O “apagão” na internet revela o poder dos monopólios

Mesmo após queda simultânea de Facebook, Whatsapp e Instagram, o conglomerado deve se manter intacto
Share on facebook
Share on twitter
Share on whatsapp
Share on telegram
Share on email

A primeira semana de outubro foi tortuosa para Mark Zuckerberg. O fundador e acionista majoritário do Facebook, empresa que também controla as redes sociais Whatsapp e Instagram, perdeu US$6 bilhões devido à queda no valor de mercado de sua empresa e caiu da quarta para a quinta posição na lista de pessoas mais ricas do mundo.

Além disso, no mesmo dia, uma ex-funcionária da empresa, Frances Haugen, deu seu testemunho ao Senado norte-americano sobre a forma como o Facebook opera sua plataforma. Haugen, que vazou documentos internos da empresa ao The Wall Street Journal ao longo das últimas semanas, acusa seus antigos empregadores de serem fiéis ao capitalismo, ou seja, de colocarem lucros acima do interesse público.

Apesar disso, no último dia 5, logo após o testemunho de Haugen e a queda dos serviços do Facebook, as ações da empresa voltaram a crescer. “Francis Haugen quer consertar o Facebook, não reduzí-lo a cinzas“, disse o senador Richard Blumenthal após ouvir seu testemunho, procurando amenizar o conteúdo das denúncias. 

Zuckerberg apenas levou um susto. Apesar das diversas razões para se desmantelar um monopólio como o Facebook, como o próprio apagão e as denúncias de Haugen, a própria denunciante e o senador norte-americano preferem deixar a empresa como está e, é óbvio, faturarem em cima do império das redes sociais, de diversos modos.

Quase 3 bilhões de pessoas impactadas

Tramita na justiça norte-americana um processo da Comissão Federal do Comércio – instituição norte-americana responsável por garantir os direitos do consumidor e o direito à livre concorrência – contra o Facebook. O principal ponto de sustentação da acusação é a aquisição das plataformas Whatsapp, em 2014, e Instagram, em 2012.

Após fracassar em competir com novos inovadores, o Facebook ilegalmente os comprou e os enterrou quando a sua popularidade se tornou uma ameaça existencial [para o Facebook]”, disse Holly Vedova, diretora do escritório de competição da agência, em comunicado oficial em agosto deste ano. 

O caráter nocivo dessa aquisição se fez evidente durante o apagão do dia 4. Um problema técnico na infraestrutura do Facebook provocou a queda não apenas de uma, mas de três das grandes redes de propriedade de Zuckerberg que, desta forma, acaba controlando serviços fundamentais de comunicação do mundo moderno.

Ao redor do mundo, uma média de 2,76 bilhões de pessoas – isto é, quase 35% da população mundial e mais da metade dos que têm acesso à internet – usam ao menos um produto do Facebook por dia. Os dados vêm de um levantamento realizado pela própria empresa, em junho deste ano. 

Ademais, de acordo com estimativa da agência de análise de mercado Sensor Tower, o Whatsapp foi usado para enviar mais de 100 bilhões de mensagens por dia e foi instalado em mais de seis bilhões de dispositivos desde 2014, desde quando o Facebook o adquiriu.

Serviços essenciais

Esses números, porém, não revelam o real impacto da queda em cada país. Há poucos países como a Rússia ou a China onde, por motivos políticos ou econômicos, os produtos do Facebook não são populares. Há outros, como o Brasil e a Índia, onde a empresa possui acordos com os provedores de internet celular locais para que o tráfego em produtos do Facebook não consuma o plano de dados de seus usuários, fortalecendo sua posição monopolista.

Na Índia e em grande parte da América Latina e da África, os serviços oferecidos pelo Facebook são, na prática, a própria internet. Chamadas por Whatsapp são mais baratas e substituíram as chamadas telefônicas tradicionais. Em muitos países, como já é o caso no Brasil, o Whatsapp é até mesmo utilizado para realizar transações financeiras. 

Além disso, médicos usam as diversas plataformas para manter contato com seus pacientes, campanhas políticas são realizadas pelas redes sociais, muitos usam os serviços do Facebook para se autenticarem em outros serviços de internet, etc. Há ainda profissionais dedicados à produção de conteúdo para essas plataformas.

Perto do impacto global em emergências médicas não atendidas, negociações não concretizadas e desencontros, o pequeno susto de Mark Zuckerberg ao ver as ações de seu monopólio oscilarem – fato destacado nas manchetes dos principais jornais do mundo – foi insignificante.

Exploração dos usuários

A má gestão de sua infraestrutura tecnológica, sem qualquer controle externo e sem a necessidade de dar qualquer satisfação a todos que dependem dos serviços para conduzir seu dia-a-dia, é, porém, apenas uma das muitas faces dos problemas impostos a bilhões de pessoas pelo “império do Facebook”. 

Frances Haugen em suas limitadas denúncias ao Senado dos EUA, por exemplo, buscou destacar aspectos sociais ou identitários do predomínio do monopólio.

Por mais de cinco horas o Facebook não foi utilizado para aprofundar divisões, desestabilizar democracias e fazer jovens meninas e mulheres se sentirem mal com seus corpos“, disse aos senadores norte-americanos. 

O Facebook está praticamente livre de qualquer controle, ao mesmo tempo em que tem poderes ditatoriais para controlar dados e postagens de bilhões de pessoas. Os anúncios, principalmente aqueles que visam o público infantil e adolescente, por exemplo, têm péssimos efeitos colaterais. Uma das principais denúncias feitas pela ex-funcionária do Facebook foi a de que uma pesquisa interna realizada na empresa revelou que 32% das jovens que usam o Instagram se sentem mal com seus corpos. A mesma pesquisa ainda apontou que 13% das jovens britânicas entrevistadas atribuía depressão e pensamentos suicidas ao uso contínuo da plataforma.

Nos meios de comunicação tradicionais, a publicidade infantil já foi amplamente regulada, ainda que de forma limitada e muitas das vezes reacionária, mas o Facebook está isento até mesmo dessas limitadas regras, explorando seus usuários mais jovens extensivamente.

Outra denúncia importante de Haugen foi a de que o algoritmo opaco que decide as postagens e a ordem em aparecem no seu mural está especificamente ajustado para produzir reações emocionais nos usuários, mantendo-os por mais tempo na plataforma.

Em outras palavras, o Facebook lucra com a polarização política, linchamentos virtuais e com o seu fomento. Quanto mais tempo os usuários permanecerem na plataforma, mais anúncios eles verão e mais dinheiro entrará nos cofres do monopólio.

Consertar o Facebook?

Com Instagram, Whatsapp e Facebook em mãos, a empresa centraliza informações valiosas sobre seus usuários que são vendidas para anunciantes, lhes rendendo lucros exorbitantes. O surgimento de uma alternativa economicamente viável é praticamente impossível já que o valor do Facebook não está na tecnologia que a empresa desenvolve, mas nos dados capturados ao longo de mais de uma década não apenas em uma, mas em três redes sociais diferentes.

Ainda assim, apesar do apagão e de todas as denúncias, tanto Haugen como os políticos norte-americanos não estão interessados em quebrar esse monopólio monstruoso. Querem apenas “regulá-lo”, “domesticar o monstro”. Em outras palavras, o Estado imperialista, que representa o interesse dos grandes monopólios, quer acabar com o único ponto positivo do Facebook: furar o bloqueio da imprensa burguesa, estabelecendo a censura sobre a atividade que não seja da vontade dos capitalistas. 

Sob o disfarce do “combate à desinformação”, querem empastelar os murais das pessoas e acabar com o debate público cada vez mais polarizado nesse momento de crise aguda do capitalismo. Desse ponto de vista, fragmentar o Facebook dificultaria a criação desse mecanismo único e central de censura.

Todos, menos a população, ganham com esse acordo. Zuckerberg e seus acionistas continuam com seu monopólio; os Estados burgueses ganham uma ferramenta de censura poderosíssima – única em escala global; e a população ganha um serviço falho, mal administrado e censurado.

Central de Vendas

Entre em contato pelo WhatsApp  11 99867-9315 ou pelo E-mail jcoadm29@gmail.com

Precisa de ajuda?

Em caso de dúvidas, ou se quiser recuperar seu “Usuário”, envie mensagem para 11 99867-9315 ou pelo E-mail jcoadm29@gmail.com

Faça já sua assinatura digital de Causa Operária:
  • Assinatura Mensal Digital Completa (por quatro semanas) por R$ 11,99 um único mês, você pode optar pela renovação automática, descontando R$ 11,99 todo mês da sua conta.
  • Assinatura Semestral Digital Completa (por vinte e quatro semanas) por R$ 64,99 pagamento único.
  • Assinatura Anual Digital Completa (por quarenta e oito semanas) por R$ 99,99 pagamento único.

Menu Principal

Ajuda, Dúvidas e Televendas