A crítica social no teatro de Álvares de Azevedo

Quarta e última parte do ensaio “Álvares de Azevedo, o poeta político do ultrarromantismo”, publicado por ocasião dos 190 anos do nascimento do escritor
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Álvares de Azevedo era um apaixonado pelo teatro. Durante seus anos de universitário, era um frequentador assíduo dos espetáculos organizados pelos colegas da Academia, e também da magra programação teatral da capital paulista. Segundo revelam suas cartas, a maior parte das coisas que via eram decepcionantes: “Quinta-feira aqui houve teatro. Nunca vira coisa tão ruim”. Apesar disso, ele era um entusiasta da arte dramática e de seu potencial de comunicação com o público. O poeta teve oportunidade de expressar textualmente as tarefas que ele considerava obrigação da arte teatral: “Quando o teatro se faz uma espécie de taberna do vendilhão, vá que especule com a ignorância do povo. Mas quando a companhia do teatro está debaixo da inspeção imediata do Governo, deverá continuar esse sistema verdadeiramente imundo? Não: o teatro não deve ser escola de depravação e mau gosto. O teatro tem um fim moralizador e literário: é um verdadeiro apóstolo do belo. Daí devem sair as inspirações para as massas. Não basta que o drama sanguinolento seja capaz de fazer agitarem-se as fibras em peitos de homens-cadáveres. Não basta isto: é necessário que o sonho do poeta deixe impressões ao coração e agite n’alma sentimentos de homem. Para isso é preciso gosto na escolha dos espetáculos, na escolha dos atores, nos ensaios, nas decorações. E desse todo de figuras grupadas com arte, do efeito das cenas, que depende o interesse.” 

Esta é uma passagem muito interessante de seus escritos. É uma das raras ocasiões em que o poeta teve oportunidade de se expressar em termos teóricos sobre a tarefa da arte em geral. É certo que sua opinião sobre o teatro se estendia para todas as áreas da criação, como fica claro quando ele afirma que o fim do teatro é “moralizador e literário”, acrescentando ter ele a obrigação, por isso, de ser um “discípulo do belo”. 

Em sua curta vida, Álvares de Azevedo não teve oportunidade de dedicar muito de seu tempo ao teatro. Deixou, porém, dois fragmentos dramáticos importantes, um em verso e outro em prosa: Boêmios e Macário, respectivamente.

Uma das grandes qualidades destes textos é que neles surgem novamente elementos da crítica política de Álvares de Azevedo às “autoridades” de sua época, e à sociedade de um modo geral, achincalhando padres, reis e toda a oficialidade com grande desenvoltura.

“Boêmios”: uma crítica à monarquia

A peça que primeiro ele escreveu foi o fragmento de Boêmios, que hoje não é mais publicado como texto independente, mas figura na segunda parte de Lira dos Vinte Anos.

O texto é uma comédia satírica. Ele se passa na Itália renascentista e começa quando Puff, um boêmio beberrão que dorme na rua agarrado à sua garrafa, é acordado aos chutes por Nini, que passava ali no meio da madrugada. Enquanto Puff ainda está atordoado, Nini, afirma ter acabado de compor  sua obra prima poética. Puff ridiculariza Nini e sua poesia: dois produtos do alcoolismo. Em contrapartida, ele afirma:

“Sou um homem de peso. Entendo a vida,

Tenho muito miolo; e a prova disto

É que não sou poeta, nem filósofo…

E gosto de beber, como Panúrgio.

Se tu fosses tonel, como pareces,

Eu te bebera agora de um só trago.”

Nini está prestes a recitar seu poema quando surge subitamente Giamboletto, às pressas por causa da morte de um cônego. Puff não se contêm e começa a denunciar toda a depravação dos padres locais: alcoólatras, glutões, farristas e libertinos. Depois da rápida passagem de Giamboletto, Nini finalmente começa a recitar a Puff sua poesia recém-criada. Era uma narrativa romântica, macabra e repleta de acontecimentos fantásticos. Ela começava quando o irmão do rei, um sonhador atormentado que vagava pelo reino como um sonâmbulo, encontra “na areia fria uma branca donzela desmaiada, que um naufrágio na praia arremessara”. Ele a leva para sua cabana no bosque e lá eles se amam secretamente. Certo dia, porém, o bobo real, Laríolo, passa pela casinha e vê ali o príncipe e sua amada. Para pregar uma peça no rapaz, o bobo discretamente atrai para ali o rei, que diante da visão da beleza da moça, cai apaixonado. Ao contrário do que se poderia esperar, ela, “por um capricho, voluptuoso assomo, entregou-se ao amor do Rei…”. O príncipe aparece ali naquele momento, e ambos os irmãos lutam até a morte. Nenhum sobrevive. Sobrando apenas Laríolo, ele cava, nas montanhas, a sepultura dos dois irmãos, e ali os enterra, tomando a moça pela mão. O bobo volta ao reino e promete ao povo redução dos impostos e diversão. Ao exército, promete vinho, e aos fidalgos, consentiria com todos os seus vícios. Ele arranca, assim, seu chapéu de bufão e coloca em seu lugar a coroa. Sua única desgraça, conta Nini, é que um dia, a “moça pálida” fugiu do castelo e Laríolo nunca mais a encontrou. 

“Muitos anos passaram. Loríolo

Era um sublime Rei. De Rei a Bobo

Já tantos têm caído! Não admira

Que um Bobo sendo Rei primasse tanto.

Governava tão bem como governam

Os Reis de sangue azul e raça antiga.

Demais gastava pouco e, se não fosse

Seu amor pelas alvas formosuras,

Decerto que na lista dos monarcas

Ele ficava sendo o Rei-Sovina.”

Eis que um dia o reino é tomado de assalto por piratas normandos, e no momento em que Laríolo tinha finalmente oportunidade de dar provas de seu valor, ele, obviamente, tomado de tremedeiras, esconde-se na adega real para se embriagar. De puro medo ele cai morto. O pirata normando, sabendo a verdadeira identidade do rei, proclama: “O Bobo que foi Rei ninguém sepulta…”. E o corpo fica jogado na rua. 

Era este o final cômico da peça, que logo em seguida, retomava os diálogos entre Nini e Puff. O texto, apesar de inacabado, mostra a veia humorística e satírica de Álvares de Azevedo, desmoralizando totalmente a imagem do regime monárquico ao mostrar que qualquer bufão que se dispuser a encobrir a corrupção geral do reino era um bom candidato ao trono. 

“Macário” e a crítica do romantismo

Macário é uma peça em dois atos onde transcorrem alguns episódios em torno de duas personagens centrais, os estudantes Macário e Penseroso. 

Macário é o protagonista do primeiro ato. Ele vai passar a noite em uma estalagem na estrada e ali conhece com um estranho, que mais tarde revela ser o diabo. Nestes diálogos iniciais Macário se apresenta: “eu sou um estudante. Vadio ou estudioso, talentoso ou estúpido, pouco importa. Duas palavras só: amo o fumo e odeio o Direito Romano. Amo as mulheres e odeio o romantismo”. Macário é um niilista, um desiludido, uma mente realista avessa à fantasia: “Gosto mais de uma garrafa de vinho que de um poema, mais de um beijo que do soneto mais harmonioso. Quanto ao canto dos passarinhos, ao luar sonolento, às noites límpidas, acho isso sumamente insípido. Os passarinhos sabem só uma cantiga. O luar é sempre o mesmo. Esse mundo é monótono a fazer morrer de sono”. Ele acrescenta uma consideração sobre a criação poética: “Enquanto era a moeda de ouro que corria só pela mão do rico, ia muito bem. Hoje trocou-se em moeda de cobre; não há mendigo, nem caixeiro de taverna que não tenha esse vintém azinhavrado. Entendeis-me?”. Eis que o diabo responde a isso: “Entendo. A poesia, de popular tornou-se vulgar e comum. Antigamente faziam-na para o povo; hoje o povo fá-la-á para ninguém”.

Fica muito claro na leitura da peça que Macário é um autorretrato em cores fortes de Álvares de Azevedo, enquanto que Penseroso, era provavelmente o retrato de um de seus colegas do Largo São Francisco, Feliciano Coelho Duarte, aluno do quinto ano que se suicidou em 1850.

Esta personagem, Macário, é reveladora da profunda desilusão do poeta por volta de 1851, quando ele escreve este texto. Se Álvares de Azevedo não acreditava plenamente nas palavras de Macário, ele ao menos já se colocara o problema da inutilidade da atividade literária em solucionar os problemas do mundo real, e o profundo divórcio que existia entre sua vida e seus ideais românticos. Existe também uma surpreendente nota comum entre esta personagem de Álvares de Azevedo e a vida do poeta simbolista francês Arthur Rimbaud, que, no final do século XIX, abandonaria completamente a literatura para viver uma vida de aventuras na África ou, ainda, com os realistas dos anos 60 na Rússia que rejeitam o romantismo em prol do realismo e da revolução social.

Sobre as mulheres, o diabo pergunta Macário: “Falas como um descrido, como um saciado! E contudo ainda tens os beiços de criança! Quantos seios de mulher beijaste além do seio de tua ama de leite? Quantos lábios além dos de tua irmã?”. E Macário responde enfadado: “A vagabunda que dorme nas ruas, a mulher que se vende corpo e alma, porque sua alma é tão desbotada como seu corpo, te digam minhas noites. Talvez muita virgem tenha suspirado por mim! Talvez agora mesmo alguma donzela se ajoelhe na cama e reze por mim!”. O diabo finalmente questiona: “Na verdade és belo. Que idade tens?”. E Macário: “Vinte anos. Mas meu peito tem batido nesses vinte anos tantas vezes como o de um outro homem em quarenta”.

É nesta altura da peça que surge, mais claro do que nunca, a verdadeira concepção de Álvares de Azevedo sobre o amor, assunto que tratamos anteriormente, a chave que desfaz as dúvidas sobre o caráter de sua incansável busca amorosa na poesia. Ele se expressa em termos claros: o amor físico é banal, comum, está ao alcance das mãos. Coisa que já não acontece com a verdadeira ligação amorosa. 

O diabo interroga Macário: “E amaste muito?”. O jovem responde: “Sim e não. Sempre e nunca”. E o diabo: “Fala claro”. Finalmente, confessa o estudante: “Mais claro que o dia. Se chamas o amor a troca de duas temperaturas, o aperto de dois sexos, a convulsão de dois peitos que arquejam, o beijo de duas bocas que tremem, de duas vidas que se fundem …tenho amado muito e sempre!… Se chamas o amor o sentimento casto e poro que faz cismar o pensativo, que faz chorar o amante na relva onde passou a beleza, que adivinha o perfume dela na brisa, que pergunta às aves, à manhã, à noite, às harmonias da música, que melodia é mais doce que sua voz; e ao seu coração, que formosura mais divina que a dela…eu nunca amei. Ainda não achei uma mulher assim”.

A conversa se encerra e o diabo convida o estudante a viajar com ele. A figura sinistra acompanha Macário para uma cidade decadente, tomada pela devassidão, pela promiscuidade. É um lugar cujo nome nunca é mencionado, mas que obviamente é São Paulo. “Hás de vê-la desenhando no céu suas torres escuras e seus casebres tão pretos de noite como de dia, iluminada, mas sombria como uma essa de enterro”, afirma o diabo, que acrescenta ainda que ali vivem “mulheres, padres, soldados e estudantes. As mulheres são mulheres, os padres são soldados, os soldados são padres, e os estudantes são estudantes: para falar mais claro: as mulheres são lascivas, os padres dissolutos, os soldados ébrios, os estudantes vadios”. A isto Macário responde que a cidade deveria levar o nome do próprio diabo para lhe fazer jus. O diabo comenta: “Tem o de um santo: é quase o mesmo. Não é o hábito que faz o monge. Demais, essa terra é devassa como uma cidade, insípida como uma vila e pobre como uma aldeia. Se não estás reduzido a dar-te ao pagode, a suicidar-te de spleen, ou a alumiar-te a rolo, não entres lá. É a monotonia do tédio. Até as calçadas!”. Com esse retrato sinistro de São Paulo, Álvares de Azevedo desferia seu ataque contra a sociedade paulistana que tanto ele desprezava.

Macário é o retrato do desiludido supremo, que abandonou todos os ideais e afunda nos vícios para burlar o tédio. Ele vive horas de prazer na cidade maldita para, subitamente, acordar na estalagem. O final da obra é menos original que seu desenvolvimento anterior. Macário se convence de que havia sonhado, apenas para, logo depois, ver as pegadas de bode queimadas no chão, constatando que fora tudo verdade. O segundo ato da peça não desenvolveremos aqui, mas o que vale destacar é que nele o poeta contrapõe ao niilista Macário, o romântico Penseroso, e, após travarem uma longa conversa sobre o sentido da vida, e a validade do romantismo, Penseroso se mata, como se matou o estudante que inspirou a personagem. Macário surge pois, como uma consciência já desiludida dos ideais românticos que o próprio Álvares de Azevedo cultivava. Este escrito traz à luz talvez um período de transição do poeta para outras formas de expressão em sua arte, questão que, dada sua morte menos de um ano mais tarde, nunca poderá ser solucionada.

“Que fatalidade meu pai!”

Melhor que qualquer outro texto, Macário marca esta etapa final de desilusões de Álvares de Azevedo, onde a descrença é o leitmotiv. Nesta altura, ele vivia já assolado por uma terrível sensação de morte. Ideia fixa que transparece em registros de suas conversas com amigos e parentes, e, mais do que tudo, em suas últimas poesias. Foi nesta ocasião que ele escreveu um dos poemas mais densos de sua obra, Se Eu Morresse Amanhã:

“Se eu morresse amanhã, viria ao menos

Fechar meus olhos minha triste irmã;

Minha mãe de saudades morreria

Se eu morresse amanhã!

Quanta glória pressinto em meu futuro!

Que aurora de porvir e que manhã!

Eu perdera chorando essas coroas

Se eu morresse amanhã!

Que sol! que céu azul! que dove n’alva

Acorda a natureza mais louçã!

Não me batera tanto amor no peito

Se eu morresse amanhã!

Mas essa dor da vida que devora

A ânsia de glória, o dolorido afã…

A dor no peito emudecera ao menos

Se eu morresse amanhã!”

Não foi muito tempo depois que Álvares de Azevedo, então em férias no Rio de Janeiro, tomou um tombo durante um passeio a cavalo. Ele passou vários dias sentindo uma forte dor no quadril até que um médico foi chamado e diagnosticou estar o poeta com um “tumor da fossa idílica”. Poucos dias mais tarde ele foi submetido a uma operação, sedado apenas com uma ingestão de ópio. Foi durante o delicado processo de recuperação que sua saúde se agravou, matando-o dez dias mais tarde, em 25 de abril de 1852. Suas últimas palavras teriam sido: “Que fatalidade meu pai!”. Morria assim, aos 20 anos, o mais espantoso caso de precocidade da poesia brasileira.

Apenas um ano antes, Álvares de Azevedo, estava presente ao enterro de um de seus colegas de Academia, João Batista da Silva Pereira Júnior, aluno do quinto ano de Direito. Nesta ocasião, o poeta proferiu um discurso grave que poderia ter sido reproduzido em seu próprio enterro. Aludindo à superstição existente na faculdade de que todos os anos um aluno do quinto ano haveria de morrer, Álvares de Azevedo falou aos presentes: “Navegantes misérrimos pelo oceano da morte, a nau que conduz as nossas esperanças para o Oriente do futuro tem uma sina terrível! Cada ano uma vítima se perde nas ondas e a sorte escolhe sorrindo os melhores dentre nós! Há um ano que aqui viemos, os mesmos de hoje, acompanhar um cadáver e murmurar um adeus à mais bela das esperanças acadêmicas. Parece que uma sina misteriosa nos trouxe hoje para as reminiscências amargas de uma noite fatal! É mais uma das flores da coroa da mocidade que se desfolha ao vento do sepulcro! Ainda uma fronte que se dourava ao sol do futuro, como o alto das serranias ao fogo do crepúsculo. Nessa fronte, deserta agora, palpitava o talento; nestes olhos, ora vidrados e sem luz, se transverberava uma alma ardente, esperançosa e dotada dessa força de vontade que pode realizar as concepções mais sublimes. Dorme, ó filho da dor, embalado pela morte!”.

O corpo do poeta foi enterrado inicialmente no Cemitério da Praia Vermelha. Durante um furacão, porém, ocorrido em 1855, que arrancou do túmulo o caixão do poeta, seu corpo foi trasladado para o cemitério de São João Batista, onde, sobre uma grande pedra de mármore, foi gravado um epitáfio retirado diretamente de seus versos:

“Descansem o meu leito solitário
Na floresta dos homens esquecido
À sombra de uma cruz e escrevam nela:
– Foi poeta – sonhou – e amou na vida!”

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