O Socialismo e as Igrejas

Neste “Especial de Natal”, Causa Operária traz nesta e na próxima edição o artigo da revolucionária polonesa, Rosa Luxemburgo publicado pela primeira vez em 1905 pelo Partido Social-Democrata Alemão e reproduzido em várias edições pela Segunda e pela Terceira Internacional. Esse importante texto explica a posição do marxismo e a atitude do partido operário diante da religião. Boa leitura!
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Rosa Luxemburgo

1. O clero e o socialismo

Desde o momento em que os trabalhadores do nosso país e da Rússia começaram a lutar corajosamente contra o governo tzarista e contra os exploradores capitalistas, notamos cada vez com mais frequência que os padres, nos seus sermões, lançam-se contra os trabalhadores em luta. É com extraordinário vigor que o clero combate os socialistas e tenta, por todos os meios, desacreditá-los aos olhos dos trabalhadores. Os crentes que vão à igreja, aos domingos e em dias festivos, veem-se compelidos a ouvir um violento discurso político, uma verdadeira denúncia do socialismo, em vez de ouvirem um sermão e nele obterem um consolo religioso. Em vez de confortarem as pessoas que estão cheias de preocupações e cansadas pela vida difícil, e que vão à igreja com fé no cristianismo, os padres insultam os trabalhadores que estão em greve e fazem oposição ao governo; e, além disso, exortam-nos a suportar a pobreza e a opressão com humildade e paciência. Transformam a igreja e o púlpito numa tribuna de propaganda política.

Os trabalhadores podem comprovar facilmente que o ódio do clero para com os social-democratas não é de modo algum provocado por estes. Os social-democratas propõem, como objetivo, unir e organizar os trabalhadores na luta contra o capital, isto é, contra os exploradores que lhes sugam até a última gota de sangue, e na luta contra o governo tzarista, que impede a libertação do povo. Mas nunca os social-democratas instigam os trabalhadores contra o clero, nem interferem em suas crenças religiosas; de modo algum! Os social-democratas do mundo e do nosso país consideram que a consciência e as opiniões pessoais são sagradas. Cada homem pode manter a fé e as ideias que crê serem fonte de felicidade. Ninguém tem o direito de perseguir ou atacar os demais por suas opiniões religiosas. Isso é o que os socialistas pensam. E é por essa razão, entre outras, que os socialistas clamam o povo para que lute contra o regime tzarista, que viola continuamente a consciência dos homens ao perseguir católicos, católicos russos, judeus, hereges e pensadores independentes. São precisamente os social-democratas que mais defendem a liberdade de consciência. Portanto, pareceria que o clero deveria prestar ajuda aos social-democratas, que tratam de esclarecer o povo trabalhador. Quanto mais compreendemos os ensinamentos que os socialistas oferecem à classe operária, menos compreendemos o ódio do clero para com os socialistas.

Os social-democratas propõem-se a pôr fim à exploração dos trabalhadores pelos ricos. Pensar-se-ia que os servidores da Igreja seriam os primeiros a facilitar essa tarefa para os social-democratas. Por acaso Jesus Cristo (cujos servidores são os padres) não ensinou que “é mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar no Reino dos Céus”? Os social-democratas cuidam para que se estabeleça em todos os países um regime social baseado na igualdade, liberdade e fraternidade de todos os cidadãos. Se o clero realmente deseja pôr em prática o princípio, “ama teu próximo como a ti mesmo”, por que não recebe com satisfação a propaganda social-democrata? Por meio de sua luta desesperada e da educação e organização do povo, os social-democratas agem para tirá-los da opressão e oferecer aos seus filhos um futuro melhor. A essa altura, todos teriam que admitir que o clero deveria abençoar os social-democratas. Por acaso Jesus Cristo, a quem eles servem, não disse “o que fazeis pelos pobres é a mim que o fazeis”?

Por um lado, vemos o clero excomungar e perseguir os social-democratas e, por outro, mandar que os trabalhadores sofram pacientemente, isto é, que permitam pacientemente que os capitalistas os explorem. O clero enfurece-se violentamente contra os social-democratas, exorta os trabalhadores a não se revoltarem contra os patrões, mas a submeter-se obedientemente à opressão desse governo que mata pessoas indefesas, manda para a monstruosa carnificina da guerra milhões de trabalhadores, que persegue católicos, católicos russos e “velhos crentes”. Assim o clero, ao transformar-se em voz dos ricos, em defensor da exploração e da opressão, põe-se a si próprio em flagrante contradição com a doutrina cristã. Os bispos e os padres não propagam a doutrina cristã: adoram o bezerro de ouro e o chicote que açoita os pobres e indefesos.

Além disso, todos sabem como os padres aproveitam-se dos trabalhadores; extraem-lhes dinheiro por ocasião do batismo, casamento ou funeral. Quantas vezes não ocorre que um padre, chamado ao leito de um doente para administrar-lhe os últimos sacramentos, recusa-se a ir lá antes de lhe serem pagos os seus “honorários”? O trabalhador, tomado pelo desespero, vai vender ou hipotecar tudo o que possui para que não falte consolo religioso aos seus entes queridos.

É verdade que encontramos sacerdotes de outra espécie. Existem alguns de bondade e misericórdia e que não procuram lucros; esses estão sempre prontos a ajudar os pobres. Mas devemos admitir que são muito poucos, que são as moscas brancas. A maior parte dos padres, com suas caras sorridentes, curva-se diante dos ricos, perdoando-lhes silenciosamente toda depravação e toda iniquidade. Para com os trabalhadores, o clero comporta-se de maneira bem diferente: pensa apenas em espezinhá-los sem piedade; em sermões ríspidos, fustigam a “cobiça” dos trabalhadores quando os trabalhadores nada mais fazem do que defender-se contra os erros do capitalismo. A flagrante contradição entre as ações do clero e os ensinamentos do cristianismo deve levar-nos todos a refletir. Os trabalhadores perguntam-se como, na luta da sua classe pela emancipação, encontram nos servidores da Igreja inimigos e não aliados. Como é que a Igreja defende a riqueza e a exploração sangrenta, em vez de ser o refúgio dos explorados? Para entender esse estranho fenômeno, basta lançar os olhos sobre a história da Igreja e examinar a evolução pela qual ela passou ao longo dos séculos.

2. O comunismo dos primeiros cristãos

Os social-democratas desejam pôr em execução o estado de “comunismo”, é principalmente isso o que o clero tem contra eles. Em primeiro lugar, é evidente notar que os padres de hoje, que combatem o comunismo, condenam, na realidade, os primeiros apóstolos cristãos. Porque estes foram comunistas ardentes.

A religião cristã apareceu, como é bem conhecido, na Roma antiga, no período do declínio do Império, que fora rico e poderoso, compreendendo os países que hoje são: a Itália e a Espanha, parte da França, parte da Turquia, a Palestina e outros territórios. O Estado de Roma, na época do nascimento de Jesus Cristo, parecia-se com o que impera atualmente na Rússia tzarista. Por um lado, ali vivia um punhado de gente rica, gozando de todos os luxos e prazeres; por outro lado, uma enorme massa de pobres apodrecia na pobreza; sobretudo, num governo despótico, assentado na violência e na corrupção, que exercia uma opressão implacável. Todo o Império Romano foi mergulhado em completa desordem, cercado por ameaçadores inimigos externos: a soldadesca desenfreada no poder praticava as suas crueldades sobre a população indefesa; a província estava deserta, a terra jazia abandonada; as cidades, especialmente Roma, a capital, estava cheia de uma pobreza chocante que erguia os olhos carregados de ódio para os palácios dos ricos; o povo estava sem pão, abrigo, vestuário, esperança e sem possibilidade de sair da pobreza.

Há apenas uma diferença entre a Roma na sua decadência e o Império do Tzar; Roma nada sabia de capitalismo; não existia ali a indústria pesada. Naquele tempo, a escravatura era a ordem de coisas estabelecidas em Roma. As famílias nobres, os ricos, os financistas satisfaziam todas as suas necessidades pondo a trabalhar os escravos aprisionados nas guerras. Com o passar do tempo, essas pessoas ricas tinham se apoderado de quase todas as províncias da Itália, expropriando da terra os camponeses. Como se apropriavam de cereais em todas as províncias conquistadas, como tributo sem custo, davam-se ao luxo de abandonar nas suas propriedades plantações magníficas como vinhas, pastagens, pomares e ricos jardins, cultivados por exércitos de escravos trabalhando debaixo de chicote do capataz. Os camponeses privados da sua terra e do pão saíam das províncias para a capital. Mas ali não se encontravam em melhor situação para ganhar a vida, posto que todo trabalho era feito pelos escravos. Assim se havia formado em Roma um exército numeroso dos que nada possuíam – o proletariado, não tendo mesmo a possibilidade de vender a sua força de trabalho. Esse proletariado, vindo do campo, não podia, portanto, ser absorvido pelas empresas industriais como acontece hoje; tornaram-se vítimas da pobreza desesperada e foram reduzidos à mendicidade. Essa numerosa massa popular, morrendo de fome, sem trabalho, enchendo os subúrbios, os espaços livres e as ruas de Roma, constituía um perigo permanente para o governo e para as classes possuidoras. Portanto, o governo sentiu-se compelido, no seu próprio interesse, a aliviar a pobreza. De tempos em tempos, distribuía ao proletariado o cereal e outros gêneros alimentícios armazenados nos celeiros do Estado. Mas, para fazer o povo esquecer-se de suas amarguras, oferecia-lhe espetáculos gratuitos de circo. Ao contrário do proletariado do nosso tempo, que mantém toda a sociedade pelo seu trabalho, o enorme proletariado de Roma existia pela caridade. Eram os escravos miseráveis, tratados como animais, que trabalhavam para a sociedade romana. Nesse caos de pobreza e degradação, um punhado de magnatas romanos passava o tempo em orgias e devassidão. Não havia possibilidade de sair dessa monstruosa condição social. O proletariado queixava-se e ameaçava, de vez em quando, revoltava-se, mas uma classe de mendigos, vivendo das migalhas caídas da mesa dos senhores, não podia estabelecer uma nova ordem social. Além disso, os escravos que mantinham com o seu trabalho toda a sociedade, estavam muito espezinhados, bastante dispersos, demasiado esmagados pelo jugo, tratados como animais e viviam bastante isolados das outras classes para serem capazes de transformar a sociedade. Revoltaram-se muitas vezes contra os seus patrões, tentaram libertar-se em batalhas sangrentas, mas o exército romano esmagou sempre essas revoltas, massacrando os escravos aos milhares e condenando-os à morte na cruz.

Nessa sociedade em decomposição, onde não existe saída dessa trágica situação para o povo, nem esperança alguma de uma vida melhor, os desgraçados voltam-se para o céu procurando nele a salvação. A religião cristã aparecia a esses seres infelizes como uma tábua de salvação, uma consolação e um encorajamento e tornou-se, logo desde o princípio, a religião do proletariado romano. Em conformidade com a posição material dos homens pertencentes a essa classe, os primeiros cristãos fizeram a proposta da propriedade em comum – o comunismo. O que poderia ser mais natural? As pessoas careciam de meios de subsistência e morriam de fome. Uma religião que defendia o povo exigia que os ricos partilhassem com os pobres as riquezas que devem pertencer a todos; uma religião que pregava a igualdade de todos os homens teria grande sucesso. Contudo, isso nada tem que ver com as reivindicações que hoje levantam os social-democratas com o objetivo de converter em propriedade comum os instrumentos de trabalho, os meios de produção, para que toda a humanidade possa trabalhar e viver em harmonia.

Vimos que os proletários romanos não viviam do trabalho, mas das esmolas que o governo distribuía. Assim, a exigência, pelos cristãos, da coletivização da propriedade, não dizia respeito aos meios de produção, mas aos bens de consumo. Eles não pediam que a terra, as oficinas e os instrumentos de trabalho se tornassem propriedade coletiva, mas apenas que tudo deveria ser repartido entre eles: casas, roupas, alimentos e os produtos elaborados necessários à vida. Os comunistas cristãos não se preocupavam em inquirir nada acerca da origem daquelas riquezas. O trabalho produtivo recaía sempre sobre os escravos. O povo cristão desejava apenas que os que possuíam a riqueza abraçassem a religião cristã e fizessem das suas riquezas propriedade comum, para que todos pudessem gozar dessas coisas boas em igualdade e fraternidade.

Foi, na verdade, desse modo que as primeiras comunidades cristãs se organizaram. Um contemporâneo escreveu: 

“Essas pessoas não acreditam na fortuna, mas pregam a propriedade coletiva e nenhuma dentre elas possui mais do que as outras. Quem desejar entrar na sua ordem é obrigado a pôr sua fortuna como propriedade comum a essas mesmas pessoas. É por isso que não há entre elas nem pobreza nem luxo – todos possuindo tudo em comum, como irmãos. Não vivem numa cidade à parte, mas em cada uma há casas para eles próprios. Se quaisquer estrangeiros pertencentes à sua religião aparecem, repartem a propriedade com eles e podem beneficiar-se dela como se fosse propriamente sua. Essas pessoas, mesmo que desconhecidas anteriormente umas das outras, dão as boas vindas mutuamente e as suas relações são muito amigáveis. Quando viajam, não levam nada senão uma arma para se defenderem dos ladrões. Em cada cidade têm o seu administrador, que distribui roupa e alimento aos viajantes. Negócio não existe entre eles. Contudo, se um dos membros oferece algum objeto de que ele precisa, recebe outros objetos em troca. Mas também cada um pode pedir o que precisa mesmo que não possa dar nada em troca.”

Lemos nos Atos dos Apóstolos a seguinte descrição da primeira comunidade de Jerusalém: “nenhum necessitado havia entre eles, porquanto os que possuíam terras ou casas, vendendo-as, traziam os valores correspondentes e depositavam aos pés dos apóstolos; então, se distribuía a qualquer um à medida que alguém tinha necessidade.”

Em 1780, o historiador alemão Vogel escreveu quase a mesma coisa acerca dos primeiros cristãos: 

“De acordo com a regra, todo cristão tinha direito à propriedade de todos os membros da comunidade; caso quisesse, podia pedir que os membros mais ricos dividissem a sua fortuna com ele, de acordo com as suas necessidades. Todo cristão podia fazer uso da propriedade dos seus irmãos; os cristãos que possuíam qualquer coisa não tinham direito de recusar o seu uso aos irmãos. Assim, os cristãos que não tinham casa podiam exigir dos que tinham duas ou três que os recebesse; o proprietário conservava para si próprio apenas a própria casa. Mas, por causa da comunidade de gozo dos bens, tinha de dar habitação àquele que não tinha.”

O dinheiro era colocado em caixa comum e um membro da sociedade, especialmente escolhido para esse fim, dividia a fortuna coletiva entre todos. Mas isso não era tudo. Entre os primeiros cristãos, o comunismo foi levado tão longe que eles tomavam as suas refeições em comum. A sua vida familiar era, portanto, abolida; todas as famílias cristãs, numa sociedade, viviam juntas, como uma única grande família.

Para terminar, acrescentemos que certos padres atacam os social-democratas alegando que somos a favor da comunidade de mulheres. Obviamente, isso é uma grande mentira, proveniente da ignorância ou da ira do clero. Os social-democratas consideram isso como uma distorção vergonhosa e bestial do casamento. E, contudo, essa prática foi usual entre os primeiros cristãos.

Desse modo, os cristãos do séculos I e II foram comunistas fervorosos. Mas aquele comunismo era baseado no consumo de produtos elaborados e não no trabalho, e mostrou-se incapaz de reformar a sociedade e de pôr fim à desigualdade entre os homens e de derrubar a barreira que separa ricos de pobres. Porque, exatamente como antes, as riquezas criadas pelo trabalho voltavam para um grupo restrito de possuidores, porque os meios de produção (especialmente a terra) permaneciam como propriedade individual, e o trabalho – para toda a sociedade – continuava sendo fornecido pelos escravos. O povo, desprovido de meios de subsistência, recebia apenas esmolas, conforme a boa vontade dos ricos.

Enquanto uns poucos (proporcionalmente à massa do povo) possuírem exclusivamente para o próprio uso todas as terras cultiváveis, florestas e pastagens, os animais do campo e as casas de lavoura, todas as oficinas, ferramentas e materiais de produção, e enquanto outros, a imensa maioria, não possuírem nada do que é indispensável na produção, não pode haver nenhuma espécie de igualdade entre os homens. Em tais condições, a sociedade, evidentemente, encontra-se dividida em duas classes, os ricos e os pobres, os que vivem no luxo e os que vivem na pobreza. Suponhamos, por exemplo, que os ricos proprietários, influenciados pela doutrina cristã, oferecessem-se para distribuir para o povo todas as riquezas que possuíam em forma de dinheiro, cereais, frutas, vestuário e animais. Qual seria o resultado? A pobreza desapareceria por algumas semanas e, durante esse tempo, a população poderia alimentar-se e vestir-se. Mas os produtos elaborados são rapidamente consumidos. Pouco tempo depois, as pessoas, tendo consumido as riquezas distribuídas, teriam uma vez mais as mãos vazias. Os proprietários da terra e os instrumentos de produção poderiam produzir mais, graças à força de trabalho dos escravos, e nada mudaria. Bem, aqui está porque os social-democratas consideram essas coisas de modo diferente dos comunistas cristãos. Eles dizem: “Não queremos que os ricos repartam com os pobres, não queremos nem caridade nem esmolas; ambas as coisas são incapazes de eliminar a desigualdade entre os homens. Não exigimos que os ricos compartilhem com os pobres, e sim a completa supressão de ricos e pobres.” Isso é possível desde que as fontes de toda a riqueza, a terra, em comum com todos os outros meios de produção e instrumentos de trabalho, se tornem propriedade coletiva do povo trabalhador que irá produzir para si próprio, de acordo com a necessidade de cada um. Os primeiros cristãos acreditavam que podiam remediar a pobreza do proletariado por meio das riquezas oferecidas pelos possuidores. Isso seria o mesmo que tirar água com uma peneira! O comunismo cristão era incapaz de mudar ou melhorar a situação econômica, por isso não prosperou.

No princípio, quando os seguidores do novo salvador constituíam um pequeno grupo na sociedade romana, a divisão do pecúlio comum, as refeições em comum e o viver debaixo do mesmo teto eram possíveis. Mas quando o número de cristãos se espalhou pelo território do Império, essa vida comunitária dos seus partidários tornou-se mais difícil. Logo desapareceu o costume das refeições comuns e a divisão dos bens tomou um novo aspecto. Os cristãos não mais viveram como uma família; cada um tomou cuidado da própria propriedade e já não ofereciam o total dos seus bens à comunidade, mas apenas o supérfluo. As contribuições dos mais ricos aos cofres populares, perdendo o caráter de participação numa vida comum, em breve se transformaram em simples “esmolas”, desde que os cristãos ricos deixaram de fazer caso da propriedade comum e passaram a colocar a serviço dos outros apenas uma parte do que tinham, parte que podia ser maior ou menor, conforme a boa vontade do doador. Assim, mesmo no coração do comunismo cristão, apareceu a diferença entre ricos e pobres, análoga à que reinava no Império Romano e contra a qual os primeiros cristãos tinham combatido. Logo foram apenas os cristãos pobres e os proletários que tomaram parte em refeições comuns; os ricos ofereciam uma parte da sua riqueza e afastavam-se. Os pobres viviam das esmolas atiradas pelos ricos e a sociedade transformou-se outra vez naquilo que tinha sido. Os cristãos não tinham mudado nada.

Os padres da Igreja, contudo, lutaram com palavras exaltadas contra essa penetração da desigualdade social na comunidade cristã, flagelando os ricos e exortando-os a voltarem ao comunismo dos primeiros Apóstolos.

São Basílio, no século IV depois de cristo, pregou assim contra os ricos: 

“Miseráveis, como ireis justificar-vos diante do Juiz do Céu? Vós me perguntais: ‘qual é a nossa falta, quando guardamos o que nos pertence?’ Eu vos pergunto: ‘como é que arranjastes isso a que chamais vossa propriedade? Como é que os possuidores se tornam ricos, senão tomando posse das coisas que pertencem a todos? Se todos tomassem apenas aquilo de que estritamente necessitam, deixando o resto para os outros, não haveria nem ricos nem pobres.”

Foi São João Crisóstomo, patriarca de Constantinopla. (nascido em Antioquia em 347, falecido, no exílio, na Armênia, em 407) quem pregou mais exaltadamente aos cristãos para regressarem ao comunismo primitivo dos apóstolos. Esse célebre pregador, na sua 11ª homilia sobre os Atos dos Apóstolos, disse: 

“E reinava a caridade entre eles (os Apóstolos); entre eles ninguém era pobre. Ninguém considerava como seu o que lhe pertencia, toda a riqueza era propriedade comum (…) uma grande caridade existia em todos eles. Essa caridade consistia em que não havia pobre entre eles, de tal modo que os que tinham bens apressavam-se a desprender-se deles. Não dividiam as suas fortunas em duas partes, dando uma e guardando a outra; davam o que tinham. Assim não havia desigualdade entre eles. Todos viviam em grande abundância. Tudo se fazia com o maior respeito. O que davam não passava da mão do doador para a mão do que recebia; as suas dádivas eram sem ostentação; traziam os bens aos pés dos apóstolos que eram os administradores e os donos e utilizavam os bens como coisa comunitária e não privada. Com isso, punham termo em qualquer intento de terem alguma vaidade. Ah! Por que é que se perderam essas tradições? Ricos e pobres poderiam todos tirar proveito desses costumes piedosos e uns e outros sentiríamos o mesmo prazer em nos conformarmos com eles. Os ricos não empobreceriam ao desprenderem-se das suas posses, e os pobres seriam enriquecidos (…) Mas tentemos dar uma ideia exata do que se deveria fazer (…).

“Ora, suponhamos – nem pobres nem ricos precisam alarmar-se, pois é apenas uma suposição – suponhamos que vendamos tudo o que nos pertence para pormos o produto da venda numa conta comum. Que somas de ouro se amontoariam! Não sei dizer com exatidão quanto isso daria; mas se todos entre nós, sem distinção de sexo, trouxéssemos os nossos tesouros, vendêssemos os campos, as propriedades, as casas – não falo de escravos, pois não havia nenhum na comunidade cristã e os que chegavam a ela eram libertados – talvez, se todos fizessem o mesmo, creio que conseguiríamos centenas de milhares de libras de ouro, milhões, enormes somas.

“Pois bem! Quantas pessoas acreditais que vivem nesta cidade? Quantos cristãos? Estais de acordo em que haja uns cem mil? O resto será constituído por judeus e gentios. Quantos não conseguiríamos unir? Ora, se contássemos os pobres, quantos seriam? Cinquenta mil necessitados, no máximo. O que seria necessário para alimentá-los diariamente? Julgo que a despesa não seria excessiva, se o fornecimento e o consumo da alimentação fossem organizados em comum.

“Perguntar-se-á talvez: “mas o que será de nós quando esta riqueza for consumida?” Mas o quê? Isso poderia acontecer? A graça de Deus então não se multiplicaria por mil? Não estaríamos criando um céu na terra?

“Se anteriormente essa comunidade de bens existiu entre três a cinco mil fiéis e teve tão bons resultados e baniu a pobreza entre eles, por que não resultaria numa grande multidão como essa? E entre os próprios pagãos, quem não se apressaria a aumentar o tesouro comum? A riqueza que é possuída por poucas pessoas perde-se muito mais fácil e rapidamente; a distribuição da propriedade é a causa da pobreza. Tomemos como exemplo uma família composta de marido, esposa e dez filhos, a esposa ocupando-se em fiar lã, o marido trazendo o salário de seu trabalho fora de casa; digam-me em que gastaria mais essa família, se vivendo em comum ou vivendo separadamente? Obviamente, se estivessem separados. Dez casas, dez mesas, dez criados e dez subsídios especiais seriam necessários para as crianças se os filhos vivessem separados. O que é que se faria se possuíssem muitos escravos? Não é verdade, então, que para reduzir as despesas eles seriam alimentados numa mesma mesa? A divisão é uma causa de empobrecimento; a concórdia e a unidade das vontades é uma causa de riquezas.

“Nos mosteiros, ainda se vive como na primeira Igreja. E quem morre de fome ali? Quem não tem alimento suficiente ali? Contudo os homens do nosso tempo temem viver dessa maneira mais do que do perigo de cair ao mar! Por que é que não o tentamos? Temê-lo-íamos menos. Que grande ato seria esse! Se alguns fiéis, uns escassos oito mil, ousassem em um mundo onde só haveria inimigos tentar viver de forma comunitária sem ajuda exterior, o que poderíamos fazer hoje então, quando há cristãos em todo o mundo? Permaneceria um único gentio? Nenhum, creio eu. Nós os atrairíamos todos para a nossa causa.”

Esses exaltados sermões de São João Crisóstomo foram em vão. Os homens não tentaram estabelecer o comunismo nem em Constantinopla, nem em parte alguma. Ao mesmo tempo em que o cristianismo se expandia e se tornava, em Roma, depois do século IV, a religião dominante, os fiéis distanciavam-se cada vez mais do exemplo dos primeiros apóstolos. Mesmo dentro da própria comunidade cristã, a desigualdade de bens entre fiéis cresceu.

Ainda no século VI, Gregório Magno disse: 

“Não é, de modo algum, bastante não roubar a propriedade dos outros; é errado conservar para si próprio a riqueza que Deus criou para todos. Aquele que não dá ao próximo o que possui é um assassino, homicida; quando guarda para seu próprio uso o que proveria os pobres; pode dizer-se que está matando os que podiam ter vivido da sua abundância; quando repartimos com os que estão sofrendo, nós não damos o que nos pertence, mas o que lhes pertence. Isso não é um ato de misericórdia, mas o pagamento de uma dívida.

Esses apelos foram infrutíferos. Mas a culpa não foi, de modo algum, dos cristãos naqueles dias, que respondiam muito melhor às palavras dos padres da Igreja do que os cristãos de hoje. Não foi a primeira vez na história da humanidade que as condições econômicas se mostraram elas próprias mais fortes que os belos discursos.

O comunismo, esta comunidade de consumo de bens, que os primitivos cristãos proclamaram, não podia ser posta em prática sem o trabalho comum de toda a população, na terra, como propriedade comum, e também em oficinas comunitárias. No período dos primeiros cristãos, era impossível iniciar o trabalho comunitário (com meios de produção comunitários) porque, como já afirmamos, o trabalho baseava-se, não em homens livres, mas em escravos que viviam à margem da sociedade.

O cristianismo não tentou abolir a desigualdade entre o trabalho de diferentes homens nem entre a propriedade deles. Razão pela qual o seu esforço para suprimir a distribuição desigual dos bens de consumo não vingou. As vozes dos Padres da Igreja proclamando o comunismo não encontraram eco. Além disso, estas vozes, em breve, tornaram-se cada vez menos frequentes e, finalmente, caíram no silêncio completo. Os padres da Igreja cessaram de pregar a comunidade e a distribuição dos bens, porque o crescimento da comunidade cristã produziu mudanças fundamentais dentro da própria Igreja.

(continua na próxima edição)

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