria contra a minoria branca opressora e assassina.

Em todo o processo dessa natureza, vale dizer, revolucionário, em que a ação independente das massas assume a iniciativa política, é preciso de homens que controlem a fúria popular, pessoas capazes de arrefecer os ânimos do povo, de tentar enganá-los, alertando sobre os riscos e perigos da luta armada, da necessidade da luta pacífica, da conciliação com os opressores. Martin Luther King Jr. cumpriu esse papel nos EUA e Desmond Tutu, apoiado por Mandela, agiram fazendo o mesmo na África do Sul. 

É nesse contexto que Tutu passa a ser considerado um homem importante para o imperialismo na região. De origem religiosa, arcebispo, respeitado por uma parcela da população, em 1984 recebe o prêmio Nobel da Paz pela ONU. Prêmio que é dado para pessoas que o imperialismo considera importante para controlar e manter as relações de dominação coloniais. Vale destacar que Tutu é agraciado com o Nobel da Paz, enquanto Mandela ainda apodrecia na cadeia por 21 anos (1984), sendo libertado somente em 1990.

O apartheid sul-africano se perpetuou no tempo por décadas (1948 a 1994), e foi instituído pelo Partido Reunido Nacional (PRN), representante dos interesses das potências europeias na região. Era um regime onde os colonizadores europeus impuseram restrições aos negros na África do Sul e tinha como base a seguinte política, nos dizeres do manifesto do PRN: 

“A política da segregação racial se baseia nos princípios cristãos do que é justo e razoável. Seu objetivo é a manutenção e a proteção da população europeia do país como uma raça branca pura e a manutenção e a proteção dos grupos raciais indígenas como comunidades separadas em suas próprias áreas (…) Ou seguimos o curso da igualdade, o que no final significará o suicídio da raça branca, ou tomamos o curso da segregação”.

Essa política ganhou aspectos práticos: Em 1949 foi proibido o casamento misto, entre raças diferentes. Em 1953 foi proibida a relação sexual entre as raças. Espaços públicos, praias, ônibus e outros locais ganharam suas placas “apenas para brancos”. O governo se isentava de atender a todas as pessoas da mesma forma. Tal isenção foi consignada em legislação. 

Obviamente era preciso estrangular as organizações políticas do povo, por isso, em 1950, foi banido o Partido Comunista Sul Africano, e qualquer outra organização do povo era chancelada de comunista, reprimida e banida. 

Ainda em 1912 era fundado o Congresso Nacional Africano (CNA), partido que teve uma tendência armada dentro de sua organização (Umkhonto we Sizwe), e que buscava a libertação do povo africano, a luta pela independência nacional. Nelson Mandela foi do CNA e também da tendência armada. Mandela foi preso em 1963, e sua libertação foi utilizada como moeda de troca para a manutenção do poder de minoria branca no país, perpetuando, assim, a opressão e a ausência de direitos civis à maioria negra. O CNA também foi colocado na ilegalidade durante o regime de Apartheid. 

Representante da ala estudantil das revoltas contra o regime, Steve Biko estava prestes a organizar uma verdadeira tomada de poder na África do Sul durante as várias revoltas que se deram no país nos anos 1970, a mais famosa sendo o “Levante de Soweto”, em junho de 1976, que resultou na morte de centenas de manifestantes, em sua maioria jovens, que protestavam contra o Apartheid. A polícia racista do regime (a mesma até os dias de hoje) abriu fogo contra os ativistas. 

Biko, apontado como um dos responsáveis, já havia sido perseguido pelo regime antes mesmo dessa manifestação, sendo banido pelo estado ainda no início dos anos 1970. Finalmente ele foi preso em agosto de 1977, sendo torturado e morto pelas forças de repressão em 12 de setembro daquele ano. O regime sul-africano assassinou todas as lideranças que, de uma forma ou outra, atuaram para colocar abaixo por abaixo o regime de apartheid fazendo uso de métodos “não pacíficos”.

A militância de Desmond Tutu sempre foi no sentido de tentar resolver o problema do apartheid pelas vias institucionais, da negociação com os opressores brancos, em apelos às nações ricas para que interrompessem o racismo sul-africano, pois a política do apartheid era  “injusta”. Organizar a luta para derrubar os racistas “pelos meios que forem necessários” passava longe dos objetivos de Desmond Tutu e de Nelson Mandela, este último “vencedor” do prêmio Nobel da Paz em 1993. 

O estrangulamento da luta pela libertação do povo sul-africano, do povo negro, resultou nos índices atuais de fome e desemprego, que são altos e afetam, obviamente, a maioria da população negra. Para se ter uma ideia, atualmente, 10% dos ricos (que são brancos) concentram 70% da renda nacional. Metade dos sul-africanos vive com menos de R$ 20,00 por dia (negros). Setenta mil fazendeiros brancos possuem 85% de toda a terra do país. Isso quase três décadas depois de ter sido extinto, formalmente, o regime de segregação racial na África do Sul.

Indústrias, terras, e o controle político do país ainda está nas mãos do imperialismo, embora a chamada “transição democrática” tenha sido feita, com a conciliação de Tutu e Mandela, a luta do negro ainda está em andamento naquele país, com motins e levantes dos trabalhadores negros ao longo de vários anos.

Portanto, na prática, tanto por sua ação ou omissão, o religioso Desmond Tutu colaborou para que a África do Sul mantenha, até os dias atuais, o regime de brutal exploração e opressão sobre a população de maioria negra, ainda que a dominação do imperialismo sobre a nação hoje esteja encoberta pelo engôdo da participação dos negros na vida política formal e institucional do país, inclusive com a eleição de presidentes negros. 

A opressão da burguesia que, na África do Sul, ganha contornos raciais nítidos, precisa ser derrubada pelas organizações de luta do povo, especialmente por um partido operário, revolucionário, capaz de organizar o povo negro na luta pelo poder.

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