Revolta antissistema

Na França, abre-se uma avenida à direita de Le Pen

A líder do Reagrupamento Nacional e oponente de Macron em 2017 tem um rival ainda mais à direita
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No dia 30 de novembro, Éric Zemmour oficializou sua intenção de disputar as eleições presidenciais francesas de 2022. O candidato foi apresentado como o “Trump francês”. 

Assim como o norte-americano, Zemmour já foi apresentador de televisão e se apresenta como um candidato alheio ao sistema político. O jornalista, que escreve a quase 20 anos para o jornal conservador Le Figaro, também possui posições de extrema direita, ainda que as defenda de forma mais eloquente que sua contrapartida.

Zemmour ganhou destaque na imprensa porque, apesar de ser um novato na política, já possui quase o mesmo apelo eleitoral que Marine Le Pen, líder do partido de extrema direita Reagrupamento Nacional. No último dia 5, realizou seu primeiro comício como presidenciável onde anunciou o nome de seu partido político: Partido da Reconquista. 

O evento reuniu centenas de participantes e contou com um enfrentamento entre apoiadores de Zemmour e um grupo antifascista. O próprio candidato foi supostamente “atacado” por um dos presentes enquanto se deslocava numa pequena amostra da polarização políticaz que deve se aprofundar até a votação, em abril do ano que vem.

Retrospectiva

Nas últimas eleições presidenciais, em 2017, Emmanuel Macron foi eleito presidente, pelo partido improvisado Em Marcha. Macron era um candidato minoritário, representante dos banqueiros franceses e internacionais. 

Sua candidatura se concretizou diante do crescimento da extrema direita, representada por Le Pen, e do desfalecimento dos dois partidos tradicionais do regime político francês: o Partido Socialista e os Republicanos.

A gestão de Macron, apesar de muito apoiada pela burguesia, foi muito acidentada. Seu governo além de manter a condução neoliberal, responsável pela crise do regime francês, aprofundou-a. Como resultado, desenvolveram-se uma série de manifestações fortíssimas contra o governo: os protestos dos chamados “coletes amarelos”, em referência à peça típica do vestuário operário, principalmente dos trabalhadores da construção civil.

No final de 2019, auge das mobilizações, o índice de aprovação de Macron era de apenas 24%. Com o início da pandemia, o governo francês viu em suas mãos a desculpa perfeita para acabar com as manifestações. Macron impôs um dos regimes mais draconianos de isolamento social da Europa em mais de uma oportunidade, acompanhando as quatro ondas da covid-19 no velho continente.

Apesar da resposta medíocre à crise de saúde pública, a interrupção do movimento operário francês deu um respiro para que Macron recuperasse um pouco de sua popularidade. De acordo com o portal Politico, no final do mês passado, o presidente francês ainda tinha cerca de 44% de aprovação.

O índice, porém, não indica de forma alguma que Macron seja popular. Um forte indício disso é o fato do presidente ainda não ter anunciado sua candidatura a menos de 4 meses para a eleição. Macron aparece como líder nas pesquisas de opinião, mas apenas com 24% das intenções de voto. Essa insegurança demonstra uma fraqueza do candidato de “centro” que deve competir com um grande número de adversários à esquerda e à direita.

Evolução à direita

No último dia 4, as primárias dos Republicanos decidiram pela candidatura de Valérie Pécresse à presidência. A candidata surpreendentemente derrotou em segundo turno Éric Ciotti, que havia recebido a maioria dos votos no primeiro turno da votação, no dia anterior.

Apesar de não ter ganho a candidatura, Ciotti representa uma evolução à direita dos republicanos e de seu eleitorado. Ao conquistar a maioria dos votos nas primárias de seu partido, o pré-candidato foi elogiado por Éric Zemmour, que ficou feliz em ver que “suas ideias haviam sido vitoriosas” dentre os Republicanos.

Após a confirmação da derrota de Ciotti, Zemmour publicou uma carta aberta em suas redes sociais, direcionada a seus “simpatizantes republicanos”. O candidato de extrema direita convidou seus pretensos apoiadores a participarem de seu primeiro comício eleitoral no último dia 5.

Pécresse abriu as pesquisas com cerca de 15% de intenção de votos, no meio do caminho entre Zemmour e a tradicional candidata da extrema direita, Marine Le Pen.

A candidata do Reagrupamento Nacional, que foi ao segundo turno contra Macron em 2017, aparece apenas com 17% das intenções de voto. Apesar de seu tradicional posicionamento de extrema direita, Le Pen procurou amenizar seu discurso após o crescimento eleitoral de seu partido.

Le Pen, assim como Matteo Salvini na Itália, se integrou ao sistema para os olhos da população. Na França, isso inaugurou uma avenida à sua direita para uma candidatura como a de Zemmour. Na Itália, partidos à direita da Liga, de Salvini, crescem rapidamente. Em ambos os casos, vemos a desintegração da extrema direita “civilizada”.

Para exemplificar o grau de evolução à direita no regime francês, Zemmour é apoiado pelo pai de Marine Le Pen e fundador do Reagrupamento Nacional (antiga Assembleia Nacional), o general Jean Marie Le Pen. O ex-militar participou da sangrenta guerra da França contra o povo argelino, que lutava por sua independência após a Segunda Guerra Mundial.

O pai de Le Pen também fez parte do grupo de militares que tentou dar um golpe de Estado no general Charles De Gaulle, então presidente da França, no início dos anos 1960. Esse grupo era contra a posição “conciliadora” do governo francês em relação às suas antigas colônias.

Esquerda fragmentada

Assim como na direita, há muitos candidatos na esquerda. Seu desempenho nas pesquisas eleitorais, porém, é muito inferior.

Na ala mais moderada está o Partido Socialista, cuja candidata à presidência é Anne Hidalgo, atual prefeita de Paris. No agregado das pesquisas de opinião, Hidalgo nunca ultrapassou a marca dos 7% de intenção de voto. Como forma de viabilizar sua candidatura, no último dia 8 a socialista propôs uma unificação da esquerda numa primária multipartidária, que decidiria o candidato do bloco. 

A proposta, para dar certo, precisaria ser acatada por Jean-Luc Mélenchon, o candidato à presidência pela França Insubmissa. Em 2017, Mélenchon obteve quase 20% dos votos, ficando pouco menos de 5% atrás de Macron e 2% atrás de Le Pen. Para 2022, porém, suas intenções de voto oscilam em torno dos 10%. 

O Partido Comunista Francês, que nas últimas duas eleições apoiou Mélenchon, pretende dessa vez lançar candidato próprio. Fabien Roussel, presidente do partido, aparece com pouco mais de 2% das intenções de voto.

Por fim, a ala mais combativa da esquerda francesa está dividida entre dois candidatos: Philippe Poutou, do Novo Partido Anticapitalista, e Nathalie Arthaud, do partido trotskista Luta Operária. Ambos possuem aproximadamente 1% das intenções de voto.

A fragmentação dificulta a participação da esquerda nas eleições por conta da necessidade de 500 assinaturas de oficiais eleitos por candidato. O procedimento é apenas de praxe para partidos tradicionais como o Partido Socialista, que ainda controla boa parte da máquina política francesa, mas é um desafio para os partidos menores e, inclusive, para Mélenchon.

A aliança com os socialistas, nesse sentido, seria conveniente. Por outro lado, a integração ao regime político, a aliança com um dos partidos tradicionais (do qual Mélenchon fazia parte) poderia ter o efeito oposto do desejado e afastar o eleitorado mais aguerrido no atual cenário de polarização política.

Revolta antissistema

Assim que a extrema direita se incorpora ao sistema, logo surge uma opção ainda mais à direita, que se apresenta como antissistema. Na esquerda, porém, ainda não existe uma força que se apresente radicalmente contra o regime capitalista, que possa atuar como um pólo oposto. A tendência tem sido uma integração ao sistema, a política do mal menor.

Na Europa, a extrema direita trabalha de forma demagógica com duas questões que afetam profundamente a classe trabalhadora. Uma é a União Europeia, vista por muitos trabalhadores como a causa de sua moeda supervalorizada, da imigração em massa, da perda de postos de trabalho industriais. Outra, decorrente da primeira, é o crescente número de imigrantes no país.

Na prática, o mercado comum europeu nada mais é do que um outro nome para a política neoliberal. O grande fluxo de imigrantes ao velho continente apenas reflete a necessidade que os capitalistas europeus têm por mão-de-obra barata, principalmente para o setor de serviços. Ao mesmo tempo, a destruição de empregos industriais, de qualidade, e a desindustrialização parcial da Europa também se relacionam com o interesse dos capitalistas em levar suas fábricas para lugares onde a exploração do trabalhador é maior, ou seja, onde podem obter maiores lucros.

A extrema direita apresenta um discurso meramente ideológico que não se opõe de fato aos problemas dos trabalhadores. Zemmour, por exemplo, fala na descaracterização – ou “islamização” – da França. Anuncia que o país atravessa um “perigo mortal”. São discursos vazios que apelam para o conservadorismo de certos setores da classe operária.

A esquerda, porém, embarca numa demagogia similar através da política identitária. A influência dessa ideologia imperialista na esquerda francesa ficou mais transparente na ocasião do incêndio da Catedral de Notre-Dame, em 2019. Hafsa Askar, vice-presidente da União Nacional dos Estudantes Franceses de Lille, declarou em suas redes sociais: “eu não ligo para a Notre-Dame porque eu não ligo para a história da França”. Momentos mais tarde disse que tudo não passava de “um delírio de homens brancos”.

A esquerda deve se opor aos ataques racistas e fascistas da extrema direita aos trabalhadores imigrantes. Opor isso à destruição da cultura francesa, porém, é combater uma política reacionária com outra igualmente reacionária. É um posicionamento político meramente ideológico que não responde de forma alguma aos anseios da classe operária francesa e afasta a população que, em sua maioria, valoriza a cultura nacional.

Para combater o avanço da extrema direita, Le Pen, Zemmour e os próprios candidatos neoliberais como Pécresse e Macron, a esquerda deve se apresentar como a verdadeira força opositora do regime capitalista.

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