110 anos do nascimento de Jackson Pollock

A destruição da arte moderna norte-americana pelos órgãos de inteligência dos Estados Unidos

A geração de pintores do expressionismo abstrato marcou a passagem do centro internacional das artes de Paris para Nova Iorque a partir do segundo pós-guerra. Jackson Pollock foi o mais representativo dos artistas desse movimento, e sua obra constitui a culminação do modernismo norte-americano. Nesse especial analisamos tanto a trajetória artística de Pollock quanto a operação – ainda pouco conhecida – realizada pela CIA de transformação do expressionismo abstrato em uma arma de propaganda contra a burocracia stalinista durante a Guerra Fria
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Parte 1 de 4

Neste janeiro de 2022 completam-se 110 anos de Jackson Pollock (28/1/1912 – 11/8/1956), o mais representativo pintor da vanguarda norte-americana no século XX. Nesta edição e nos próximos números de Causa Operária publicamos um artigo especial em quatro partes

Pollock foi muito mais longe em sua pintura do que seus colegas de geração. Ele foi o único dos pintores dos Estados Unidos ligados à tradição de vanguarda, capaz de legar uma contribuição efetiva à pintura moderna, explorando e ampliando seus limites. Outros expressionistas abstratos – por mais importantes que sejam suas obras –, do ponto de vista das inovações formais, ficam muito longe do radicalismo da pintura de Jackson Pollock. 

A formação do expressionismo abstrato como um movimento geral das artes norte-americanas marca um momento dos mais importantes na cultura do país, pois esses artistas constituem a primeira geração da pintura experimental, vanguardista, dos Estados Unidos, colocando finalmente a arte norte-americana lado a lado com as mais importantes contribuições da pintura européia.

A França, capital absoluta das artes mundiais desde o século XIX, foi o berço da pintura moderna. São francesas a pintura realista, a impressionista, a pós-impressionista, a simbolista, a fauvista, a cubista, a orfista e a surrealista. Mas a Escola de Paris constitui uma exceção absoluta no mundo, os demais países quase sempre seguiram a reboque das inovações apresentadas por ela. Praticamente todas as outras nações europeias de importância tiveram apenas uma vanguarda tipicamente nacional. Na Itália, a pintura de vanguarda foi o futurismo; na Alemanha e na Áustria, o expressionismo; na Holanda, o neoplasticismo; na Inglaterra, o vorticismo; na Rússia, o construtivismo. Os Estados Unidos terão sua própria vanguarda apenas com o término da Segunda Guerra e como resultado dela. Essa vanguarda será o expressionismo abstrato.

A obra de Jackson Pollock representou o ponto de culminação desse movimento tipicamente norte-americano, vinculando a pintura de seu país a essa tradição radical de ruptura com as artes figurativas do século XIX, uma tradição que esteve sempre em busca de novas formas de representação a partir da revolução das técnicas consagradas.

A história de Pollock, bem como a história do expressionismo abstrato como um todo, está indissociavelmente ligada à história política dos Estados Unidos no período, uma relação que se vê em todos os movimentos de vanguarda importantes no mundo. É uma história que passa pela Grande Depressão, pelo New Deal, pelo Federal Project, pelo êxodo dos intelectuais europeus para os Estados Unidos durante a Segunda Guerra, pela Guerra Fria e pelo macarthismo.

Como resultado da crise revolucionária do segundo pós-guerra, o governo norte-americano se vê praticamente obrigado a financiar e a patrocinar sua vanguarda modernista. Ele visava, no entanto, única e exclusivamente utilizá-la como arma de propaganda contra a influência da União Soviética sobre parte expressiva da intelectualidade mundial.

Foi a política de Estado do imperialismo norte-americano que alçou os expressionistas abstratos ao “estrelato” mundial, e foi também precisamente essa política de utilização das artes com fins totalmente reacionários – para justificar e afirmar a máquina assassina e opressora do imperialismo norte-americano –que acabou por corromper e aniquilar completamente esses artistas. Os representantes mais importantes desse movimento terminariam sua vida na agonia, na crise mais profunda, recorrendo desesperadamente ao suicídio, o resultado inevitável da transformação de um movimento revolucionário da arte, com suas leis inerentes, em uma engrenagem de propaganda no interior de uma máquina implacável de opressão, inimiga de qualquer humanidade ou sensibilidade criativa. 

O resultado final dessa utilização política do movimento, a completa miséria espiritual em que caíram esses artistas, faz eco com o nefasto processo de liquidação da arte de vanguarda soviética promovida pela burocracia stalinista na década de 1930, o que mostra o caráter absolutamente reacionário de ambas as forças políticas que exerciam sua opressão sobre a humanidade naquele momento. Tanto o imperialismo quanto o stalinismo se mostraram incapazes de conviver com um verdadeiro movimento de arte sem levá-lo à completa ruína.

Nesse especial comemorativo dos 110 anos do nascimento do pintor, buscamos destacar tanto a importância efetiva de Pollock para as artes norte-americanas quanto o processo de destruição dele e de sua geração após serem transformados em apêndices da Agência Central de Inteligência (CIA, na sigla em inglês) norte-americana e em armas de sua propaganda.

A juventude no Oeste

Jackson Pollock nasceu em janeiro de 1912 na cidade de Cody, no Wyoming. Ele foi o mais novo dos cinco filhos do casal, dos quais quatro se tornariam artistas por estímulo familiar. A origem do pintor nas terras paisagens do Oeste norte-americano é um dado importante para se entender o significado que adquiriu a personalidade de Jackson Pollock para os norte-americanos e porque ele tinha o perfil ideal para ocupar uma posição de destaque entre os artistas de seu país.

O pai do futuro pintor, LeRoy Pollock, era um fazendeiro, um criador de ovelhas que ainda na infância de Jackson abandonou a profissão para se tornar agrimensor do Estado. Em função desse trabalho, a família Pollock passou muitos anos entre sucessivas viagens, acompanhando o pai em suas obrigações profissionais. 

Antes da adolescência de Jackson, ele já havia percorrido todo o Arizona e a Califórnia ao lado da família. Nesse período, durante dois anos ele ajudou o pai num trabalho de levantamento geológico e topográfico de toda a região do Grande Canyon. Os amplos territórios selvagens do Oeste, mesmo anos mais tarde, ainda causariam viva impressão no pintor, bem como a cultura dos indígenas locais que conheceu nessas viagens, com sua dignidade, suas crenças fantásticas e rituais obscuros.

O jovem Jackson Pollock começou a receber seu estudo formal em artes aos 13 anos, quando foi matriculado na Manual Arts High School de Los Angeles. Nesses primeiros anos seu interesse voltava-se ainda para a escultura e somente mais tarde é que descobriu na pintura sua forma de expressão mais típica.

O artista foi desde cedo um contestador do conservadorismo da mentalidade norte-americana, e essa inclinação o levaria a tomar parte na organização de um jornal estudantil onde ele e seus colegas passaram a atacar aberta e ferozmente a tradição, os métodos de ensino e as autoridades da instituição. Seus artigos valeram-lhe um processo de perseguição e censura por parte dos professores e diretores, culminando com sua expulsão em 1929. 

Ele tinha então 17 anos. Em busca de um ambiente culturalmente mais avançado, Pollock parte em 1930 para o Leste ao lado de seu irmão, Charles, também pintor. 

A influência da arte das Américas

Os irmãos se estabelecem em Nova Iorque e matriculam-se na Art Student’s League. Entre os professores, eles tomam aulas com o importante pintor folclórico Thomas Hart Benton. Apesar de pintar em um estilo moderno, o velho artista havia se desinteressado dos movimentos modernistas europeus em busca de novos caminhos para a arte norte-americana, desenvolvendo a partir de então uma arte realista e voltada à expressão da cultura nacional e da população simples. Hart Benton teria uma importante influência intelectual sobre Pollock nos primeiros anos.

Apesar do grande respeito que o jovem pintor nutria pelo mestre, ele em pouco tempo manifestou uma discordância fundamental com Benton, concluindo ser um equívoco a busca por uma arte tipicamente norte-americana dissociada das conquistas mais recentes das vanguardas européias. A arte de Pollock seguiu caminhos distintos, mas, apesar disso, ele assimilou firmemente o interesse de Benton pela cultura nacional.

Outra influência importante de Pollock em seus anos de formação foi a pintura de Albert Pinkham Ryder, pintor norte-americano do final do século XIX também vinculado à arte realista de temas nacionais, particularmente conhecido por suas telas de paisagens.

Às influências desses mestres da pintura norte-americana, somaram-se na obra de Pollock influências diversas do expressionismo alemão – influências também presentes tanto em Benton quanto em Ryder –, e às cores agressivas deste expressionismo, acrescentou-se também o fascínio pela pintura muralista mexicana, movimento que entre as décadas de 1920 e 30, estourava como um dos mais importantes fenômenos culturais das Américas – uma verdadeira vanguarda americana.

Dentre os ‘Três Grandes’ da pintura mural, foi David Alfaro Siqueiros quem mais influência exerceu sobre a obra de Pollock. O interesse do jovem pintor norte-americano pelo muralismo é de grande importância em sua formação pessoal, pois, não apenas permitiu que Pollock entrasse em contato pela primeira vez com as ideias da esquerda revolucionária, como também lhe rendeu um entendimento distinto do problema da expressão da cultura nacional na arte.

A descoberta do inconsciente

Outra influência decisiva na obra inicial de Pollock foi o ousado vanguardismo de Pablo Picasso, que ao longo da década de 1930 vivia um de seus períodos mais radicais. Tendo abandonado a fase neoclássica, Picasso avançava cada vez mais para uma forma muito pessoal de cubismo sintético, extraordinariamente versátil em suas possibilidades e espontâneo em sua execução. A assimilação da pintura de Picasso por Pollock permitiu ao pintor mais jovem finalmente libertar-se da influência do realismo norte-americano, e a desenvolver pela primeira vez um estilo pessoal. Essa influência marcou também a aproximação definitiva de Pollock das idéias da arte moderna européia. Seu modernismo a partir daí faz-se notar pelas soluções formais adotadas na execução de temas comuns ao passado mítico do Oeste, com seus totens indígenas, animais selvagens, etc. O desenvolvimento natural da arte de Pollock a partir daí foi no sentido de uma pintura de formas cada vez mais simplificadas, afastando-se com grande liberdade da representação fiel dos temas.

Por fim, e talvez mais importante de tudo, foi a descoberta de Jackson Pollock das ideias do movimento surrealista francês. Dentre todas as influências que o pintor recebeu em sua fase de formação, foi o surrealismo que lhe forneceu a teoria necessária para que ele seguisse por um caminho original na pintura.

O surrealismo foi o primeiro movimento a legitimar a subjetividade como um elemento ativo e fundamental na criação de arte. Os surrealistas defendiam a necessidade do artista libertar as imagens interiores de sua mente através da atividade criativa. Eles partiam da crença de que as imagens liberadas espontaneamente, sem planejamento ou elaboração formal continham toda a verdade essencial à arte, concluindo que tudo o que passasse fora disso não era mais que pura ornamentação, artificialismo. Os surrealistas rejeitam a partir daí toda a elaboração consciente, premeditada, e desenvolvem, ao contrário, uma técnica criativa baseada no puro automatismo psíquico. Para tais artistas, a pintura, bem como a poesia, buscando a libertação das imagens subconscientes, deveria ser desenvolvida necessariamente a partir dos impulsos e não da razão.

Em 1939, Pollock estava totalmente familiarizado com essas ideias e pintava já a partir das técnicas de automatismo. Ele se voltou cada vez mais para esse caminho e tornou-se um estudioso da psicanálise, se entregando a processos de auto-análise e buscando métodos para libertar mais facilmente suas imagens inconscientes.

Desde esse momento, o inconsciente tornou-se a fonte primordial de temas da pintura de Pollock, que passou a expressar suas imagens interiores na forma de símbolos ou desenhos estilizados que mantinham certa relação com o surrealismo zoomórfico de Joan Miró.

(continua na próxima edição)

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